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Saturday, April 21, 2012


Eis o aviso que me apetece oferecer aos meus vizinhos e porteiros.

Não há passo que dê que não seja monitorizado e registado num caderno pelos porteiros do meu prédio.
Não há pessoa que entre na minha casa que não seja motivo de minuciosa observação e inquérito (especialmente se o visitante for um homem).
Não há orgia báquica que não imaginem sempre que recebo vários amigos em casa.
Não há paciência para os maus tratos e envenenamento de que são alvo os animais que ousam passar pelo prédio.
Ou pachorra para aturar a cara de assombro dos porteiros quando me vêem entrar em casa com dois "cappuccinos", julgando que se trata de uma bebida extra para alguém que passou a noite comigo (sem estarmos casados!!!Um escândalo).

Apetecia-me limpar o prédio destes parasitas desocupados que se julgam donos das vidas alheias e Deuses Todos Poderosos para julgar quem não conhecem mas jamais a si mesmos e às suas múltiplas trafulhices.
Era colocar umas bombinhas simpáticas na sala de estar destes "Hercule Poirots" egípcios e vê-los irem pelos ares, deixando espaço a quem tem mais que fazer do que olhar para o jardim do vizinho do lado, declarando-o sempre mais verde e pecaminoso do que o seu próprio jardim.

Thursday, April 19, 2012


Grata.

Porque esta é a única prece que resiste a ventos e marés de sempre. Se todas as convicções se fossem no meio dos vendavais enfrentados, existe uma pequena palavra que se mantém, de pedra e cal, fiel ao seu PODER e SIGNIFICADO eternos.
GRATA.

Pelo sol e pela lua. Pela alegria e pelas dores que me tornaram mais HUMANA.
Pelos sonhos REALIZADOS e pela força, saúde e capacidades para realizar os que estão por vir.
Pelos amigos e invisíveis inimigos, pois ambos me estimulam a seguir adiante.
Pelos amores, pelo AMOR que é transversal a todos eles.
Pela família e amigos chegados e pelo AMOR puro que nos une.
Pelos aplausos em palcos do Egipto e do MUNDO INTEIRO. Pela COMPREENSÃO da minha ARTE, pelo reconhecimento do meu talento e trabalho honesto.
Por esta***FORÇA que trago dentro e que não me pertence totalmente. Empréstimo dos/as Deuses/as para que tenha combustível extra pelas caminhadas fora/acima.
Pelo CORPO feito TEMPLO, por todas as partes desta máquina PERFEITA que sublimam o lixo e dele fazem DANÇA e novas PAIXÕES.
Pelos animais, esses anjos de extrema beleza.
Pelas surpresas solares e pelos choques terroríficos que exercitam o músculo do coração, tornando-o mais FORTE e ELÁSTICO para que mais e MAIS gente nele caiba.
Por estar VIVA. Por SER VIVA.

Tuesday, April 17, 2012



"RAKASAH", ou a vamp clássica que come maridos alheios ao pequeno-almoço.

"Bom dia, prazer em conhecê-la. Eu sou a vamp que come maridos alheios ao pequeno-almoço. Sugiro, para sua segurança, que tranque o seu des-amado num quarto até que me vá embora."

Personagens (reais):

1. Eu, apenas eu.
2. Um amigo chegado, egípcio do tipo comum mas com um coração raro (daí ser meu amigo).
3. Casal conhecido do meu amigo. Ambos ricos por herança e conexões privilegiadas com o Antigo Regime da Real Corrupção. Ambos de meia idade e com uma DAQUELES casamentos frequentes para os quais não existem razões aparentes, excepto interesses económicos em comum e o famoso comodismo que atira perfeitos estranhos para a cama um do outro.

Cenário:
Jardim da casa do casal. Mesa e cadeiras de veraneio, empregados ao nosso redor agindo com o tom servil colonialista (com a diferença que, neste caso, são egípcios explorando outros egípcios e não estrangeiros explorando egípcios...vai dar tudo ao mesmo, afinal!).

Início de conversa:

-Ah, então...tu és "bellydancer"?
-Sou bailarina.
-"Bellydancer"!
-Há quem me chame assim mas, na verdade, o que sou é B-A-I-L-A-R-I-N-A.
-Hmmm...vocês estão a invadir o Egipto, hã?
-Nós, quem?
-Ah, as russas e as "bellydancers" estrangeiras.Levam-nos os homens, suas marotas!
-Não sou russa, nem tão pouco "bellydancer". Para confirmar o que me diz, terá de falar com uma delas.
-Não...ahhhnnn...quero dizer...as "bailarinas" estrangeiras. Estão a invadir-nos, vocês.
-Ah, isso! Já vos invadimos há muito tempo. Desde o início dos anos noventa. Bem como os egípcios já invadiram o mundo inteiro há várias décadas. Chama-se mobilidade, emigração, liberdade de viver onde somos felizes.
-Sim, claro (expressão entre o choque e a profunda desorientação).

O meu amigo ajeita-se na cadeira, bebe um pouco de chá e aceita um trago do cigarro de haxixe que esta senhora da alta sociedade egípcia fuma com os modos de uma prostituta da rua das Pirâmides.

-Sabem que as "bellydancers" são famosas por roubar os maridos às egípcias.

Silêncio da minha parte porque, obviamente, a conversa não me diz respeito.

-Que tens a dizer sobre isso? - Dirigiu-se a senhora (?) a mim, apertando a mão ao marido que, bem mais delicado do que ela, se mostrava incómodo com a conversa.

-Já lhe disse que não sei nada sobre as "bellydancers" de que fala. Observo-as à distância, como a observo a si. Mas não têm nada em comum comigo.

-Ouvi a Nagwa Fouad dizer numa entrevista que era a única "bellydancer" a quem uma mulher "comum" roubara o marido quando o normal é que suceda o contrário.

-Não sei muito sobre os conflitos matrimoniais da Nagwa Fouad. Tive aulas com ela, tirámos fotografias juntas e assisti a uma conferência na qual ela contou parte do trajecto de carreira mas nunca me interessou saber quem lhe tinha roubado o marido. Além do mais, acho que os maridos não são guarda-chuvas para serem roubados.

-Ah, como não? Vais desculpar-me mas a fama das "bellydancers" - ou bailarinas, como queiras chamar-lhes - é a de que possuem truques de sedução capazes de virar a cabeça aos homens casados.

-Com truques ou sem truques, os homens divorciam-se porque querem e envolvem-se com outras mulheres porque querem. Não são crianças indefesas, raptadas por "vamps" poderosas.

-São sim, como crianças. E não quero que leves a mal mas sei de muitas histórias que lares distruídos por causa de mulheres da tua profissão...

E foi neste momento em que escolhi fazer-me de parva e calar-me para evitar dar uma lição de carácter educativo-agressivo a esta senhorinha muito "inhazinha" . Quantas vezes tive de gritar a plenos pulmões: "NÃO ESTOU INTERESSADA EM HOMENS CASADOS, EM GERAL. E MUITO MENOS INTERESSADA NO SEU MARIDO, EM PARTICULAR. RELAXEM!"

Mais curioso que tudo é constatar que as mesmas mulheres hiper receosas que as "bellydancers" lhes roubem os maridos são elas mesmas destruidoras de outros lares. Sem "belly".Sem "dance". Apenas pura putaria de quem olha para o jardim do vizinho e o acha mais verde do que o seu.

P.S. Cansadita de mentes tão porcas e básicas. Cansadita, confesso...

Sunday, April 15, 2012




Apanhada com a boca na botija (seja lá o que isso significa!).








Já comentei sobre o meu queridíssimo ginásio cairota e suas idiossincracias próprias de uma cultura às avessas...


Ginásio só para meninas, como manda a tradição, e muita coisa que nada tem a ver com exercício físico.


Raparigas de maquilhagem, jóias e salto alto tentanto correr na passadeira, intermináveis coscuvilhices, telenovelas turcas a alto som, aroma a cozinhados que se preparam na recepção do estabelecimento e mais umas quantas ocorrências estranhas que desafiam até o mais motivado atleta.




Assim sendo, admito: sou o Rambo lá do sítio. Surpresa das surpresas: vou ao ginásio para praticar desporto (!!!!!!!!). Por isso, sou pouco dada a convívios para meninas que não têm mais nada que fazer senão cochichar, comer e uivar de dor quando são levadas ao mais mínimo esforço físico.




O único momento tipicamente "feminino" a que me dou direito é o do abençoado banho turco, depois do meu treino. Sou rapariga de calores e trópicos. Sinto-me bem sob o sol, a humidade, as Caraíbas e seus vizinhos. Meter-me naquele quartinho sobreaquecido depois de duas horas de árduo trabalho físico sabe-me muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito bem. Tão bem que até me dá para cantar.


Preferência para os clássicos do jazz que conheço de cor graças ao meu vício musical denominado "Billie Holiday".




Por norma, uma empregada fica à minha espera à saída do banho turco, tipo dama de companhia da realeza de séculos passados, facto este que me irrita para lá da conta. Há qualquer coisa de feio no acto de esperar que outra pessoa nos calce os chinelos, nos bajule e enrole numa toalha quando já passámos dos dez anos de idade (excepção feita se tal ocorrência se der com alguém do sexo masculino e da MINHA ESCOLHA). Que sim, que o colonialismo ainda persiste no inconsciente colectivo do Egipto e que a maioria das dondocas egípcias QUER este tipo de tratamento mas eu sou campónia e disso me orgulho. Não gosto de criados que me limpem o traseiro, me apapariquem como se tivesse cinco anos de idade e sigam com olhos de açor cada um dos meus movimentos. Sou menina crescidinha e posso cuidar de mim, muito obrigada!




Mas já se sabe que o Egipto não faz agrados a quem quer que seja. Sabendo disso, como pude supreender-me quando, à saída do dito banho turco, encontrei empregadas e clientes do ginásio à porta do mesmo, encantadas por me ouvirem cantar lá dentro?!


Sim, diz que sim. Ouviram-me cantar dentro do quartinho maravilha e abancaram por lá, usufruindo do espectáculo como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Vá lá não terem trazido bandeirinhas com o meu nome e isqueiros acesos para criar ambiente...vá lá...




Timidamente, pedi lincença para passar por entre as pernas extasiadas das minhas novas admiradoras. Elas trincavam amendoins, bebiam refrigerantes e comentavam - por entre dentes - que bem que ela canta!


Sorri, escondi-me debaixo do chuveiro caladinha que nem um rato.




P.S. Apesar de tudo, adoro o Egipto, esta Quinta Dimensão onde o humor e o terror se encontram com desarmante frequência.


Wednesday, March 14, 2012

na casa do toy-tumba



Ah, pois é, bebé...foi assim que quase, quase apareci num destes delirantes
"Tesourinhos Deprimentes" dos malucos Gatos Fedorentos.
Que os/as Deuses/as preservem o bom senso que, de vez em quando, me protege de episódios potencialmente embaraçantes ou até mesmo fatais.
Então não é que, quando ainda vivia e trabalhava em Portugal, fui contactada para uma "participação especial" no programa "A casa do Toy"?
Queriam contratar-me para despertar o Toy com uma bela Dança do BENTRE. Sim, do BENTRE que isto nem era, sequer, do VENTRE. Seria uma coisa tresmalhada, macacada, invertida de todo o pudor e bom gosto.

Pagavam bem e a equipa era organizadinha. Consta que sim. Se calhar ainda dali saía um dueto musical "Odalisca-Toy". Oh, sim...as promessas e garantias eram aliciantes.
Eu irromperia pelo quarto do Toy feita odalisca da Damaia e o resto seria história ou...temo deduzir...Tesourinho Deprimente. Do que eu me livrei!
Imaginem a mistura da odalisca com as sopas de cavalo cansado e a barrasquice pegada que para ali vai...

P.S. O convite para pousar descascada para uma revista masculina da praça portuguesa também já surgiu, devidamente recusado que sou rapariga descontraída, apalhaçada com os meus, com a veia de gozo compulsivo e maluca e tal..."ma non troppo!".
Uff!!!

Wednesday, February 1, 2012



Versão ocidental da "burqa" ou Kit de sobrevivência de uma Bailarina no Egipto.


Pois é, as coisas são tão bonitas e glamourosas quando apenas vistas de fora. Toda a gente admira e cobiça o sucesso alheio sem querer, sequer, pensar nos sacrifícios e trabalho árduo que estão por trás desse sucesso.


Dançar profissionalmente no Cairo tem os seus custos óbvios e outros menos evidentes. Um teste constante aos nervos de quem cá vive é um desses preços escondidos por dentro das mangas da grande camisa desta cidade louca. Esses preços que as lojas não querem que vejamos, para não cairmos para o lado ou fugirmos da loja a sete pés. Estão a ver o que quero dizer?!


Esqueçam o famoso assédio sexual que recai sobre as bailarinas e os trabalhos que se conquistam através da nobre cuequita e da cama, nem precisamos ir por aí...falemos de uma singela ida ao supermercado ou ao ginásio. Actos quotidianos como estes podem constituir autênticos desafios à força de carácter de uma Mulher e à sua indelével capacidade de não recorrer aos instintos mais primários e, consequentemente, chegar a matar alguém (à chapada e ao pontapé de biqueira larga, ao arranque entusiasmado de cabelos ou ao tradicional "esganar pelo pescoço").


Eis o kit de sobrevivência que qualquer Mulher, bailarina ou não, deverá ter em conta sempre que sai à rua no Cairo:


1. Vestir uma qualquer versão de um saco de batatas largo através do qual não se possam adivinhar vestígios de um corpo.


2. Usar boina, boné, lenço na cabeça, qualquer coisa esquisita que cubra os cabelos.


3. Recorrer a uns óculos escuros tipo "zangão", tão grandes que pareçam janelas fumadas através das quais os olhos se tornem totalmente inexistentes.


4. Não usar "baton" nos lábios, uma vez que estes ficam em evidência quando os cabelos e os olhos desaparecem do mapa visual de quem nos observa.



5. Pespegar com um belo Ipod (versão moderna dos antigos "walkman") e seus auriculares nos ouvidos, criando uma parede sonora que nos separa da catadupa de ordinarices de cariz sexual que nos são, tão generosamente, oferecidas. A música da nossa escolha directamente injectada pelos ouvidos adentro também evita o enjoo de tripas das buzinadelas constantes e da recitação do "Corão" ecoando de carros, lojas, restaurantes, casas particulares de forma compulsiva.


6. Olhar-se ao espelho, antes de sair de casa, e verificar se nos parecemos mais com uma Mulher ou com um andróide. Só ir para a rua quando nos parecermos com o andróide. Qualquer sinal de Humanidade no corpo de uma Mulher é tido, cada vez mais, como uma ofensa, intromissão, desafio à ordem pública, provocação, sinal óbvio de que andamos à procura de sarilhos.

Andróide= SIM!

Mulher= Nem pensar!


Considerem-se avisadas.



Thursday, December 22, 2011




Notícias do Egipto.






O caso dos ladrões alexandrinos que mereciam um Óscar de Hollywood.


Se há qualidade que não falta aos egípcios é a IMAGINAÇÃO e uma capacidade assustadora para REPRESENTAR de forma tão convincente que deixaria o Anthony Hopkins e a Meryl Streep desempregados, caso competissem com os egípcios nas lides teatrais.




O carácter neptuniano deste povo, com seus enlevos mentais, divagações poéticas, extremismos românticos, amor pela evasão e pelo sonho têm muito que se lhe diga.


O sentido de humor é outra arma de sobrevivência deste povo que tem, para não enlouquecer totalmente, de rir-se das maiores barbaridades e até do sofrimento.




Saiu nos jornais, há cerca de uma semana atrás, a notícia de um par de ladrões de Alexandria que roubaram um táxi da seguinte maneira:




Um taxista fazia a sua ronda pela cidade (numa zona permeada por cemitérios islâmicos), buscando potenciais clientes. Entrou um homem para o veículo, indicando onde pretendia ir. Poucos metros depois deste primeiro cliente ter entrado, outro homem mandou parar o táxi pedindo a mesma direcção do cliente que já se encontrava dentro do táxi.




No Egipto, é comum um mesmo táxi levar um ou mais clientes simultaneamente, se os seus destinos pretendidos forem idênticos ou ficarem na direcção um do outro.




O taxista parou o veículo para recorrer o segundo potencial cliente e perguntou ao primeiro se este se importava que levassem outra pessoa, visto que ambos se dirigiam para a mesma zona.


O cliente original, sentadinho que nem um anjo no banco de trás do carro, sorriu docemente e disse que não, não se importava nada, que deixasse lá entrar o homem que eram todos compatriotas e amigos e coisa e tal.




Postos a caminho, o taxista comentou com o segundo cliente que teria de levar o senhor do banco de trás ao seu destino e que depois seguiriam para o local onde ele queria ir. Teriam de dar prioridade a quem entrou primeiro no táxi, como manda o código cortês dos taxistas egípcios.




O segundo cliente, sentado no banco ao lado do condutor, ficou em silêncio por momentos, até irromper da seguinte forma:


-De que senhor está a falar?!


-O senhor que chegou primeiro e está no banco de trás do carro. Não reparou nele?- Afirmou o taxista, apontando para o banco de trás.


-Mas nós estamos sozinhos no carro, não existe nenhum senhor no banco de trás do carro. - Insistiu o segundo cliente, olhando para trás, fingindo fitar o vazio.


- Como não existe nenhum senhor no banco de trás?! Não o vê? - Respondeu o taxista, confuso.


- Não vejo ninguém. O senhor deve estar cansado, bem vejo!


- Como não vê ninguém? Está um senhor sentado atrás de si.


-O meu amigo está confuso, asseguro-lhe que não existe ninguém neste táxi, excepto nós os dois.


A conversa de "malucos" continuou durante uns instantes até se ter instalado a maior confusão.




Neste momento, o primeiro cliente, tranquilo e de expressão angelical, informou o taxista:


-Não se preocupe. Ele não me consegue ver. Sou um espírito. Uahhha, ahhha, ahhha, ahh, ahhha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!




Foi neste momento que o taxista travou a fundo, deixando o táxi no meio da estrada e correndo, aterrorizado, aos gritos pela rua fora, gritando a este e a outros mundos paralelos por socorro.




Os dois cúmplices (o espírito e o segundo cliente) viram o pobre homem fugindo, à beira de um ataque de coração, e riram a bom rir, enquanto roubavam o táxi e todos os bens que lá se encontravam dentro.


Não se trata de ficção: isto aconteceu. Isto É o Egipto.


"Welcome to Egypt!"






Thursday, October 27, 2011



"L'Agente Provocateure: oui, c'est moi!



e La Voyeure: Biensur, c'est moi aussi."



Nao perguntem porque uso expressoes em frances, ingles, espanhol ou italiano com tremenda frequencia. Sei lá eu, coisas de geminianos (perguntem aos astrólogos que quer dizer ser geminiana e usar dialectos diferentes quando me expresso!).

Na minha mente estao activas várias línguas, diariamente: árabe, ingles, espanhol, portugues e frances. Nao se admirem se nao bater bem da bola mais frequentemente do que apenas "de vez em quando"...:)


Eis um facto curioso que me está a encantar e a transformar numa "voyeure" ou, melhor dizendo, numa espia sonora:


Existe um vizinho meu que vem organizando ensaios de tabla, orgao, acordeao e afins dentro de casa nos últimos dias. Nao lhe consigo ver o andar, nem destrincar de onde vem o som (nao é do meu prédio que ele vem) mas sei que está num edifício adjacente ao meu (o que, com os meus abencoados ouvidos de tísica, pode ser um apartamento a alguns blocos de distancia do meu apartamento).



Comecou pela tabla, de mansinho e descompassado. Irritava-me porque andava sempre atrapalhada, a tabla, cometendo um dos meus pecados capitais: estar fora do ritmo e sem "feeling".


Depois comecei a escutar um acordeao que respondia, timidamente, a tabla desastrada.

E, pouco a pouco, criou-se uma orquestra que me dá vontade de ir bater porta a porta para descobrir de onde vem aquele som e dancar sem demais apresentacoes nem razoes de ser.

E sim, claro está que esta é uma daquelas coisas que torna a vida no Cairo suportável e até, ouso afirmar, peculiar e deliciosa.



Truques paternos.




Ora bem, o meu pai tem uma óbvia costela egípcia. A justificacao para esta declaracao seria larga demais para explanar aqui no blogue mas o importante a reter é o seguinte:


O meu pai sente -se como peixe dentro de água no Egipto e faz amigos a cada esquina, embora nao fale árabe, nem ingles e assim fique sem um idioma conhecido da raca humana com o qual comunicar com o pessoal de cá.


No entanto, ele desenvolveu uma linguagem meio extra-terrestre que só ele mesmo e os egípcios entendem (isso explica as enigmáticas conversas telefónicas entre o meu pai e um dos meus percussionistas egípcios que só fala árabe).




Um dos truques que o meu pai me sugeriu (sim, a minha veia para o gozo e as piadas compulsivas vem do lado paterno) para fazer face aos assédios dos egípcios consiste em responder-lhes sucintamente num idioma que eu invente, estilo japones fora do prazo e bem a minha moda, mas com a seriedade de quem está a falar ingles ou árabe na maior perfeicao gramatical.




Nada de risos ou denúncia de que estou a gozar. Seriedade total.


Abrir a boca e responder-lhes com sons que se assemelham a gatafunhos sonoros, deixando-os completamente a nora, perdidos entre a curiosidade de entender que idioma "era aquele" e a inaptidao de me responder (por razoes óbvias).




Tentei. Funciona, excepcao feita aos momentos em que expludo as gargalhadas comigo mesma ao ver a cara de espanto e confusao dos tarados, transformados em vítimas de uns genes danados para a brincadeira. ;)




Ovelha negra. Eu sou.


Nem me falem de Outonos, castanhas assadas e folhas secas avermelhadas que caem das árvores e do romantismo do frio que se anuncia, entranhando-se nos nossos corpos e almas com a volúpia dos esfomeados de amor.


Eu nao sou de Outonos e Invernos. Nao sou ursa das estepes nem pinguim.

Eu sofro com o frio e os dias mais curtos. Tremo, ando encolhida e olho mais vezes para o chao.


Nasci tropical cá por bem dentro, coberta de temperaturas altas e ares húmidos que transformam a água em céu que inspiramos e o céu em água. Eu nasci de Cuba ou do México, nao fui feita para tremer de frio e andar encasacada que nem um chourico.

Sou de noites de Salsa, charutos cubanos pendurados na boca e banhos de mar quente e azul turquesa. Sou de Gabriel Garcia Marquez e do "Amor em tempos de cólera".

Sol. Muito SOL. Sim, sou eu.


Ai, sim. Queria tanto dizer as Boas Vindas ao Outono mas isso seria apenas agradável e desonesto.

Alguém estará interessado em hibernar comigo e só acordar na Primavera?!

Saturday, October 8, 2011
















Pim, pam, pum!










Pois...é que nao existe pensamento e vibracoes positivas que resistam a tantos ataques.




Indo por un atalho, eu conto:




Hoje de manha, saindo do ginásio em busca sedenta do meu "moccha cafe" que sabe tao bem depois de um treino a sério, dou de caras com uma série de costumeiros tarados sexuais na rua.




Seguidinhos, uns aos outros sem dar-me tempo para respirar. Tipo pecinhas de dominó caindo, uma colada a outra. Estao a ver a cena?!

Pim.

Pam.

PUM!!!






Nao sei se haveria mais alguma pecinha de dominó prestes a cair-me em cima mas, se havia, ela sentiu-se sem esperanca, temerosa, com receio de ser partida ao meio e dada aos crocodilos.


Explodi na cara de um dos tarados, gritando-lhe aos ouvidos (como um megafone humano) tudo aquilo que tenho de engolir a seco todos os dias em que saio a rua, no Cairo, coberta com autenticas sacas de batatas para que nenhuma curva do meu corpo seja visível.

Por mais tolerancia que se pratique, por mais pensamentos positivos que se tenham, por mais flexibilidade mental e compreensao que aprendamos a ter para quem é, pensa e age de forma difente da nossa, a REALIDADE consegue deitar tudo isso ao chao num ínfimo instante.


Sim, eles sao humanos e sao o que podem ser.

Mas há que pensar que também eu o sou (tendo a esquecer-me disso, curiosamente!).

Saturday, September 17, 2011



Cansada de...






Politiquices e religiao (vao as duas dar ao mesmo, curiosamente!).

E eu que nao vejo televisao, nem leio os jornais diários...se os lesse, já tinha enlouquecido completamente, passado para um extremo tal do "lado de lá" que ficaria sem saber como regressar aqui.

Demasiada poluícao sonora, visual, mental...e porque será que me parece que tanto falatório nao leva a lado nenhum?!


No Egipto, só se fala em política - compreensivelmente, nesta fase nebulosa de pós-revolucao - e em religiao, mais do que nunca.

Confesso que já sinto náuseas (literalmente, náuseas) sempre que escuto a recitacao do "Corao". É que nao há táxi que eu apanhe que nao ressoe as palavras sagradas do "Corao" até a exaustao. Se a viagem durar 15 minutos, apanho com "Corao" durante 15 minutos. Se a viagem for de 2 horas ou mais, será durante esse tempo que eu vou comer a colherada a mais que mastigada mensagem do profeta Mohamed. Apre!!!


Passo por um café e lá nao sei quem a ser julgado juntamente com os seus companheiros de máfia pessoal ou o próprio ex-presidente Hosny Mubarak deitado numa cama alva como os anjinhos, com cara de mártir e ainda uma arrogancia que já nao lhe pertence...

Se fossem julgar todos os mafiosos do Egipto, suspeito que nao sobrariam homens livres suficientes para dar continuidade a re-construcao do país.

Quem tem a ilusao de que se pode anular a corrupcao e a mentalidade da brutalidade que vem de milhares de anos durante uns meses de Revolucao, ou é um santo milagreiro que vai salvar o mundo ou é tontinho de todo.



Num dos vários julgamentos televisionados (que eu apanhei aquando de uma espera aborrecida num banco), ainda consegui ficar perplexa com a tirania do juiz que presidia aquela sessao. Tratava os presentes a baixo de lixo, gritava livremente a quem lhe desagradasse e dava ordens aos julgados como se estes fossem seus servos.


Ora bem...castigam-se e anulam-se tiranos contando com juízes que os julgam mas que também sao tiranos.

Ahn?!!!!

Que idiotice pegada, por amor dos deuses...parece que os cérebros desta gente ainda nao comecaram a funcionar...deve haver um sítio qualquer escondidinho onde se lhes dá a corda mas ainda nao descobri onde se encontra.

Que fantochada, esta! Serei uma extra terrestre por nao conseguir engolir todo este lixo mental?!

Se calhar, sou eu quem anda desalmada...

Friday, July 22, 2011

Inquisicao "a la oriental" (sim, ela nunca esteve ausente e jamais se limitou a católicos e loucos)! Ali estava eu confiante, apresentando a proposta relativa ao maior espectáculo de Danca Oriental que o Cairo já viu, rodeada de programas, certezas e talentos (meu, de músicos e bailarinos que me acompanham neste projecto) quando dou por mim numa sala repleta de arabescos antigos num maravilhoso instituto musical cujo nome vou omitir por razoes estratégicas.

A ideia seria apresentar aos directores (e, claro está, seus assistentes e assistentes dos assistentes) o projecto e ver em que medida eles poderiam colaborar comigo nesta empresa monumental.

Chás foram servidos, "shishas" foram acesas, bigodes foram repenicados pelos seus orgulhosos donos e o inquérito a moda da Inquisicao espanhola teve início sem prévio aviso.
Fui bombardeada de perguntas tolas, desconfiancas, presumíveis impressoes de que eu propunha um espectáculo de "streap-tease" e a grande questao: "Mas voce vai MESMO apresentar DANCA ORIENTAL?". Isto dito com a mesma cara de quem me poderia perguntar se eu vou mesmo lancar fezes a cara do público!

Todo o meu currículo e referencias minuciosamente analizados por senhores de barrigas proeminentes que percebem tanto de arte como eu percebo de aeronáutica, olhares desconfiados e até assustados (sim, eu posso ser ASSUSTADORA quando em modo "DEFESA" a ataques sucessivos) e um chorrilho de perguntas que rodearam o mesmo tema mas nao pareceram ter fim.

Para estas almas - e todas as entidades "culturais" deste país - DANCA ORIENTAL EGIPCIA é sinónimo de sexo que se vende, mulheres semi-nuas e meio caminho andado para as chamas do inferno islamico.

Mordi o lábio várias vezes, agarrei-me a cadeira para nao me agarrar ao pescocinho gorducho e suado de um dos "gentlemen" que ali se armavam ao pingarelho e, por fim, as bruxas sentiram-se saciadas com as minhas respostas, grande parte das quais nao compreenderam devido as suas limitacoes mentais.

Claro está que o Inquérito/Tortura ocorreu no mais escorrido dialecto egípcio e, mais uma vez, com a sensacao ácida de que tenho de LUTAR e LUTAR e LUTAR mais uma e outra vez pelo DIREITO a EXERCER a minha ARTE.
Nao, nao basta ser a melhor no meu trabalho. Nao basta ser apreciada pelo público, seja ele egípcio ou estrangeiro, nao basta nada do que já fiz até agora.

No final das contas, ainda tenho de me submeter a questionários idiotas por parte de gente ainda mais idiota para que me seja dada a oportunidade de exercer a minha ARTE.

Se me sinto revoltada? Claro que sim. Mais que revoltada, exausta. Da luta, da ignorancia, de ter de fazer frente a pessoal mais estúpido do que uma porta pelo simples facto de que sao estas as pessoas de quem depende a evolucao da minha carreira.

Frustrante. Muito!
Irritante. Sem dúvida.
Necessário? Nao tenho a mínima dúvida que SIM.

Nao é por acaso que afirmo ter na Danca Oriental uma MISSAO de vida. E por ela atravesso todo o tipo de desertos consecutivos. Até chegar ao meu oásis.
Diz-me a experiencia a intuícao de quem já passou por muita areia...

Tuesday, July 19, 2011

Entrevista a Joana Saahirah do Cairo



Ai, se eu soubesse o que sei hoje!
E só se passaram uns 5 mesitos...

Falava eu nas mudancas e na esperanca de um Egipto melhor e justo.
Continuo a desejar o mesmo, embora a realidade pós-Revolucao me mostre que este mundo está mesmo entregue aos políticos, diplomáticos aprendizes da mentira e aos ladroes que acham que poder e dinheiro lhes garantirá vida eterna.

Ao passar pela famosa Praca da Libertacao ("Middan Tahrir"), a única liberdade que senti foi a dos gases e micróbios que ali se concentraram.
Ele é acampamentos "a la Costa da Caparica", ele é concertos "baladi" e Djs em toda a parte, novos comerciantes de bandeiras e t-shirts com mensagens xicas espertas sobre o orgulho de ser egípcio e uma palhacada digna do tempo áureo do Circo Chen!

Mendigos, desempregados sem sítio para onde ir, fezes lado a lado com fogoes cozinhando "molokheya" e pessoal apanhando banhos de sol enquanto canta hinos patrióticos e mal diz Hosny Mubarak com o a vontade que, outrora, houvera sido substituída por terror e opressao.

Sim, continuo a sentir um imenso orgulho nos egípcios educados e lúcidos que arriscaram a vida por uma MUDANCA justa e tao merecida neste país mas sei ver quando o CAOS se instala num país onde o caos já estava na ordem do dia. Digamos que houve uma redefinicao de CAOS e aquilo que nós pensávamos ser confuso, desorganizado e corrupto, multiplicou-se como as baratas do meu "post" anterior e ampliou-se até dimensoes imprevistas.

De mao no nariz (o cheiro nauseabundo que cerca a praca da Libertacao é para Rangers e pessoal que lida com esgotos, nao para bailarinas com hipersensibilidade a odores) e boquiaberta, assisti ao resultado aparente de uma Revolucao que nenhum egípcio sonhou para si.

Como, par a par com o caos, sempre existe lugar para milagres, eu espero ver no Egipto a REVOLUCAO REAL que só acontecerá quando o país acordar do seu torpor pós-revolucionário e levar a sério o significado do que foi iniciado. Creio que Revolucao nao inclui palcos com cores garridas e Djs malucos liderando desempregados mal em bailes improvisados sem final previsto...

Nao acredito que aquilo que vi, com os meus próprios olhos, na Praca da Libertacao tenha o que quer que seja a ver com a REVOLUCAO que o Egipto merece ter.

E rio-me da minha própria ingenuidade por acreditar, tao cegamente, em milagres!





E como se abusa da ignorancia por estas terras sagradas do Egipto...meus deuses e profetas de todas as religioes e ilusoes...

Aceitar a ignorancia alheia, como aceitamos e admitimos a nossa, é sinal de maturidade.
E aceitar o abuso exaustivo dessa mesma ignorancia? A mistura explosiva entre a extrema, até cómica, estupidez e a mais ferrenha e orgulhosa ignorancia? Maninhas e maos dadas, caminhando pela estrada negra dos que pensam que tudo sabem.


Aceitar o abuso sistemático e profundo desta cereja em cima do bolo a que chamamos ignorancia significa o que?
Será caminho directo para a Santidade?!
Se for este o caso, passem a chamar-me Santa Joana, se fazem favor.
E que Deus esteja convosco (bencaos dadas pessoalmente só sao dadas consoante prévia marcacao).

Tuesday, June 7, 2011





Zumba catacumba!










Quem me manda a mim armar-me em curiosa? Quantas vezes ouvi dizer que foi a curiosidade que matou o gato?





E insisto. Insisto em querer experimentar coisas novas, saber o que se faz por ai, como rola e avanca (???) o mundo, como se danca noutras esferas e que novidades existem em todos os meios directa ou indirectamente relacionados com o meu.










Partindo dessa irritante e compulsiva curiosidade, aterrei numa aula de "Zumba". O proprio nome ja deveria ter sido aviso suficiente para mim. Zumba???





Zumba onde? Na caneca? No caneco? Eu diria para o caneco porque esta Zumba revelou-se rima direitinha com catacumba. Catacumba de morte. De aniquilicao. De homicidios culturais em catadupa...catacumba!










Oh, meus deuses e profetas acompanhantes!





Como fui eu parar a uma aula de Zumba no meu ginasio chic do Cairo?





Resumindo, eis o que descobri sobre a tal Zumba Catacumba:










1. Trata-se de mais uma tentativa desesperada de manter o pessoal nos ginasios e conseguir atrair novos clientes, mascarando exercicio fisico com macacadas e uma aproximacao pobre a varios estilos de danca que assim sao destruidos e desrespeitados sem o minimo sentido de culpa.















2. A professora certificada de Zumba traduziu varios termos em espanhol cheios de erros. Nada do que traduziu estava correcto. Eu calei-me porque nao tinha interesse em faze-la passar vergonha em frente de clientes mas engoli em seco e chorei. Ahhh...










3. Zumba consegue ser um autentico "serial killer" de ritmos latinos e respectivas culturas.





Um pobre cheirinho de cumbia, salsa, merengue, americano do "Far West" , etc...todos eles fora de tempo e misturando movimentos de boxe, aerobica e invencao mal sucedida de algum Xico esperto que sabe fazer dinheiro a partir da ignorancia alheia.





Ai, como doi!















4. Confirmei que sou uma autentica Mussolini do ritmo. Custa-me ver pessoal fora da musica, completamente alheios ao ritmo e melodia, assassinando danca, musica, cultura, beleza...tudo em prole de um "work out" criado por peritos de marketing.





Existe uma dor fisica que me ataca sempre que vejo alguem fora da musica, destruindo-a, ignorando-a, pisando-lhe em cima com os sapatos cheios de lama. Dor FISICA!!!










5. Nao consegui sorrir e descobri tambem em mim uma crescente propensao para me mandar ao pescoco alheio e, pouco gentilmente, espreme-lo. Sim, sou uma Jack Estripadora de pescocos em potencial. Admito-o.





A cereja em cima do bolo aconteceu quando a professora CERTIFICADA decidiu terminar a aula com musica oriental, contorcendo-se em movimentos primarios de donas de casa desesperadas aos quais ela chamou Danca Oriental. Fora da musica, claro esta! Fora de ritmo, fora de qualidade, fora de beleza, fora de tudo! Claro que sim...








Ter de seguir aquele arraial de fealdade e parvoice foi uma tortura para mim. Nem o meu "laissez faire", desportivismo, sentido de humor e o que me valha me VALEU.


As minhas maos dirigiam-se ao pescocinho da professora e foi apenas o meu auto-controle que nos poupou a todos. Por dentro, chorei. Deprimi-me ate ao limite. Chamei nomes a professora e a toda a estupidez do mundo e surpreendi-me ao saber que existem pessoas a fazer negocio destruindo musica, danca e culturas.










NOTA:





Quando sera que os ginasios e suas gerencias entendem que estas modas light de "fast food" para ignorantes se esgotam sempre e nao acrescentam nada a ninguem, a nao ser dividendos as contas bancarias dos espertalhoes que se lembram destas saladas russas?!

Friday, June 3, 2011





Cairo, dia 3 de Junho, 2011






As devassas.






Se há coisa que o Egipto me ensinou, através de muita tortura, assumir quem sou com total liberdade e nao me importar com o que os outros pensam de mim. Vivendo num mundo feito de hipocrisias, traicoes e diplomacias que disfarcam facadas nas costas de toda a gente, aprendi que MANTER e FORTALECER os meus valores e carácter era a única forma de nao me transformar num dos muitos monstros loucos que povoam este mundo desalmado no país de passado glorioso.



Para onde foi a ALMA do Antigo Egipto e seus incríveis feitos e inteligengia?!









"Down the toilet of time, my dear..." - Posso escutar o nosso Senhor Cronos, respondendo-me, paciente e exausto, do mais fundo dos tempos.






Em processo de mudanca de casa, mais uma!, vejo-me a maos com o usual dilema: como evitar falar sobre a minha profissao ao potencial senhorio que me alugará a casa.






Trata-se de uma fuga policial, um puzzle ao qual nao se encontra solucao.



O senhorio quer saber qual a minha profissao, mais por curiosidade e amor ao mexerico do que por razoes utilitárias, e eu sei que a proclamacao da minha profissao significará dois possíveis finais: ou o senhorio se nega, imediatamente, a me alugar a casa alegando que eu comerei homens ao pequeno-almoco e organizarei orgias báquicas todas as noites ou ganharei um admirador instantaneo que me vai perseguir ou visitar, sem se fazer anunciar, usando apenas um roupao de puro algodao egípcio e um olhinho confiante que pisca e me convida ao "regabofe"!






Como já nao tenho paciencia para estas experiencias inter-culturais (reminiscentes de todo o atraso mental deste mundo), criei uma identidade que serve a todos e me poupa algumas amargas aventuras.



"Sou professora de danca. Só para mulheres!"



E está feito. Fico entao pendente numa resposta que nao me define o suficiente mas que me coloca em terreno mais seguro. "Só para mulheres."






Nao posso, no entanto, deixar de sentir que me traio um pouco a mim e ao orgulho que sinto na minha profissao e carreira. O que também nao posso é deixar de admitir que existem momentos em que dizemos a nós próprios :"Que se lixe! Só nao quero que me chateiem os....PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII...." a boa maneira portuguesa.




E a vida desenrola-se desta forma, entre o orgulho de quem se é e a necessidade de pintar a realidade um pouco, mesmo a revelia do nosso carácter e dignidade próprios, para evitar uma dor de cabeca desnecessária. Mais uma!







Cairo, dia



3 de Junho, 2011







Conversas trocadas.





Ai, meu Deus! Querido Alá, seu Profeta e todos os outros que vieram antes e depois dele...


Oh, dear Lord...



Este mundo egípcio ainda me vai deixar louca, mais do que já sou (difícil, mas possível!).



Eu tento, juro que sim, entrar nesse mundo feminino do mulherio árabe/egípcio e aí ficar um pouco, nem que seja apenas meia hora, mas continuo a encontrar impossibilidades intransponíveis, falhas de comunicacao e um aborrecimento de morte.



Uma vez mais, uma rapariga egípcia tentou meter conversa comigo enquanto esperava um amigo num café perto de minha casa.



Aproximou-se e sorriu, como sorriem os bebés, e perguntou-me se me podia conhecer.



"Já vi este filme..."- Pensei eu e, ainda assim, resistindo este meu lado cínico de quem já viveu muito e aprendeu com esse viver.



- O meu nome é Samia. E o teu?



-Joana.



-Importas-te se me sentar perto de ti. Es muito bonita, sabias?



- Obrigada. Sim, senta-te aqui. Estou a espera de um amigo mas podemos conversar enquanto ele nao chega.



- De onde és? Es casada? Tens filhos? Onde está o teu marido? Onde vives?



Eu fiquei perplexa e desanimada, sem saber ao que responder primeiro e sem paciencia para a "conversa da treta" que se seguiria, invariavelmente.



Se usasse relógio, esta seria a altura em que eu olharia para o pulso e suspiraria "Bem, acho que o meu amigo nao vem. Se calhar, vou embora e ligo-lhe mais tarde."



Mas eu nao uso relógio e tenho muito pouca vontade de ser desagradável com uma pobre rapariga egípcia cujas intencoes sao, tenho a certeza, as melhores.



Em vez disso, tirei o meu "gloss" da bolsa de maquilhagem que levo na minha mala e coloquei-o na boca, olhando em volta, buscando uma resposta sucinta e satisfatória que encerrasse o questionário pidesco que se desenvolveria "ad infinitum".





Nao me ocorreu nada e, por isso, ali fiquei colocando "gloss" nos lábios e fitando o infinito, rezando para que o meu amigo chegasse depressa e me salvasse da entrevista de emprego " a la egipciana".



A minha entrevistadora nao desistiu nem se deixou abater pelo meu óbvio desinteresse.



- De que marca é esse gloss? L Oreal? Nivea? Podes mostrar-me a tua bolsa de maquilhagem? Que cremes usas e onde compras as tuas roupas?



Este é o ponto onde, nos filmes, se ve a personagem principal rodeada de mosquitos de toda a ordem a sua volta e ela se retira para o seu mundo próprio num silencio que é mais uma bolha paradisíaca de ar fresco. Só se veem os mosquitos - personagens enervantes - ao seu redor e a personagem principal sorrindo com ar lunático, embuída no mais profundo silencio.


Foi neste parentesis criado pelo poder fascinante da imaginacao (e capacidade de abstraccao em relacao ao mundo exterior) que eu fugi, quase sem querer, para um mundo só meu onde raparigas egípcias invasivas existem apenas como flores pintadas num papel de parede da casa da avó.


Nao sei por quanto tempo fiquei suspensa na minha bolha de ar respirável. Sei que o meu amigo chegou - arrancando um suspiro de alívio que se deve ter escutado no interior das piramides de Gizé - e que a melguita dispersou, desistindo de indagar sobre as marcas cosméticas da minha preferencia e detalhes vindouros sobre a minha vida privada.


E assim se vive por cá. Entre a realidade que me ensina e fortalece e a ocasional fuga da realidade que me permite manter-me mentalmente sana. Até ver...







Tuesday, May 17, 2011









Cairo, dia 17 de Maio, 2011












Quando o sol sai da casca no Cairo...








A preparacao para o Verao passa por diversos rituais, dependendo do país em que vivamos e da intensidade do calor.




Pois bem...para quem vive no Cairo e nao pretende ser atacada por tarados sexuais a solta na rua, eis as únicas medidas que se podem tomar em plena preparacao veraneante:








1. Treinar o nosso corpo para, estoicamente, suportar temperaturas elevadíssimas sem o risco de desmaio ou outras consequencias fisiológicas.




Meter a cabecinha dentro do forno enquanto ele aquece para cozer um bolo de chocolate (ou amendoa, vá...) pode ser um bom treino.








2. Encontrar roupas que se assemelhem com sacos de batatas (dentro dos quais nenhuma forma do nosso corpo possa ser adivinhada) para podermos sair a rua sem ataques de maior por parte da sexualmente reprimida populacao egípcia *(e árabe).








3. Treinar a nossa mente para a aceitacao TOTAL e INCONDICIONAL da ignorancia alheia, uma vez que o Verao significa chegada em massa de árabes ignorantes, endinheirados, mal educados e arrogantes que se comportam como se fossem reis e pudessem comprar tudo e todos (curiosamente, podem faze-lo com relativa facilidade aqui no Egipto)!








4. Enfrentar a possibilidade de vir a sufocar nas ruas desta cidade fascinante devido ao calor, obviamente, mas também a camadas de roupa acumulada sobre nós da qual nao nos livramos para evitar assédios sexuais e chatices múltiplas que daí poderao advir.








5. Descobrir uma piscina - num hotel, ginásio - reservada apenas a mulheres onde possamos ter contacto com água e sol sem termos de lidar com outro tipo de contactos indesejados que, invariavelmente, se nos oferecem sempre que temos a maravilhosa oportunidade de confraternizar com elementos locais do sexo oposto num local público onde exista qualquer exposicao física.






6. Relembrar que a REALIDADE somos parte muito do ponto de vista que dela possamos fazer e que, por isso, podemos treinar a nossa mente para tolerar e até achar piada (???) ao sufoco do Verao cairota, as roupas/sacos de batatas que temos de vestir para ocultar as formas do nosso corpo/a presenca "desafiante" dos reis na barriga, os árabes e tantas mais delícias culturais que por cá nos sao oferecidas.


Dizem que sim, que podemos treinar a nossa mente para colorir toda a nossa realidade de forma POSITIVA.


"Dizem que sim..."

Sunday, May 15, 2011


















Fotografias tiradas por Ana Chora.

O que me encanta na imperfeicao destas imagens passa pelo facto de entender, atraves dela, que a BELEZA pode resultar de uma aparente falha.

Embora a resolucao das imagens seja muito baixa e, por isso, considerada pouco recomendavel para fins publicos, encontro nessa falta de resolucao autenticas pinturas em potencia.

Nao vejo a fraca resolucao, vejo pinturas que nascem de uma aparente insuficiencia.

E nessa capacidade de VER a BELEZA nas falhas reside uma maiores fortalezas por mim ja conquistadas.


Grata a Anita por enviar as pinturas acima expostas.