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Saturday, April 21, 2012


Eis o aviso que me apetece oferecer aos meus vizinhos e porteiros.

Não há passo que dê que não seja monitorizado e registado num caderno pelos porteiros do meu prédio.
Não há pessoa que entre na minha casa que não seja motivo de minuciosa observação e inquérito (especialmente se o visitante for um homem).
Não há orgia báquica que não imaginem sempre que recebo vários amigos em casa.
Não há paciência para os maus tratos e envenenamento de que são alvo os animais que ousam passar pelo prédio.
Ou pachorra para aturar a cara de assombro dos porteiros quando me vêem entrar em casa com dois "cappuccinos", julgando que se trata de uma bebida extra para alguém que passou a noite comigo (sem estarmos casados!!!Um escândalo).

Apetecia-me limpar o prédio destes parasitas desocupados que se julgam donos das vidas alheias e Deuses Todos Poderosos para julgar quem não conhecem mas jamais a si mesmos e às suas múltiplas trafulhices.
Era colocar umas bombinhas simpáticas na sala de estar destes "Hercule Poirots" egípcios e vê-los irem pelos ares, deixando espaço a quem tem mais que fazer do que olhar para o jardim do vizinho do lado, declarando-o sempre mais verde e pecaminoso do que o seu próprio jardim.

Thursday, April 19, 2012



E é assim que fico (olhar para a imagem à vossa direita)quando ouço o mítico "Inshah Allah..."

Estou à espera do meu "caramel latte" num Starbucks do Cairo quando reparo num "brownie" de aspecto apetitoso exposto na montra da comida. Pergunto ao empregado:
-Este "brownie" é fresco?
-"Inshah Allah" ("Se Deus quiser").
-Não entendeu a pergunta.Quero dizer: se o "brownie" é de hoje, se foi entregue recentemente ou se já aqui está há dias...
-"Inshah Allah".
-...Se estiver seco, volto cá e devolvo-o. Fica avisado.
-"Inshah Allah".
(Alguém desliga, por favor, o botão do "Inshah Allah" que ficou bloqueado em sistema de piloto automático. Muito obrigada.)

Conclusão: permiti que a minha gulodice ganhasse sobre o bom senso de experiência adquirida e levei o "brownie", descobrindo que estava, de facto, mais seco do que tijolos. O termo "Inshah Allah" é usado e abusado para desresponsabilização das pessoas que o usam. Quer dizer, então o "brownie" é fresco, se Deus quiser???!!! Mas que raio quer isso dizer?

"Bokra,Inshah Allah! (Amanhã, se Deus quiser!)" ou um solitário mas conciso "Inshah Allah" atirado ao ar são as desculpas perfeitas para quem não tem a mínima intenção de se comprometer. Está TUDO nas mãos de Deus e nada nas minhas. Reparem só que conveniente que é...

Wednesday, April 18, 2012



Cursos de auto~estima exacerbada.

Disponíveis por todo o mundo árabe actual e com sede no Cairo, Egipto.
Facilitadores: Homens comuns, do suportável ao mais aberrante, que se olham ao espelho e chegam à estranha conclusão: "Não há homem mais belo, charmoso, inteligente, irresistível, másculo, sedutor, PRECIOSO do que eu." Nas suas mentes de passarinho recém-nascido, até o espelho fica maluco e lhes atira um beijo molhado quando lhe lançam a clássica questão: Espelho meu, espelho, há alguém no mundo mais belo do que eu?!

Possível cenário:
Ali se encontra um professor espontâneo de "auto-estima" exacerbada, encostado a um poste, à esquina de uma rua cairota. Desempregado, sem perspectivas ou intenções de deixar de sê-lo. O seu universo intelectual não vai além do que comeu hoje ao pequeno-almoço mas aparenta trejeitos de génio. Desdentado, mal amanhado (tipo peixe de varina desleixada em dia de muita clientela), nariz protuberante, camisa aberta de onde se avista um tufo de pêlos que nâo avistam água há umas semanas. Tira macacos do nariz, cospe para o chão e coça as partes pudibundas enquanto o seu bigode se mexe autonomamente, como bicho que tem vida própria. O sonho de qualquer mulher, portanto! Passa um naco de carne fresca (vulgo mulher) por ele e a conquista está, na sua cabeca oca, garantida. "Quem poderá resistir ao meu charme e imensa beleza???"

O ritual repete-se com outros professores espontâneos espalhados pelo Médio Oriente e, em particular, no Cairo, sede principal da Organização. De onde vem esta auto-estima exacerbada e totalmente ilusória, eu não sei ao certo. Sei que gostaria que estes personagens se reunissem e dessem um curso intensivo ao pessoal: "COMO AUMENTAR a sua AUTO-ESTIMA para lá dos limites do sensato." Era sucesso garantido.

Tuesday, April 17, 2012

O que a maioria das senhoras egípcias/árabes pensam que eu, enquanto "rakasah", faço com os seus "homens"!



P.S. Eu sou o gato amarelo e o homem é o pobre gato preto, preso nas minhas sedutoras garras.
Sem comentários.


"RAKASAH", ou a vamp clássica que come maridos alheios ao pequeno-almoço.

"Bom dia, prazer em conhecê-la. Eu sou a vamp que come maridos alheios ao pequeno-almoço. Sugiro, para sua segurança, que tranque o seu des-amado num quarto até que me vá embora."

Personagens (reais):

1. Eu, apenas eu.
2. Um amigo chegado, egípcio do tipo comum mas com um coração raro (daí ser meu amigo).
3. Casal conhecido do meu amigo. Ambos ricos por herança e conexões privilegiadas com o Antigo Regime da Real Corrupção. Ambos de meia idade e com uma DAQUELES casamentos frequentes para os quais não existem razões aparentes, excepto interesses económicos em comum e o famoso comodismo que atira perfeitos estranhos para a cama um do outro.

Cenário:
Jardim da casa do casal. Mesa e cadeiras de veraneio, empregados ao nosso redor agindo com o tom servil colonialista (com a diferença que, neste caso, são egípcios explorando outros egípcios e não estrangeiros explorando egípcios...vai dar tudo ao mesmo, afinal!).

Início de conversa:

-Ah, então...tu és "bellydancer"?
-Sou bailarina.
-"Bellydancer"!
-Há quem me chame assim mas, na verdade, o que sou é B-A-I-L-A-R-I-N-A.
-Hmmm...vocês estão a invadir o Egipto, hã?
-Nós, quem?
-Ah, as russas e as "bellydancers" estrangeiras.Levam-nos os homens, suas marotas!
-Não sou russa, nem tão pouco "bellydancer". Para confirmar o que me diz, terá de falar com uma delas.
-Não...ahhhnnn...quero dizer...as "bailarinas" estrangeiras. Estão a invadir-nos, vocês.
-Ah, isso! Já vos invadimos há muito tempo. Desde o início dos anos noventa. Bem como os egípcios já invadiram o mundo inteiro há várias décadas. Chama-se mobilidade, emigração, liberdade de viver onde somos felizes.
-Sim, claro (expressão entre o choque e a profunda desorientação).

O meu amigo ajeita-se na cadeira, bebe um pouco de chá e aceita um trago do cigarro de haxixe que esta senhora da alta sociedade egípcia fuma com os modos de uma prostituta da rua das Pirâmides.

-Sabem que as "bellydancers" são famosas por roubar os maridos às egípcias.

Silêncio da minha parte porque, obviamente, a conversa não me diz respeito.

-Que tens a dizer sobre isso? - Dirigiu-se a senhora (?) a mim, apertando a mão ao marido que, bem mais delicado do que ela, se mostrava incómodo com a conversa.

-Já lhe disse que não sei nada sobre as "bellydancers" de que fala. Observo-as à distância, como a observo a si. Mas não têm nada em comum comigo.

-Ouvi a Nagwa Fouad dizer numa entrevista que era a única "bellydancer" a quem uma mulher "comum" roubara o marido quando o normal é que suceda o contrário.

-Não sei muito sobre os conflitos matrimoniais da Nagwa Fouad. Tive aulas com ela, tirámos fotografias juntas e assisti a uma conferência na qual ela contou parte do trajecto de carreira mas nunca me interessou saber quem lhe tinha roubado o marido. Além do mais, acho que os maridos não são guarda-chuvas para serem roubados.

-Ah, como não? Vais desculpar-me mas a fama das "bellydancers" - ou bailarinas, como queiras chamar-lhes - é a de que possuem truques de sedução capazes de virar a cabeça aos homens casados.

-Com truques ou sem truques, os homens divorciam-se porque querem e envolvem-se com outras mulheres porque querem. Não são crianças indefesas, raptadas por "vamps" poderosas.

-São sim, como crianças. E não quero que leves a mal mas sei de muitas histórias que lares distruídos por causa de mulheres da tua profissão...

E foi neste momento em que escolhi fazer-me de parva e calar-me para evitar dar uma lição de carácter educativo-agressivo a esta senhorinha muito "inhazinha" . Quantas vezes tive de gritar a plenos pulmões: "NÃO ESTOU INTERESSADA EM HOMENS CASADOS, EM GERAL. E MUITO MENOS INTERESSADA NO SEU MARIDO, EM PARTICULAR. RELAXEM!"

Mais curioso que tudo é constatar que as mesmas mulheres hiper receosas que as "bellydancers" lhes roubem os maridos são elas mesmas destruidoras de outros lares. Sem "belly".Sem "dance". Apenas pura putaria de quem olha para o jardim do vizinho e o acha mais verde do que o seu.

P.S. Cansadita de mentes tão porcas e básicas. Cansadita, confesso...

Thursday, April 12, 2012



Notícias do Egipto.




Bem que podia ter começado este "post" com uma frase mais auspiciosa mas...vamos a isto!


Assusta, pessoal...um pouco. Vá lá, bastante. Tenho de admitir.




São os Salafistas e a Irmandande Muçulmana às turras, a ver a quem calha a maior fatia do bolo, são candidatos atados ao Velho Regime de Hosny Mubarak descabelando-se - e lambendo as botas ao Exército que é quem, REALMENTE, manda no estaminé - e é o povo que se cobre, cada vez mais, de lenços na cabeça, vergonhas, pudores, repressões, aparências sobre essências, ignorância e preconceitos.


A cabeça do monstro foi arrancada mas o corpo está vivo, mais do que nunca, e por todo o Egipto. É um pouco como um daqueles filmes de terror nos quais o mau da fita só desaparece por entre as paredes do Inferno eterno quando todos os seus membros, sombras e projecções forem eliminados. Mas, por mais que o herói da fita os aniquile, parecem nascer novos membros das cinzas do maldito. O Egipto corrompido é assim: foi a cabeça de Hosny Mubarak mas deixaram à solta os membros, familiares e amigos que isto de ser ditador durante 30 anos requere uma boa rede de "amiguinhos e favores prestados".




Onde está a Revolução egípcia?! Alguns dizem que foi até às Caraíbas e por lá ficou, banhando-se na água azul turqueza e bebendo "daiquiris" com chapéus de sol e rodelas de limão. Outros dizem que se tornou freira e vive, reclusa, no famoso mosteiro do Sinai (onde o meu pai teve uma Iluminação Divina e a minha mãe se queixou da falta de ventilação). Eu digo que está em casa, a comer "mahshy e molokheya" (especialidades culinárias egípcias), cochichando com as outras mulheres, ocupando-se de telenovelas turcas e outros dramas inúteis da vida a que se chama REAL (???). A revolução egípcia tornou-se "mohagaba" e agora só toca as mãos dos homens com luvas e um ar de nojo impressionante. Acha que as filhas têm de ser bonitinhas e caladinhas e que os filhos têm de fazer muito dinheiro para serem chamados de "pachás" e comprarem alguma(s) filhas de outras revoluções. Bonitinhas. Caladinhas.






Querem MESMO saber mais notícias do Egipto?!



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"I didn´t think so..."



Da Paciência e outros animais em extinção.



Falta-me. Muito, cada vez mais. Ela nunca abundou em mim, isso é verdade. Essa qualidade tão difícil de classificar: a paciência. Não nasceu comigo e pronto. Pronta estou eu a explodir ao mais mínimo sinal de estupidez, xica-espertice, idiotice sem ideias, ignorância, sujidade ou maldade. Saltam-me todas as tampas da boa vontade, assim como as rolhas da compaixão pela escuridão alheia. Salta-me tudo o que põe água na fervura e amplia-se o que deita fogo ao circo. Em mim, na minha absoluta busca pela Excelência. Pelo menos, a tentativa da Excelência. O mais possível, um passo, um gesto, uma intenção limpa de enganos e manipulações. Uma atitude de amor, de querer fazer BEM porque sim, porque sabe bem à Alma.


Falta-me a paciência cujas reservas já andavam pela hora da morte. Isto já são alguns anos a virar frangos egípcios/árabes e pode dizer-se, em abono da verdade, que este não é serviço para qualquer um/a. É preciso ter-se OVÁRIOS, daqueles que abarcam o mundo e o navegam sem medos e com ousadia de sobra. Os Ovários - os meus - estão no sítio mas a paciência vai faltando.


É o chorrilho de ordinarices de cariz sexual com que me presenteiam sempre que saio à rua, qualquer rua do Cairo.

É o preconceito em relação ao meu trabalho que insiste em confundir-me com uma "streap-teaser" do "cabaret da coxa grossa".

É a rapariga muçulmana que leva uma tareia descomunal da família como manobra "correctiva", simplesmente porque ela se diz ter apaixonado por um rapaz cristão (casamentos entre mulheres muçulmanos e homens cristãos são ILEGAIS no Egipto).

São os falsos amigos, as relações por conveniência, as palmadinhas nas costas e as facadas que lhes seguem.

São os homens do dinheiro continuando a comprar coisas, pessoas, Revoluções como a egípcia.

São as mentalidades a regredirem, em vez de evoluirem, e os candidatos políticos a deixarem crescer as barbas e a impregnarem a testa de fungos para aparentarem ser religiosos extremados.


É isto e aquilo. É a DESUMANIDADE em geral. Mais do que algo em particular. A ausência de palavra de honra, de verdade, de pureza, de LIBERDADE, de horizontes onde a Justiça e a Inteligência prevaleçam sobre os "amiguismos" e os contratos de cama.


Paciência, onde andas?

P.S. Se alguém a vir por aí, por favor, peçam-lhe que me contacte através do meu email:



Grata.

Tuesday, March 13, 2012



Das barbas e das bimbalhadas.






Última moda no Cairo:

homens de barbas fartas e olhares vidrados no vazio e uma banda sonora omnipresente que se resume à recitação (por vezes bela e, por vezes, dolorosa de escutar) do sagrado Livro do "Corão".


A barba comprida e o calo a meio da testa parecem ser certificados físicos de crentes (crentes em quê, essa já é outra questão) que fazem questão de aparentar ser pios, cumpridores dos rituais da religião muçulmana e baluartes da moral instituída (moral essa que se rege, aparentemente, pela ausência de valores...hhmmmm...interessante e bizarro!).


Algures no "Corão" se descreveu o Profeta e seus seguidores usando barba, daí a moda renascida em tempos de ascenção da "Irmandade Muçulmana", dos Salafistas e outros grupos políticos (e friso POLÍTICOS, jamais RELIGIOSOS naquilo que concebo ser a RELIGIÃO).

Por alguma razão desconhecida criada pela 5ª Dimensão actual - também conhecida por EGIPTO - um homem que deixe crescer as barbas fica, automaticamente, mais sábio, íntegro e digno de respeito. Qual a relação entre a pilosidade facial e a consciência do indivíduo que a exibe, eu não sei!


O calo a meio da testa faz parte do "personagem" coberto de moralidades "imorais" dos que rezam vezes suficientes para deixar na pele a marca do seu fervor. Estes calos conseguem-se consoante a repetição das prostrações (nas quais a cabeça bate no chão) incluídas no ritual das cinco rezas diárias aconselhadas pelo "Corão".


Até nas campanhas políticas se criam calos na testa de candidatos que não as têm (o "photoshop" dos especialistas de marketing cá do sítio é meio fraquinho...) a fim de atribuir uma credibilidade que, desconfio, os próprios candidatos não possuem.


A minha questão é apenas uma: estes sinais exteriores de cuidados "religiosos" corresponderão a uma conduta de vida igualmente RELIGIOSA?

Estou inclinada a pensar que não. Se a História das Religiões do mundo nos ensinou alguma coisa, temo prenunciar mais depravados, tarados sexuais, atrasadice mental e repressão que só servirá meia dúzia de poderosos que quer, a todo o custo, manter o POVO egípcio calado, ignorante, temeroso e incapacitado de PENSAR POR SI PRÓPRIO.


Num país onde os colonizadores nunca permitiram que o POVO utilizasse o seu cérebro para seu benefício (criando geração após de geração de opressores e oprimidos que se limitam, ambos, a seguir ordens sem questioná-las), não é assim tão estranho verificar como a CONTRA-REVOLUÇÃO utiliza a falsa RELIGIÃO como forma de manter os cordeirinhos alinhados.


Pergunto-me: onde estará o lobo mau???

Saturday, March 3, 2012







Superstição linguística.












Para quem não me conhece profundamente (a maioria, portanto), a minha forma de escrever e falar - ambas coordenadas como os meus braços se coordenam com as pernas enquanto danço) pode parecer estranha, exagerada e até meio louca. Não renego nenhuma destas impressões, antes as incluo na lista das minhas qualidades/defeitos dos quais cuido com extremo cuidado e carinho.


Sou extremamente de TUDO. Supersticiosa, inclusivamente. Facto que não nega, mas reforça, o meu lado racional - ao que muitos gostam de chamar intelectual - e a minha compulsão por questionar o mundo (começando por mim mesma).



Assumo a minha superstição com as palavras e sinalização das mesmas. Assim sendo, aqui fica o registo do que significa, para mim, os pontos nos "is" de cada emoção que se anexa ao que digo/escrevo:




***Ponto final: .

O mais assustador, mas essencial, de todas as formas de pontuação. É o fim de algo. O bater da porta que não volta a abrir-se, um adeus para sempre, uma borbulha na cara naquela importante noite de espectáculo, a ilha no meio do oceano e o centro desenhado no umbigo das coisas. Tenho muito medo do ponto final, embora me force a usá-lo quando é preciso. Quando escrito, não se apaga mais. Na escrita e na dança como na Vida.




*Quando o ponto final se segue de uma mudança de parágrafo, significa um renascimento. Um novo ciclo que se inicia. Um amor recente ou nascente, uma viragem, a queda de um precipício. Se imaginarem bem do que se trata, sentirão esse caír assustador

.





.......................................(ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh......)

Som de aterragem.




*** Os dois pontos :

São dois olhos que observam, atentamente, o que direi a seguir. Tenho sempre cuidado com o que escrevo depois dos dois pontos porque me parece que um juíz está alerta, observando cada letra redigida. Esta é também a pontuação dos contadores de histórias e dos seus ouvintes. Os : são como pessoas sentadas à volta de uma fogueira, escutando o bardo com sua viola e contos de encantar. Rampa de lançamento, braços abertos, dois furos numa parede através dos quais alguém espia o que fazemos/escrevemos.

Um par de olhos que em nós se fixa. Cuidado, muito cuidado...




***Os pontos de interrogação ?

Um dos meus sinais favoritos porque expressa as dúvidas e indignações constantes que *quase me tiram o sono. Associo-o às crianças, aos loucos e aos marginais, sendo também uma posição de dança, uma mão ondulante com o pulso em forma de pontinho ?

Símbolo da Inteligência que tudo questiona e de tudo duvida. Assumir da ignorância que nos define.




***O ponto de exclamação !

Pelo qual sou conhecida, escarnecida, gozada, criticada. E como não se abuso tanto dele e com tanto gosto!!! Reflecte o meu entusiasmo natural, o fogo que trago em mim e a capacidade de me espantar com tudo e todos. Um excesso de pontos de exclamação !!!!!!!!! costumam ser sinal de excelentes tempos, de amores e paixões TOTAIS - que outros apelidam de "excessivos" - de risos, danças em noites de Verão e poses de flamenco ! no "tablao" da minha Existência.






*** As reticências ...


Outra imagem de marca minha. Amo as reticências ... como amo o INFINITO, o ESPAÇO aberto e o tempo sem tempo. Para mim, as reticências são o POTENCIAL contido no zero, as possibilidades todas do Universo. O silêncio, aquilo que as palavras são impotentes para exprimir, grãos de areia... e uma cama de pedrinhas mínimas onde se deitam amantes sinceros.

O mar ... e os entretantos, o sub-texto residente silencioso em cada palavra, o não-dito que grita mais do que o dito, o "para sempre", o amor expresso ao ouvido de alguém sem emitir som algum, um baque repentino que se estende em ternura, o olhar dos apaixonados. Este é, talvez, o meu sinal preferido e aquele em que mais exagero (adoro exagerar como forma de viver).


Por vezes, multiplico os ......................................................... para ampliar a magnitude e céu do sinal. Só os apanha, quem pode! Só quem olha para o céu vê os pássaros.




*** As aspas ""

Levo o peso, significado e consequências das palavras demasiado a sério para não brincar com elas. TENHO de brincar. Correndo-me nas veias o gene paterno do "gozo compulsivo", é natural que fale sempre meio a brincar e meio a sério. Raríssima a pessoa que consegue destrinçar um do outro. O meu lado de actriz complica as coisas, tornando o jogo das aspas """ ainda mais interessante.

Segundo sentido, ironia, sarcasmo e chuva de significados póstumos, assumidos no silêncio sobre a cabeça de determinadas palavras. As aspas podem redobrar ou triplicar o significado de uma só palavra e isso parece-me lindo. Compre um, leve um pacote de três. Economia do lar.



*** Ponto e vírgula ; , geralmente seguido por um parêntesis ;) que resulta numa pessoa sorrindo e piscando o olho.


É como quem ouve outra pessoa com uma expressão de empatia, desconfiança ou desafio. É também uma mulher que se está a maquilhar ;) e cujo risco do "eye liner" se desenhou apenas num olho. Não é o fim, nem a janela aberta do bardo que conta uma história. Fica entre os dois, meio morno. Por isso não sou fã dele. Gosto pouco de coisas mornas.


*** Embora não sejam sinais de pontuação, são expressividades que acrescento às palavras:

As letras ou palavras inteiras em maiúsculas

MARAVILHA, por exemplo.

Uso-as quando algo é demasiado importante ou nobre para ser expresso em letras minúsculas.


*Os diferentes tamanhos e tipos de letra misturados entre si. Aprecio o valor gráfico das palavras. Por isso, coloco suspiros em letras miúdas e excitações num tamanho maior.

Escrevo amor num tipo de letra que se pareça com a escrita manual de uma pessoa apaixonada e matemática com o tipo de letra de um "robot".


***A quantidade de sinais de pontuação que uso está relacionada com a Numerologia, sendo que o número 3 (!!!) é um dos meus preferidos, simbolizando a primeira manifestação da Criação.

....................................................................................................................................................










As superstições não se resumem ao uso das palavras mas, de forma mais profunda, ao que SINTO enquanto as escrevo pois desse sentimento saem as fadas que por aí se espalharão, chamando Vida para a minha VIDA!!!

Monday, February 13, 2012





Pedes AJUDA aos Santinhos quando...




O teu contabilista egípcio te tenta engatar, pela milésima vez, ao mesmo que tempo que te rouba à descarada.

O senhor que cuida dos meus impostos, aqui no Egipto, tem cerca de cinquenta anos, é casado com duas esposas e tem uma catefrada de crias de cada uma.


Aponta-me a quantidade de carros que tem, as férias luxuosas que passa aqui e ali, os relógios e os perfumes de marca importados que usa e outros tantos apontamentos "extremamente fastidiosos" que ele pensa serem, fatalmente, atractivos.

Isso não o impede de engatar as suas clientes, nas quais eu me incluo, enquanto lhes rouba o mais possível. Dinheiro & sexo, combinação ideal para a maioria dos homens egípcios.


Sendo bailarina, ele pressupõe que eu estou pronta para TUDO. Mas estar pronta para TUDO não significa, para mim, aceitar o acordo de engate de uma criatura com as seguintes características. Senão vejamos:


1. Quase com idade para ser meu pai, casado com duas vítimas (upps!), queria dizer esposas, e com duas famílias "Von Trapp" do avesso ao seu redor.


2. Bexigoso, barrigudo, aborrecido, superficial, menos interessante do que um debate político num telejornal português ou um anúncio a batedeiras do canal de tele-vendas.


3. Meu contabilista. Quem é que julga que sair com o próprio contabilista pode ser, alguma vez na vida, excitante?! É como ir às Finanças pagar impostos altíssimos dos quais ninguém parece tirar proveito (excepto os ladrões do Governo que com eles alimentam as suas fortunas pessoais e a dos seus amiguinhos) e, assim como quem não quer a coisa, convidar o empregado da repartição dos formulários para um "programinha bacana" logo à noite. Huh?!


Ah, pois é...clamo a todos os Santinhos por ajuda, paz de espírito, capacidade de encaixe.


O personagem tenta roubar-me e engatar-me, simultaneamente, enquanto pergunta pela saúde da minha mãe e lhe manda cumprimentos. "Talk about multi-tasking...".

Voltem, diabos referidos na "Tora", na "Bíblia" e no"Corão", que estão perdoados! Nenhuma das personagens mefistofélicas contidas nas "religiões do Livro" se aproximam, em maldade sofisticada, aos diabos que entre nós circulam ao cimo da terra.

(O inferno é AQUI. Assim como o CÉU.)

Wednesday, February 8, 2012













É, tem mesmo!

Como o vizinho do andar de cima que me encontra nas escadas a alimentar um gatinho e logo ali encontra uma oportunidade infalível de engate "à moda egípcia".


Questionário "pidesco" tipo metralhadora:


-Quem és tu? Como te chamas? Onde vives? De onde és? És casada? Tens filhos? Dás-me o teu número de telefone? Queres vir a uma festa privada em minha casa, amanhã à noite?


Após várias respostas tortas da minha parte, deixo-o a falar sozinho e regresso ao meu apartamento. Cinco minutos mais tarde, o personagem bate-me à porta com um companheiro de engate, insistindo em obter o meu número de telefone e querendo confirmar a minha presença na tal festarola privada à qual eu já me tinha negado a comparecer.










Esta auto-estima exacerbada e persistência do homem egípcio-árabe nunca deixa de surpreender-me. Terão espelhos em casa?!

Monday, January 2, 2012






Ah, mas dá mesmo...








Ao ponto de ter personagens (forma carinhosa de chamar ao que, cá dentro, penso serem "malucos") atrás de mim com pedidos de casamento e declarações apaixonadas de amor explosivo (e "express", tipo batatas fritas do McDonalds adaptadas à psique do homem egípcio/árabe) pelo simples facto de me terem visto dançar.


E contabiliza mais um para a caderneta. Cromo, mais um CROMO.

Sim, que sou bela. Sim, que sou talentosa. Sim, que sou inteligente (quem diria, hem?!), sim que sou o sol e a lua. Mal me conhecem mas estão, irremediavelmente, apaixonados.

Oh, sim, já me tinhas dito.

A imaturidade emocional dos homens egípcios/árabes atinge cumes de montanhas que atiram os Himalaias para um canto empoeirado.

Soube, ainda há pouco tempo, que o Egipto tem a segunda taxa de divórcios mais alta do mundo. Não me digam? Olha que surpresa! Então vejo uma rapariga dançar, apaixono-me no momento exacto em que as suas ancas entram em extâse "shímico" - sim, um neologismo dos meus - e proponho-lhe casamento. Simples, não vos parece?








O Egipto nunca deixa de fascinar-me. Lá que cansa, cansa. Mas é fascinante...















O homem-bomba.




Comecemos então 2012 com as melhores das intenções e desejos, rezando e agindo para que este lindo verniz não estale e para que a unha por baixo do verniz tenha a mesma consistência da Consciência que queremos imprimir à nossa vida, AGORA.


As minhas tentativas de exercitar a qualidade da compaixão e do "não julgamento" nem sempre dão certo. O pessoal de cá, mas não só, sabe como mexer os frágeis cordelinhos dos meus nervos exaustos.


Era uma vez um anormal (ora, ora, Joana...compaixão...não se chama "anormal" ao senhor).

Bem, recomecemos: Era uma vez uma criatura (melhor que isto não consigo, querido Buda!)... que me propôs serviços de prostituta e acompanhante numa visita sua ao Cairo.

Chegando até mim através de um proxeneta (quero dizer, criatura) que se fazia passar por uma mulher (o Facebook tem destas maravilhas negras), esta criatura ("good girl!") questionou-me sobre o tipo de serviços que eu poderia prestar, segundo um generoso pagamento, para tornar a sua visita ao Cairo inesquecível.

Ora pensemos, se os nossos cérebros o permitirem: sou bailarina e professora de dança,ora que serviços poderei prestar eu a esta CRIATURA para entretê-lo? Fazer malabarismos com romãs enquanto salto à corda e vou trauteando canções irritantes dos ABBA? Fazer bolinhas de sabão com a boca enquanto pinto retratos de crianças inocentes com os dedos dos pés?


Não bastou ter-me feito a proposta indecente (diz que não, não estava interessado nas danças orientais que isso é para os parvos e tal...) e ter visto o seu nome esparramado numa denúncia que lhe fiz no mural do meu FB (ah sim, que corre em mim esse sangue cigano apropriado para ocasionais vendas de t-shirts em Carcavelos e, se necessário, bate-bocas DAQUELES que calam até o Cocas, o sapo). Não, querido Buda, isso não lhe bastou.


Deve ter gostado de "apanhar" no lombito porque voltou a importunar-me, aumentando a quantia de dinheiro que estava disposto a pagar pelos meus "serviços".




A confusão entre Dança Oriental e prostituíção está aí para durar, parece-me...embora se tenha comercializado por todo o mundo, enquanto se tenta eliminá-la no seu país de origem, a associação desta Arte com a venda do corpo e de sexo nunca chegou a desaparecer.

O meu lado aquariano de fé na Humanidade TENTA respirar à tona de água, dizendo a si mesmo: Ainda tenho fé. Mas assim fica difícil, querido Buda.

Enquanto isso, sentido de humor para apanhar "com eles" e ...




OMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM.......

Tuesday, December 27, 2011







"Quem quer casar com a Corachinha?" que é como quem diz:

"Voulez vous coucher avec moi, cet soir?"










É daquelas confusões "danadas para cacete" (como dizem os nossos irmãos brasileiros).





Os intercâmbios culturais são, potencialmente, enriquecedores e direi até fatais. Tão enriquecedores que se tornam fatais. Como se a mente e o corpo não tivessem capacidade de armazenamento e processamento de tanta riqueza... (upps! Hoje devo ter apanhado essa doença contagiosa da "diplomacia"...espero que passe com uns comprimidos naturais e umas tisanas da avózinha).










Confusão recorrente entre homens e mulheres egípcios e árabes:



-" Quero casar contigo." - Diz o homem, mal acabou de conhecer a mulher na sua mira.



Tradução: "Quero ir para a cama contigo (e não me refiro à partilha de um belo soninho reparador...ok?) e assinar uns papéis legais que te definam como minha esposa evita esse embaraço de sermos mal falados e, eventualmente, irmos presos (no Egipto, um homem e uma mulher não podem viver juntos ou sequer partilhar momentos de intimidade dentro de uma casa sob a ameaça de serem denunciados por vizinhos maldosos e presos).





Esta intimidade é proíbida por LEI (não sabiam que, no Egipto, a intimidade entre duas pessoas é assunto público?! Pois ficam a saber.).


Ora no que dá esta invasão do Estado entre homem e mulher?! Dá no assédio sexual brutal em todos os espaços públicos do Egipto e dá nessa confusão, essa sim FATAL, entre o desejo sexual puramente animal e o amor. Confundem-se os dois, não se sabe onde começa e acaba um e outro. Os homens e as mulheres estão tão sedentes de sexo e contacto humano que se casam, precipitadamente, sem conhecer o seu futuro marido/esposa, sem sentimentos profundos de nada sobre nada apenas para poderem ir para a cama um com o outro.


Se o casamento é a única porta legal para o sexo, então que venham os casamentos.



Vejo o teu rabo e apetece-me saltar-te para cima mas não posso fazê-lo.





Que fazer, que fazer?!





CASAS-TE COMIGO e o assunto está resolvido.










É impressão minha ou isto é i-lógica de loucos?!





Bem vindos ao Egipto!!!

Monday, October 31, 2011






Nao, nao é o "Tal Canal"...é o "Tal Piquinho a Azedo, sim senhores"!




Muitos pensavam, inocentemente, que a Revolucao egípcia tornaria este país iluminado, moderno, justo, subitamente transformado de inferno em paraíso.


Reconheco e apoio a Revolucao como um passo essencial que foi dado por um povo desde há muitos séculos explorado pelas elites políticas, estrangeiras e egípcias.


Admiro a forma como os egípcios manejaram, e continuam a manejar, a seguranca pública de um país entregue ao caos e o pacifismo (relativo) com que conseguiram levar avante todo o processo revolucionário.



Atravessei a "Praca Tahrir" ("Praca da Libertacao") com emocao aquando dos primeiros dias em que a Revolucao irrompeu e espero, como todos os egípcios, que este enorme passo tenha sido dado no sentido de uma melhoria REAL das condicoes de vida no Egipto.



O que eu nunca acreditei é que a ignorancia, mentalidade medieval e extremismos religiosos desaparecessem como se de um passo de magia se tratasse.


A mentalidade das massas leva séculos a moldar, geracoes de lavagens cerebrais insistentes, valores incutidos a revelia do exercício da inteligencia e autonomia individuais.


Nao foi surpreendente que assistisse a mais uma conversa para a qual nao encontro adjectivos apropriados, enquanto tomava o meu cappuccino com um amigo, num café cosmopolita do Cairo.


Um canal de desportos radicais estava sintonizado na nossa frente e podíamos apreciar o bizarro espectáculo de homens barbudos, bronzeados e untados de óleo, hiper musculados, de tanga cor de rosa, tentando atirar-se uns aos outros para fora de um ringue de boxe.


Cocha de veias sobressaindo para cá, peitoriais inchados de hormonas e químicos colados ao rabiosque quase inexistente de mais um Rambo e por aí fora... uma patetada "daquelas"!






Um grupo de amigos egípcios, homens, mal dizia os homossexuais que conheciam e apontavam os exemplos dos personagens no ecra de televisao como uma demonstracao da masculinidade que todos deveriam seguir.


A homofobia dirigida as mulheres ainda é assunto pouco discutido no Egipto (sendo certo e sabido que existem amplas práticas lésbicas entre mulheres que vivem em meios altamente segregados, como é o exemplo da Arábia Saudita) mas o ódio e repúdio que se dedica a homossexualidade masculina nunca deixou de me supreender e já me rendeu umas quantas mensagens "a la Diácono dos Remédios" acusando-me de herética e desavergonhada defensora dos gays.



Curioso, curioso é também confirmar que sao os mesmos homofóbicos que levam, frequentemente, vidas duplas de senhores casados com suas esposas e relacoes secretas com homens. De dia, apontam as facas aos homossexuais, de noite fazem a visita ao gay da esquina e ainda lhe pagam pelos momentos de sexo partilhados e pela boca fechada.






Vejamos, usando o nosso cérebro, se for possível:


Toda a gente tem direito a escolher o seu parceiro sexual e esse é um assunto privado que nao diz respeito a ninguém, excepto aos envolvidos na relacao.


Em segundo lugar, aqueles Rambos de tanga cor de rosa com bordados que dizem "juicy" e "bite me" cheiram-me, a mim que nada sei, a muito MAS MUITO gay.


Sim, sao eles que negam a existencia ou naturalidade da homossexualidade. Mas também sao muitos deles que nao possuem uma sexualidade bem resolvida e feliz cujas tendencias gays nao podem ser disfarcadas pela sua histérica homofobia.







Aos rapazes egípcios do café com desejos homossexuais reprimidos, que tanto criticam os "gays" mas que, no fundo, queriam dar uma mordidelazita num peitoral dos Rambos que se desunham na televisao, eu digo apenas isto:Assumam-se, pá! Deixem de criticar outros homens ou mulheres pelas suas escolhas privadas e soltem a "franga" que saltita, animada e reprimida, dentro de voces.


Vivam e deixem viver.




Quando encontrarem o homem dos vossos sonhos (Rambo ou Chico Fininho com fio dental padrao tigre), deixem-se de homofobias (que nao passam do ódio a voces mesmos e aos vossos desejos recalcados) e digam, cara a cara, como homens de barba rija e de H maiúscula:


E mai' nada!



Tuesday, October 4, 2011

A verdadeira inter-culturalidade.


Há dias destes, ou anos destes, alturas destas em que as travessias do deserto nos parecem nunca acabar e, embora polvilhadas de refrescantes e doces oásis aqui e ali, nos machucam o corpo e a alma até nos despedacar de tal forma que nao resta osso sobre osso, conviccao sobre conviccao.
Resta apenas o silencio de quem conclui que, de facto, nada sabe nem compreende deste mundo louco no qual a própria nocao de Humanidade se dilui em águas turvas, esvai-se ao sabor do desequilíbrio geral do Planeta Terra, reflexo de nós (e nós, dele).

Mais uma proposta de casamento express "a la egípcia", mais uns quantos assédios diários sempre que me atrevo a sair a rua (coberta de trapos para nao atraír a atencao de ninguém e, ainda assim, massacrada por ter um corpo), umas mentiras e cambalachos no trabalho, uns quantos vampiros a minha volta tentando cheirar sangue e sentir-me vulnerável para me atacarem, mesquinhas invejas aqui e ali e o que resta?

Silencio e incompreesao.
Esta SIM, é a verdadeira experiencia da inter culturalidade.
Sempre que o assunto se discute teoricamente, torna-se interessante e suportável mas a vivencia REAL e diária do choque de culturas/mentalidades/leis/valores/princípios morais e éticos essa SIM, se torna a VERDADEIRA tomada de consciencia inter-cultural.

Entre a irritacao e a tentacao de me julgar, mentalmente, superior aos que me rodeiam (fraquezas minhas tao compreensíveis para quem vive por cá) e o esforco diário de ACEITAR aquilo que nao consigo compreender e CONTORNAR aquilo que nao compreendo nem ACEITO (por ir contra os meus valores mais arreigados ou dignidade pessoal) aqui vou VIVENDO a grande escola que é o Egipto ou qualquer outro país com o qual entremos em choque mas com o qual tenhamos de conviver diariamente.
Tao fácil defender as diferencas e a troca de culturas quando estamos no conforto do nosso país, entre gente que pensa e age de forma semelhante a nossa. Difícil e transformador é viver estas diferencas na pele, diariamente, sem tempo de recuperacao de um choque para o outro, tendo de optar pelo ataque de nervos constante ou a arte de fluir com a realidade que nos rodeia sem, no entanto, deixarmos de ser quem somos.


Como amar aqueles que nos ferem e traem?
Como amar aqueles que nos invejam, prejudicam, mal dizem e odeiam?
Como amar a incompreensao em si e a ignorancia, a nossa e a dos outros?
Como amar as diferencas, mesmo que elas signifiquem o contrário de tudo o que consideramos digno e bom?

Nao existem livros, professores, palestras e teorias que cheguem aos pés desta experiencia de vida.
Há dias, ouvi esta frase e nela me encontrei:
"A flor de lótus cresce da/na lama."

Tuesday, August 9, 2011





"Houston, I think we got another problem!"


Oh, yeah.



Vamos lá, nem tentemos compreender nada disto. Pode ser?!





Habituem-se a ideia de aceitar os absurdos da Vida com o sentido de humor dos sobreviventes e com a candura dos tolos. É a atitude mais inteligente a ter. Senao vejamos:






O meu senhorio, pai amantíssimo de família, médico respeitável e cidadao honrado tem a mania que é Don Juan - curioso detalhe comum a todos os homens egípcios/árabes que conheci até hoje - e tenta, desesperadamente, entrar nesse estado desinteressante de "flirt" sexual decadente desde a primeira vez que me conheceu.



Os piropos baratos deram o pontapé de saída a tentativa de engate (piropos estes que quase resultaram em batatada da grossa quando eu me preparei para me agarrar ao pescocinho dele de forma passional, sim senhores, mas muito pouco amorosa) e depois seguiram-se as mensagens de telemóvel, os telefonemas sem razao e a confirmacao do ditado portugues: "quanto mais me bates, mais eu gosto de ti."






É que o raio do rapaz nao parece desencantar-se e, cada agressividade minha ou ofensa alegremente lancada a sua cara, ele parece inflamar-se com maior entusiasmo.

-És um otário! - Grito eu.

- Alá...linda e com carácter! Diz mais, diz...que eu eu quero ouvir.- Responde, adivinhem quem...o otário.

- Nao tens vergonha na cara, pois nao? Ainda por cima estás no Ramadao e nao te pesa a consciencia! - Continuo eu, quase curiosa por ver a reaccao do bicho.

- Consciencia?! (expressao de quem perdeu as chaves de casa).

No Ramadao os meus olhos ficam ainda mais limpos para ver a beleza do mundo..." - Continua a ave rara (infelizmente, nao tao rara como eu gostaria que fosse).

- Vai mas é plantar batatas, ó palhaco!" - Atiro eu, a coroa de flores sobre o rei da parvoíce.

- Vamos os dois para LISBONA, vamos..." - Remata o rapaz desalmado.



"Houston, Houston... algo vai mal no Reino da Dinamarca..." (grata a Shakespeare e seu magistral "Hamlet").



Especialmente, quando estamos em pleno Ramadao e o meu querido senhorio continua a persistir na esperanca inútil de apanhar o bife portugues nas suas redes egípcias.


O Ramadao serve para, supostamente, os fiéis muculmanos se purificarem a todos os níveis (fisicamente, com o jejum; emocional e psicologicamente através do perdao e da delicadeza/bondade no trato das outras pessoas; espiritualmente, pelo uso das rezas devidamente organizadas em horários específicos).




Nao é aconselhável que o bom muculmano pense no que quer que seja relacionado com sexo e, muito menos, assediar mulheres que nao lhes "pertencem" (e reparem como ranjo os dentes e me irrito ao utilizar esta expressao: "mulheres que lhes pertencem"....rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr......). Como será que o meu bom senhorio coordena as suas rezas, o seu jejum e as sms picantes que me envia?!




Deve ser geminiano, para conseguir fazer tanta coisa ao mesmo tempo (e coisas de natureza tao oposta...ou nem tanto?!)...





Enquanto ele me envia sms de cariz amoroso-ridículo-sexual, eu respondo com islamicos desejos de "Feliz Ramadao" para ele, sua esposa e filhotes.



Ora nem isto o desencanta...ou desconcentra. A partir de um "Feliz Ramadao" ou um pouco diplomático "Tem vergonha na cara" ele responde: "Se todas as mulheres portuguesas forem lindas como tu, eu quero ir viver para LISBONA."






"Houston, Houston..." (Suspiro).



Acho que me vou retirar da carreira de detective e, de uma assentada, aprenderei a NAO TENTAR compreender estes absurdos inter-culturais.



"Dear Houston...I don t think we got another problem...



só acho que tudo, por mais anormal que me pareca, é "normal".






"Houston, I think we got a problem!"

Mas nao sei se saberei resolve-lo...









Hmmmm...sinistro...



Enquanto treinam no ginásio e falam ao telefone como papagaios desenfreados, as mulheres muculmanos que - corajosamente, a falta de termo mais adequado - jejuam como parte do ritual do Ramadao insistem em assistir a programas de televisao sobre comida.






Por norma, as televisoes do ginásio estao sintonizadas em programas de música ou em filmes, jamais em programas de culinária, especialmente numa altura em que estas mulheres estao em jejum (incluindo a água que nao é permitida, ainda que elas estejam a treinar no ginásio).






Quem terá sido a sado-masoquista que se lembrou de tentar as almas das companheiras de treino com demonstracoes culinárias a cada canto do ginásio?



E é ve-las a correr, sedentas porque nao ingerem líquidos há muitas horas e estao a suar, de olhos fixos nos ecras das televisoes, babando-se, pensando no "iftar" (quebra do jejum) e, talvez, na expiacao dos seus pecados.






Nao sei quem terá sido a maquiavélica que decidiu torturar as podres mulheres que ali treinam mas, caro Houston, nem quero saber. Há tantos mistérios do Egipto que foram criados para jamais serem desvendados. Consideremos este mais um a juntar a longa lista!

Tuesday, July 19, 2011

La Cucaracha song (Los Platanos)




"La cucaracha ya no puede caminar..."
(snif, snif, snif).

Homenagem - sempre singela, sei lá eu porque! - a todas as baratas, seus parentes e amigos que eu encontrei na minha nova casa aqui no Cairo. Parece que, para a maioria dos egípcios, a convivencia amigável e doméstica com "las cucarachas" é algo normal e, quem sabe, até desejável.
Se esta "normal" convivencia tem algo de tradicao faraónica ou nao, eu já nao sei.

O que sei é que tive de desinfestar a casa enquanto dava aulas particulares e enquanto coreografava Om Kolthoum. Quem diria que uma invasao de baratas, sua subsequente chacina e Om Koltoum poderiam ser servidas todas no mesmo prato?!

Digo adeus - espero! - as baratinhas que me vieram dar as Boas Vindas egípcias lá em casa e rio-me, cá para comigo, ao ver tantos e tao pequenos absurdos a minha volta. Surpreendida por constatar também que o instinto de sobrevivencia que estas meninas carregam e a sua capacidade de resistencia face as mais adversas condicoes "atmosféricas" sao, curiosamente, muito semelhantes as que encontro no meu carácter.
Estarei eu a comparar-me com "las cucarachas"?! Talvez isso soasse deprimente a maioria do pessoal que conheco. Para mim, esta comparacao tem em si o gérmen do riso, do sentido e do elogio.

E aqui fica a minha vénia e um doce e sentido "au revoir" dedicado as baratas egípcias que, outrora, viviam na minha actual casa.

Tuesday, June 7, 2011



Casa dos horrores.



Procurar casa no Cairo pode ser uma aventura, como tudo o que se faz por ca. Algo que parece tao inocente, simples e directo pode transformar-se numa indizivel montanha russa que nos leva onde jamais esperamos ir.

Sera que existe um limite de absurdo por individuo? Quanto de louco e ilogico pode uma pessoa assimilar e encarar? Quanto poder de encaixe se pede de uma so pessoa?

Ja desisti de responder a estas questoes.


Em processo de mudanca geral, ali me encontro eu vendo apartamentos no centro do Cairo. Cada um apresenta suas personagens, os seus ques e porques, as suas surpresas e inospitas revelacoes.


O tarado muculmano que adora a ideia de que eu seja bailarina, o fundamentalista cristao atado ate a raiz dos cabelos que espalha imagens de santos e cruzes por todo o apartamento, a senhora que engana o marido e, por isso, teme que eu seja uma vamp sedutora que lhe vai roubar a preciosa criatura.


A espelunca que me tentam vender como se fosse um palacio. O palacio rodeado de baratas e ratos fedorentos. Encontra-se de tudo!


Nada, mas nada se pode fazer "normalmente" num sitio onde a propria palavra "normal" nao existe.

E eu nado com a corrente e rio-me, observo, exercito essa qualidade subtil da compaixao e do nao julgamento. Acho riso e contradicoes em todo o lado e tento viver o momento com todos os seus absurdos e coisas bonitas.


Jamais me perguntem porque adoro o Cairo!