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Saturday, April 21, 2012


Enquanto multidões se juntaram ontem à tarde na famosa "Praça da Libertação" (baixa do Cairo) pedindo o regresso de uma personagem ridículo (Abou Ismail) à corrida presidencial, eu ensinava DANÇA e LIBERDADE a um grupo restrito de mulheres que comigo partilharam o 3º Workshop de Dança Oriental do Cairo.
Os níveis de ignorância e estupidez, amplamente observados nos dias que correm, assustam-me para lá da conta do riso que conseguia extrair dos mais absurdos episódios desta sociedade tão "sui generis".
De repente, já não tem graça a forma como se usam palhaços enlouquecidos como iscos políticos que manipulam a mente do povo egípcio com a facilidade com que se convence uma criança de dois anos a comer a papa. Não tem piada...é triste, simplesmente.

É certo que o sistema des-educativo egípcio sempre seguiu as directrizes do Governo que nunca desejou um povo instruído e livre (coisa perigosa para qualquer ditadura)mas a ingenuidade e a idiotice de quem crê em balelas pseudo-religiosas (que de religioso nada têm) eleva-se a graus insuportáveis. Dolorosos.

Os cérebros parecem ter-se congelado, definitivamente. Os corações também. A alma já se perdeu há muito, desde que os VERDADEIROS egípcios foram invadidos, aniquilados, explorados, humilhados na sua própria terra. É uma longa história de ocupações, colonizadores ladrões, tiranos que não suportaram a GRANDEZA deste país...os egípcios já não são EGÍPCIOS. São um produto mal amanhado e distorcido que, um dia longínquo, foram.

Resta a esperança e a crença, também ela ingénua, em MILAGRES.

Friday, April 20, 2012

Latcho Drom Egypt



Cena de filme egípcio que retrata o país pelo qual me apaixonei, não o país que dele querem fazer.
O Egipto profundo dos camponeses e dos homens honrados e duros Saiidi.
Sim, RECONHEÇO ESTE PAÍS.
Criativo, visceral, orgânico, antigo na sua sabedoria e ALTO na dimensão da sua Alma.
Grata ao meu amigo Carlos Alves por me ter oferecido este presente tão quente.

Tuesday, April 17, 2012


Josephine Baker actuando em Nova Iorque depois de uma ausência de vinte e cinco anos dos palcos.
Por Eve Arnold.

(A PAIXÃO...presente nesta imagem. A OUSADIA. O(s) NERVO(s). Gosto muito e muito faltam, hoje em dia.)

Thursday, March 29, 2012

"As Dançarinas do Cairo" - "Les Danseuses du Caire" (legenda em português)




Muito grata ao Marcos Ghazalla por partilhar este vídeo.
Um comentário completo ao que aqui se expõe seria um pequeno tratado sobre o estado da Dança Oriental no Egipto mas eis alguns pontos que gostaria de sublinhar para que outros/as bailarinos/as conheçam melhor esta realidade como ela, VERDADEIRAMENTE, é.

Há que dizer, primeiro que tudo, que o percurso de cada bailarina que trabalha no Cairo é único e com contornos particulares, não forçosamente aplicáveis a toda a gente.
No meu caso, as coisas têm sido - desde o início - atípicas e, devo dizer, pelo caminho mais complicado de trilhar. Vim para o Cairo sem agente, empresário, contactos ou perspectivas de trabalho. Ninguém me deu a mão, muito pelo contrário, e o trabalho que consegui veio - EXCLUSIVAMENTE - da minha perseverança, ousadia e provas dadas de talento e competência.
Este não é o trajecto das bailarinas que conheço. Estrangeiras ou egípcias. Por norma, elas têm um agente que as promove, lhes procura contratos, lhes arranja uma orquestra e a ensaia e lhes assegura a continuidade da carreira. Na maioria das vezes, este agente é um proxeneta (dos pobrezinhos ou dos ricos) que não a auxiliará sem levar dinheiro e/ou sexo extra para casa.

Fui eu, sozinha, quem arranjou os meus contratos, quem reuniu a minha orquestra, quem os ensaia e quem faz com que a minha carreira evolua.

Depois existem as várias classes de Bailarinas:
Este vídeo mostra tres delas, bem distintas.

*A mais baixa, bailarina egípcia de "cabarets" de quinta categoria que é, na verdade, prostituta assumida. Ainda que não o fosse, a sua família ofereceria oposição à sua profissão mas a verdade é que, a este nível, todos sabemos que o palco é apenas uma montra barata para angariar clientes para a prostituição. Na maior parte das vezes, elas nem recebem "cachet" pelo "espectáculo", sabendo que conseguirão o seu pagamento de outras fontes.

*A bailarina de estatuto médio, estrangeira, actuando -maioritariamente - para turistas. A sua orquestra é mais reduzida e o que ganha também mas, por norma, trata-se de profissionais honestas que AMAM a Dança e que por ela se sacrificam, trabalhando no Cairo a fim de obter um mais profundo entendimento da Música e da Dança egípcias.

*A bailarina, estrangeira ou egípcia, do hotel de 5 estrelas é, por norma, a prostituta de luxo. Embora o aspecto do negócio e os nomes que se dão às coisas sejam mais delicados, a verdade é que não se dança em hotéis de cinco estrelas do Cairo sem andar enrolada com o dono ou gerente do local. A história e os factos comprovam o que digo. Estas bailarinas são, geralmente, as namoradas dos seus próprios patrões que nelas investem como se investe numa propriedade da qual se tira proveitos vários.

Feita a distinção, é bom focar que a Dança Oriental ainda é vista como sinónimo de prostituição e todo o sistema em que ela se desenvolve funciona nessa base. Para se conseguir singrar neste mercado sem dormir com o patrão ou com clientes poderosos do dinheiro, há que acontecer o seguinte:

1. Um milagre de Jesus e Nossa Senhora Aparecida.
2. MUITO talento, jogo de cintura para contornar a sujidade e os jogos que esta máfia tanto adora.
3. Ser perseverante, profissional, sempre no ponto máximo da forma, da inspiração, da força. Há que ser GUERREIRA, como menciona o Marcos, mas com o coração de uma ARTISTA que entregará ARTE com ALMA ao seu público.
4.Há que AMAR muito o que se faz e ter uma pele calejadíssima que não se deixe ferir por nada, nem ninguém.
5.Tem de se ser LUTADORA, sacrificando vida privada, família e outros confortos em troca de uma experiência profissional e pessoal que nos poderá marcar para toda a Vida.
6. A inteligência aguda é imprescindível para aprender depressa, não caír no mesmo erro duas vezes, saber defender-se das armadilhas e ataques constantes e EVOLUIR. O Egipto não dá TALENTO a quem não o tem. Nem, tão pouco, ensina a dançara quem não sabe como fazê-lo. O que o Egipto faz, se formos fortes o suficiente para vê-lo, é trazer ao de cima ALGO de EGÍPCIO que algumas* bailarinas carregam dentro de si.

O "glamour" e fantasias que se associam a esta vida não passam de patetadas de quem nunca passou pela experiência ou teorias de mentirosos que pretendem iludir bailarinas, trazendo-as até ao Egipto para as usarem, enganarem, lhe extorquirem dinheiro em troca de desilusão e desencanto.
Desde que comecei a actuar aqui, já lá vão seis anos, nunca conheci senão trabalho árduo, dificuldades e MUITA LUTA. Os privilégios são íntimos, muito mais que públicos. Aprender, a fundo, o que significa DANÇA ORIENTAL, ser reconhecida pelo público local como uma ARTISTA e não como uma "rakasah"/equivalente a prostituta, actuar com alguns dos melhores músicos do país, aprender com eles, respirar o ar do Egipto que levo no peito, receber bailarinos de todo o mundo que aqui vêm para assistir aos meus espectáculos e estudar comigo e outras benção íntimas, invisíveis a quem está de fora desta história.

O documentário mostra um lado duro e negativo da Dança Oriental que é, a meu ver, verdadeiro. O extremismo religioso, cada vez mais óbvio no Egipto, tem dizimado a pouca massa cinzenta que ainda existia nesta população exausta e desalmada de tanto espernear pela sobrevivência mais básica. Os dogmas, a ignorância, os preconceitos e repressão crescem na mesma proporção desse extremismo religioso e as Artes pagam por isso, especialmente uma Arte tão mal compreendida, praticada e usada como a Dança Oriental.

Terá de haver um renascimento desta Dança. Já uma oitava acima do que é comum ver-se. Já regressada à sua origem que é RELIGIOSA, DIVINA, SUPERIOR. Creio que esse RENASCIMENTO já está a acontecer, contra ventos e marés...

Sunday, March 25, 2012





Joana Saahirah do Cairo na Irlanda!


Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...





E não é em qualquer parte da Irlanda, não senhores...


O Festival "Shakefest", onde serei Artista, Instrutora e Conferencista convidada (isto soa-me a muito pomposo e, devo dizer, DELICIOSO), terá lugar num castelo maravilhoso denominado Charllevile (perto de Tullamore, num terreno de caça dos Druídas irlandeses).

Estou "in love" pelo castelo...Intrigada... Fascinada. Irremediavelmente apanhada do clima.






Imaginem o que será DANÇAR neste sítio e partilhar tanta coisa boa com bailarinas irlandesas num local, obviamente, mágico como este?

Eis o website do castelo onde este evento mágico terá lugar (já sinto um arrepio na espinha...):








Eis o link com informações sobre mim (criado pela organização do Festival):





O link do website do Festival "Shakefest":




P.S.Para os mais curiosos e amantes de mistérios (como eu), aqui fica o "link" sobre um espírito que dizem ainda pairar sobre as salas do castelo (lovint it AGAIN!):


Saturday, March 24, 2012



"O ego é dotado de um poder, de uma força criativa,
conquista tardia da humanidade,
a que chamamos vontade."




Carl Jung
*(Via: Michele Pó)

Tuesday, March 13, 2012







Vizinho que recita o "Corão"...







Posso escutá-lo a partir da mesa onde me sento para trabalhar no meu livro. O vento de uma tempestade de areia que se anuncia com doçura zumbe lá fora, os pássaros dançam enlouquecidos e a voz do vizinho do andar de cima embala-me as mãos, confundindo a escrita com a dança.

Recita o "Corão" com uma bela e pacífica voz. Imagino-o prostrado, joelhos assentes num tapete persa ou beduíno, incenso queimando por cima do televisor que a sua esposa cuida como a um filho indefeso.

Quando a voz e o coração do recitador são belos, as palavras gramática e foneticamente perfeitas do Sagrado "Corão" soam a beijos de mãe ou a sílabas suspiradas pelo nosso amor, ao nosso ouvido.

Cansei-me da mecanização/banalização do "Corão", agora presente onde - outrora - estava música e riso espontâneo. Cansei-me da falsa religiosidade e do uso do "Corão" como atestado de uma virtuosidade quase sempre ausente. Cansei-me do jogo de aparências deste país mas não me cansei da BELEZA ainda existente por baixo das pedras dos monumentos faraónicos ou do espírito de alguns egípcios que, sem razão nem benefícios para o seu estatuto social, recitam palavras do Profeta Maomé ou quaisquer outras que exalem PAZ, LUZ e TRANQUILIDADE.




Apago as luzes e o sistema de som ruidoso da minha mente. Escrevo mais um pouco, bebo o chá que me assiste e respiro fundo. Ouço o meu vizinho "muezzin" como quem ouve Om Kolthoum ou o chamamento de um anjo. Porque os anjos andam por aí, ainda que confundidos e meio perdidos no meio da multidão de demónios mascarados com asas e auréolas feitas de fumo.





Das barbas e das bimbalhadas.






Última moda no Cairo:

homens de barbas fartas e olhares vidrados no vazio e uma banda sonora omnipresente que se resume à recitação (por vezes bela e, por vezes, dolorosa de escutar) do sagrado Livro do "Corão".


A barba comprida e o calo a meio da testa parecem ser certificados físicos de crentes (crentes em quê, essa já é outra questão) que fazem questão de aparentar ser pios, cumpridores dos rituais da religião muçulmana e baluartes da moral instituída (moral essa que se rege, aparentemente, pela ausência de valores...hhmmmm...interessante e bizarro!).


Algures no "Corão" se descreveu o Profeta e seus seguidores usando barba, daí a moda renascida em tempos de ascenção da "Irmandade Muçulmana", dos Salafistas e outros grupos políticos (e friso POLÍTICOS, jamais RELIGIOSOS naquilo que concebo ser a RELIGIÃO).

Por alguma razão desconhecida criada pela 5ª Dimensão actual - também conhecida por EGIPTO - um homem que deixe crescer as barbas fica, automaticamente, mais sábio, íntegro e digno de respeito. Qual a relação entre a pilosidade facial e a consciência do indivíduo que a exibe, eu não sei!


O calo a meio da testa faz parte do "personagem" coberto de moralidades "imorais" dos que rezam vezes suficientes para deixar na pele a marca do seu fervor. Estes calos conseguem-se consoante a repetição das prostrações (nas quais a cabeça bate no chão) incluídas no ritual das cinco rezas diárias aconselhadas pelo "Corão".


Até nas campanhas políticas se criam calos na testa de candidatos que não as têm (o "photoshop" dos especialistas de marketing cá do sítio é meio fraquinho...) a fim de atribuir uma credibilidade que, desconfio, os próprios candidatos não possuem.


A minha questão é apenas uma: estes sinais exteriores de cuidados "religiosos" corresponderão a uma conduta de vida igualmente RELIGIOSA?

Estou inclinada a pensar que não. Se a História das Religiões do mundo nos ensinou alguma coisa, temo prenunciar mais depravados, tarados sexuais, atrasadice mental e repressão que só servirá meia dúzia de poderosos que quer, a todo o custo, manter o POVO egípcio calado, ignorante, temeroso e incapacitado de PENSAR POR SI PRÓPRIO.


Num país onde os colonizadores nunca permitiram que o POVO utilizasse o seu cérebro para seu benefício (criando geração após de geração de opressores e oprimidos que se limitam, ambos, a seguir ordens sem questioná-las), não é assim tão estranho verificar como a CONTRA-REVOLUÇÃO utiliza a falsa RELIGIÃO como forma de manter os cordeirinhos alinhados.


Pergunto-me: onde estará o lobo mau???

Wednesday, March 7, 2012



Provocações/saudações

à moda portuguesa.



Imagem enviada por Pedro Tenreiro Biscaia via Facebook.


Sem comentários. Quem for português, entende;).


P.S. Com canela. Com vista para o Tejo. Servidos mornos em cima de uma mesa do "Martinho da Arcada", o melhor sítio de Lisboa para se comer...coisas doces destas. Tão nossas.


Friday, March 2, 2012



Coisas inúteis e deliciosas.






SABIAS que :






As botas até a coxa eram originalmente usadas pelos piratas e contrabandistas que escondiam nelas valores roubados (booty em inglês) - uma prática que deu origem ao termo bootlegging (contrabando.)
Por: Nelson Neto da Cunha

Friday, February 24, 2012

Sidarta - Filme Completo


Comida para a mente (ah, e sim...para a Alma)...

O filme que conta a história de Siddharta Gautama.
Seguindo a linha de um dos meus livros favoritos "Siddharta" de Herman Hesse, eis o filme que conta como Buda re-nasceu para a Vida, dando origem a uma inteligentíssima filosofia de vida a que se chamou "Budismo".


"Por mais que na batalha se vença a um ou mais inimigos, a vitória sobre a si mesmo é a maior de todas as vitórias."
Siddhartha Gautama

Monday, February 20, 2012


Saldos Orientais, já este Sábado (dia 25 de Fevereiro)!
Mais um aviso, desta vez às bailarinas profissionais e estudantes de Dança Oriental portuguesas:
No próximo Sábado, dia 25 de Fevereiro, poderão contar com o WORKSHOP de INTERPRETAÇÃO e SENTIMENTO
na DANÇA ORIENTAL *(cocktail de estilos) na Pró-Dança, em Lisboa e com um BAZAR ORIENTAL com SALDOS sobre artigos de QUALIDADE próprios para a prática da dança egípcia.
Lenços de ancas, adereços de dança, cds, dvds e trajes completos por preços promocionais.
Aproveitem!
O Bazar estará aberto ao público, a participantes no workshop e a não participantes, das 11h da manhã até às 6h da tarde.
Bem vindos.;)))

Wednesday, February 15, 2012








Portugal, aqui vou eu!







Dentro de poucos dias, embarco para o meu país de origem (para os distraídos, informo que sou portuguesa).



Além de "certos" negócios ainda no segredo dos Deuses/as, do reaver da família e amigos mais chegados e dos pés mergulhados no mar (possivelmente o corpo todo, mesmo com a água gelada) existe ainda o único


WORKSHOP que darei em Portugal, já no dia 25 de Fevereiro (Sábado),em Lisboa.




Trata-se do Workshop de INTERPRETAÇÃO e SENTIMENTO na DANÇA ORIENTAL *(cocktail de estilos) e será do interesse de qualquer bailarina (amadora ou profissional) que queira saber quais as diferenças, nuances, riquezas particulares de cada estilo praticado no amplo campo da Dança Oriental e do Folclore egípcio. No cardápio existem iguarias deliciosas (oriental clássico, tabla, baladi, saiidi, núbio, "shaaby", etc) regadas pelo bom vinho dionisíaco da Paixão e do Sentimento, obrigatoriamente presentes na Dança que pratico e ensino.

O programa completo do evento encontra-se num "post" anterior deste blogue e na minha "Joana Saahirah of Cairo" fan page no Facebook.

Bem-vindos!




Aqui deixo uma pérola para a Viagem:
‎" O Belo é isso que me tocou quando eu ainda aí não estava".................................

- J.F. Lyotard

(Via Rosa Leonor Pedro)




Tuesday, February 14, 2012



Ser Feliz...



“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.

E que posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um “não”.

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”
Fernando Pessoa

Monday, February 13, 2012





Pedes AJUDA aos Santinhos quando...




O teu contabilista egípcio te tenta engatar, pela milésima vez, ao mesmo que tempo que te rouba à descarada.

O senhor que cuida dos meus impostos, aqui no Egipto, tem cerca de cinquenta anos, é casado com duas esposas e tem uma catefrada de crias de cada uma.


Aponta-me a quantidade de carros que tem, as férias luxuosas que passa aqui e ali, os relógios e os perfumes de marca importados que usa e outros tantos apontamentos "extremamente fastidiosos" que ele pensa serem, fatalmente, atractivos.

Isso não o impede de engatar as suas clientes, nas quais eu me incluo, enquanto lhes rouba o mais possível. Dinheiro & sexo, combinação ideal para a maioria dos homens egípcios.


Sendo bailarina, ele pressupõe que eu estou pronta para TUDO. Mas estar pronta para TUDO não significa, para mim, aceitar o acordo de engate de uma criatura com as seguintes características. Senão vejamos:


1. Quase com idade para ser meu pai, casado com duas vítimas (upps!), queria dizer esposas, e com duas famílias "Von Trapp" do avesso ao seu redor.


2. Bexigoso, barrigudo, aborrecido, superficial, menos interessante do que um debate político num telejornal português ou um anúncio a batedeiras do canal de tele-vendas.


3. Meu contabilista. Quem é que julga que sair com o próprio contabilista pode ser, alguma vez na vida, excitante?! É como ir às Finanças pagar impostos altíssimos dos quais ninguém parece tirar proveito (excepto os ladrões do Governo que com eles alimentam as suas fortunas pessoais e a dos seus amiguinhos) e, assim como quem não quer a coisa, convidar o empregado da repartição dos formulários para um "programinha bacana" logo à noite. Huh?!


Ah, pois é...clamo a todos os Santinhos por ajuda, paz de espírito, capacidade de encaixe.


O personagem tenta roubar-me e engatar-me, simultaneamente, enquanto pergunta pela saúde da minha mãe e lhe manda cumprimentos. "Talk about multi-tasking...".

Voltem, diabos referidos na "Tora", na "Bíblia" e no"Corão", que estão perdoados! Nenhuma das personagens mefistofélicas contidas nas "religiões do Livro" se aproximam, em maldade sofisticada, aos diabos que entre nós circulam ao cimo da terra.

(O inferno é AQUI. Assim como o CÉU.)

Wednesday, February 8, 2012



James Brown and Mick Jagger.




Brigitte Bardot e Pablo Picasso.






Ella Fitzgerald e Marilyn Monroe.





Johny Cash e Ray Charles.





O meu único ídolo de infância que sobreviveu a TUDO, Michael Jackson e outro ícone da música Pop, Paul Mccartney.


Eis...


Imagens icónicas que falam por si.


Obsessões egípcias.



Sexo.Dinheiro. Religião & tradições (com ou sem sentido).

Mais recentemente, política.


Desde a Revolução egípcia, todas estas obsessões centrais se misturam de forma explosiva, deixando os limites entre a Loucura e a Sanidade ainda mais esbatidos do que já eram.


Tudo o que é negado ao ser humano se transforma numa inevitável obsessão. Se o sexo é condenado, legislado, tratado como assunto público apenas aceitável dentro do contrato matrimonial, então ele torna-se numa doença.


Se as dificuldades económicas e as injustiças sociais são crassas e impedem que pessoas decentes, educadas e trabalhadores VIVAM com dignididade e conforto mínimos, então o dinheiro torna-se numa doença.


Se a Religião - sob a forma de rituais e regras impostos cujo questionamente é proíbido - é impingida, desde crianças, no cérebro dos egípcios, então ela acaba por ser uma fixação doentia, cega, mecânica e totalmente desapegada da CONSCIÊNCIA individual de cada pessoa.


Se, de repente, é permitido FALAR abertamento quando se estava habituado a ser preso, torturado, morto por levantar a voz contra o Governo (do ex-presidente Hosny Mubarak) então a Política explode como as águas de uma represa que, de repente, abre as suas portas calcificadas.


Permeando tudo isto está o sentido de humor egípcio, a inventividade deste povo e o seu amor à conversa. Útil e inútil. Também nestas misturas estranhas reside o "nada linear" FASCÍNIO do Egipto.




Ironias ou o mundo de cabeça para baixo!







(Fotografia de um dos meus "maridos da Alma": Osho)


Não é novidade para ninguém que o mundo anda de cuecas e numa posição retorcida que combina o pino com a cabeça desenroscada do pescoço (ou algo parecido). A voltagem aumenta a olhos vistos! Há quem a acompanhe e há quem, literalmente, enlouqueça.



Não é que este mundo imperfeito tenha sido lógico e isento de injustiças no passado. Creio que nunca o foi mas o momento PRESENTE é particularmente rico em ironias, loucuras coloridas e uma perda total de conceitos como o BEM e o MAL, o JUSTO e o INJUSTO.






Senão, observemos:






1. Ao mesmo tempo que recebo propostas maravilhosas para ensinar e actuar dentro e fora do Egipto, partindo do reconhecimento que ganhei através do meu trabalho como bailarina no Cairo, recebo umas mensagens VERGONHOSAS de uma senhora/menina de Coimbra (meu querido Portugal, sempre esquecendo e/ou ignorando os "seus"!) de seu nome Petra com termos ofensivos e uma atitude de extrema arrogância em relação a mim.






Enquanto me reconhecem pelo mundo fora, esta senhora/menina de Coimbra acha-se o centro do mundo e trata-me como se eu fosse uma "profissional" de quinta categoria que anda às voltas a tentar arranjar trabalho no ginásio do bairro da esquina. IMPRESSIONANTE! Ridículo. Triste. Não sei de que mundo chega tal criatura mas sei que não é a única.;(



Mais uma vez, recebo reconhecimento de todo o mundo e RESSABIAMENTO de Portugal. Bizarro...






2. Continuo a escutar comentários negativos em relação a mim pelo simples facto de ser BAILARINA enquanto prostitutas que se vendem como carne para canhão são tratadas como rainhas. Com o crescente extremismo religioso facilmente observável no Egipto actual, as caras e as palavras de desprezo que me atiram sempre que sabem qual é a minha profissão são proporcionais às vénias e títulos de honra que dão a quem vende o corpo a homens ricos.






3. Um jornalista egípcio pediu-me que desse uma entrevista sobre o lado INTELECTUAL do meu trabalho (os meus blogues e o meu LIVRO ainda em desenvolvimento) frisando que a DANÇA ORIENTAL estará totalmente fora do âmbito da entrevista. Ele só quer saber do meu "LADO INTELECTUAL" porque aquele é um jornal respeitável das Artes e da Literatura.



???



Como dar uma entrevista sobre o meu "LADO INTELECTUAL" (seja lá o que isso significa) e não mencionar a Dança Oriental de onde TUDO o que faço provém?!



E como separar a minha actividade ARTÍSTICA da minha suposta "INTELECTUALIDADE"?!



Neguei-me a dar a tal entrevista, alegando que FALARIA de Dança Oriental - obrigatoriamente - e que é dela que nascem os meus blogues, o meu LIVRO e tudo o que defendo, ensino, comunico.






4. Sou quase queimada na fogueira como bruxa oficial do meu prédio quando os vizinhos se dão conta que alimento e cuido dos animais que encontro pelo caminho. Eles envenenam-nos, atiram-lhes com água a ferver, deitam-lhes lixo em cima e repreendem-me por ser uma selvagem. Eu, a selvagem! Portanto, analisemos:



Assassinos de animais são seres humanos dignos.



Quem cuida e alimenta animais que encontra pelo caminho é uma bruxa digna de fogueira ou espeto.



Huh?!






5. Descubro que um dos potenciais clientes dos meus espectáculos no Cairo é um proxeneta dos antigos que teve sorte num qualquer negócio excuso e se tornou, de um dia para o outro, um grande e respeitado homem de negócios. A sua secretária marca e desmarca uma reunião duas vezes, alegando que o Sr. X se encontra demasiado ocupado.



Coloco a mão na consciência: "Então este proxeneta de quinta categoria dá-se a ares de grande senhor e cancela reuniões como quem muda de cuecas?!". A terceira reunião foi cancelada POR MIM. Não me apanham noutra que sou maluca mas nem tanto.






6. A senhora contratada por mim para pintar mãos e pés com "henna" (na primeira noite oriental dedicada às Mulheres do Cairo) exige "cachet" mínimo pela sua presença de estrela no evento e só sai de casa pelo mínimo de 200 libras egípcias. Até mesmo para fazê-la sair de casa, temos de passar pelo telefone da sua "assistente". ???






Isto anda tudo maluquinho de todo...



o honesto é tomado por parvo...



o talentoso é humilhado...



quem pensa é esmagado...



quem não se deixa pisar e reivindica o seu valor e direitos é chamado de arrogante...



quem sente é tido por fraco...



quem é simples é tido por ignorante...



quem não se dá a ares de arrogante é tratado como um tapete de soleira de porta...



Uff!






Soluções: Muito Yoga, respiração profunda, corridinhas na passadeira do ginásio para deixar esvair~se a energia marciana acumulada e não ir aos ... $##%#$"( de tantos otários/as que andam por aí à solta e coragem para poder navegar com graça e beleza acrescidas nas águas turvas dos tempos fascinantes/desconcertantes que vivemos no presente momento.

Tuesday, December 27, 2011



Perguntam-me porque vivo no Cairo!!!


É frequente dividir as reacções à cidade do Cairo em duas classes bem demarcadas: as do que odeiam a cidade e dos que a amam.

Creio que esta é uma forma simplista de colocar a questão.

Para mim, o Cairo odeia-se e ama-se, simultaneamente.

A sua complexa natureza, diversidade de contrastes, riqueza assim o exigem. Nela está contido o miraculoso e o monstruoso. Tal como a natureza Humana, o Cairo não se deixa catalogar por bonzinho ou mauzinho. Os cowboys e os índios são uma e a mesma pessoa, tornando a vida por cá um tumulto de sensações, choques, aprendizagens que podem elevar-nos ou, simplesmente, enlouquecer-nos.


Ontem à noite recordei porque AMO-ODEIO esta cidade e porque cá vivo.

Assisti a mais um espectáculo sufi no Palácio "El Khoury" (na zona do Hussein, onde também se encontra o famoso mercado de "Khan el Khalili" ) e participei numa sessão se "zaar" no coração do Cairo (numa das muitas zonas onde os agentes turísticos e "amigos" egípcios não nos levarão, nem em sonhos).


Ter músicos egípcios como amigos tem destes privilégios.

O espectáculo sufi acrescenta sempre ALGO ao que eu já sabia. Apercebo-me do PORQUÊ deste espectáculo ser patrocinado pelo Estado egípcio. Sendo sufi e, exclusivamente apresentado e criado por HOMENS, o teor do mesmo é RELIGIOSO, MUÇULMANO.

Para quem não entende as letras das canções apresentadas, esse pormenor passa ao lado. O pessoal quer apenas ver homens girando com as suas saias redondas e coloridas. Para a maioria, trata-se apenas de um espectáculo visual. Para mim não.


As letras louvam o Profeta Mohamed e Alá, envergando símbolos muçulmanos discretamente imbuídos de uma Sabedoria mais antiga que vê o Ser Humana como uma partícula dançante de um Universo também ele dançante.

Aprecio a ALMA de alguns dos bailarinos de "tannoura" ( quer dizer, literalmente, "saia") e músicos. Mirando em direcção ao céu, entoando cânticos de amor apaixonado a Alá, é fácil entender porque este é um espectáculo à parte da cena PROÍBIDA ("haram") onde a Dança Oriental se encontra como Senhora e Rainha. O mundo patriarcal que louva a um Deus e a um Profeta continuam a sobrepor-se à existência inegável de uma forma de ADORAR a VIDA feminina. Sendo também um espectáculo de teor muçulmano, conforma-se com a maioria e com o poder instituído. É perversa esta relação da ARTE com a POLÍTICA.


Depois dirigimo-nos para uma sessão de "zaar", não daquelas que fazem para turistas ver (já de si, muito raras) mas uma sessão espontânea que se pratica na mesma casa há muitas gerações.

Chamo ao "zaar" o psicólogo para o povo. Mulheres (e alguns homens) chegam de cada bairro em determinados dias da semana e pagam a músicos e cantores para as libertarem de tudo o que de negativo levam dentro de si. Para os mais supersticiosos, trata-se de um exorcismo. Os demónios e espíritos maléficos ("djinns") que penetraram no corpo daquela pessoa são libertados/expulsos através da música e da dança. Gosto da ideia!


Para um observador atento, não é difícil perceber que este ritual é um salva-vidas numa sociedade em que a maioria das mulheres ainda vive na pobreza, em ambientes de violência, sem amor ou realização que não seja a de procriar.

Através da música e da dança, libertam pressões, tristezas, tragédias, feridas abertas, raivas, revoltas internas que não ousam expressar de outra forma e por aí fora (que isto de SER MULHER no Egipto tem MUITO que se lhe diga).


Mais curioso ainda é que os mais conceituados músicos e cantores do "zaar" são MULHERES.

Elas tocam percussão e cantam com as vozes poderosas construídas de muito sofrer e viver, as mãos gordas e monumentais que mais parecem frangos caseiros, os olhos negros penetrantes de cumplicidade na alegria e na dor.


Não pude deixar de pensar na diversidade e riqueza imensa deste país, desta cidade. Aos olhos do estrangeiro, turista superficial, trata-se apenas de caos e repressão. Para quem QUER conhecer a fundo e abre o coração a este solo mágico, as REVELAÇÕES são imensas, lindas, indizíveis.

Thursday, December 22, 2011



Diz que disse à moda egípcia.


O Egipto continua nas boas do mundo de forma sensacionalista, ao bom estilo da imprensa mundial.

O período pós-revolucionário comprovou aquilo que sempre me pareceu a mim: que, dada a oportunidade de existirem eleições democráticas e honestas neste país, a maioria dos egípcios dariam a vitória à Irmandade Muçulmana.



Chamaram-me pessimista, Velho do Restelo de cabelos aloirados e outros mimos a que já estou habituada. Isto de uma Mulher ter uma VOZ activa ainda incomoda muita gente.


O que previa veio a confirmar-se, para desgosto meu e de muitos que olham a Irmandade Muçulmana com justificada desconfiança e até terror.

A verdade é que o povo teve o direito que merecia a votar mas a verdade é também que um povo sem educação académica e/cívica não está preparado para a Liberdade ou para a Democracia. Estas requerem cultura, cérebros que funcionam, pessoas educadas que sabem distinguir religião de política, campanhas eleitorais de compra de votos, sermões religiosos de lavagens cerebrais. Ora o Egipto, com o tanto que o amo porque é aqui que trabalho e vivo como qualquer outro egípcio, é um país com uma esmagadora percentagem de iletrados (pessoas que não sabem, sequer, ler e escrever). Para as massas deste país, a educação que recebem chega das mesquitas e dos sermões que os "cheiques" lá lhes dão, passando mensagens de extremismo religioso, ódio ao Ocidente e prometendo que o Paraíso na Terra só se consegue com um Governo Islâmico.


Irónico mas verdadeiro: se a maioria do povo egípcio escolhe a Irmandade Muçulmana para governar este país, então a IRMANDADE MUÇULMANA tem o direito de fazê-lo porque foi democraticamente eleita pela maioria.


Agora surgem vozes que se opoem a esta aparente consumada vitória e tantas outras vozes que se juntam ao caos, com ou sem razão para fazê-lo.

Cá por mim, não sou a favor nem contra ninguém mas sou, sem dúvida, em prol do uso do cérebro para mais do que abrir latas de atum. Se houve algo que a nossa história mundial nos ensinou é que a mistura entre Religião e Política nunca traz coisa boa. Quando este cocktail explosivo se dá, existem as Inquisições, as manipulações mentais, vários tipos de fascismos e outros demónios que tais. Aprender com a História é para quem teve essas coisas tão temidas por todos os poderosos financeiros do mundo: educação, cultura.


Entretanto, não se fala noutra coisa: mulheres com mamocas interessantes que passam na rua pedindo para ser assediadas (o Egipto não mudou assim tanto!) e política.


Deita-se fogo a importantes arquivos arqueológicos no centro do Cairo, anda-se à batatada com e sem razão aparente e fala-se mal dos militares que estão, por assim dizer, encostados à parede entre a protecção do seu povo e a tentativa, praticamente impossível, de reestabelecer a ordem para que a vida "normal" possa ser retomada num país já devastado pelos efeitos da queda brutal no turismo.


Como residentes, sabemos acerca das zonas onde estão concentrados os conflitos (perto de Tahrir e, em geral, pela baixa da cidade) e evitamos enterrarmo-nos nesta espiral de auto-destruíção que parece ter-se apoderado do meu querido Egipto.


Sim, o POVO egípcio queria e merecia a Revolução (tal como eu a queria e merecia) mas isso não significa que não hajam muitos outros PODERES (maioritariamente, escondidos) que são CONTRA-REVOLUÇÃO.

Vejo este povo meio perdido, como sempre esteve, porque nunca lhe foi dada a oportunidade de educar-se e pensar por si próprio.

Muito coração e pouca cabeça. Assim foi e assim continua a ser.


Fala-se também do aumento da criminalidade nas ruas do Cairo, algo inédito para mim, e nas Mulheres egípcias que começam FAZER-SE OUVIR num âmbito que não se restringe à Revolução.


Cá para mim, resta o orgulho nesta gente corajosa que chegou a um ponto de miséria e desesperança que disse para si mesma: não temos nada a perder e TUDO a ganhar.

Resta saber que será este TUDO e resta esperar-desejar-lutar para que este TUDO seja o que os revolucionários imaginaram para o seu país e não uma viagem à época medieval que separará, ainda mais, o Egipto da sua própria identidade e grandeza.


O meu coração e a minha mente estão sempre com o Egipto, assim como o meu corpo presente, a minha esperança ou até mesmo a minha ingenuidade, algo que tenho em comum com os meus conterrâneos outrora faraónicos.