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Tuesday, December 27, 2011



Perguntam-me porque vivo no Cairo!!!


É frequente dividir as reacções à cidade do Cairo em duas classes bem demarcadas: as do que odeiam a cidade e dos que a amam.

Creio que esta é uma forma simplista de colocar a questão.

Para mim, o Cairo odeia-se e ama-se, simultaneamente.

A sua complexa natureza, diversidade de contrastes, riqueza assim o exigem. Nela está contido o miraculoso e o monstruoso. Tal como a natureza Humana, o Cairo não se deixa catalogar por bonzinho ou mauzinho. Os cowboys e os índios são uma e a mesma pessoa, tornando a vida por cá um tumulto de sensações, choques, aprendizagens que podem elevar-nos ou, simplesmente, enlouquecer-nos.


Ontem à noite recordei porque AMO-ODEIO esta cidade e porque cá vivo.

Assisti a mais um espectáculo sufi no Palácio "El Khoury" (na zona do Hussein, onde também se encontra o famoso mercado de "Khan el Khalili" ) e participei numa sessão se "zaar" no coração do Cairo (numa das muitas zonas onde os agentes turísticos e "amigos" egípcios não nos levarão, nem em sonhos).


Ter músicos egípcios como amigos tem destes privilégios.

O espectáculo sufi acrescenta sempre ALGO ao que eu já sabia. Apercebo-me do PORQUÊ deste espectáculo ser patrocinado pelo Estado egípcio. Sendo sufi e, exclusivamente apresentado e criado por HOMENS, o teor do mesmo é RELIGIOSO, MUÇULMANO.

Para quem não entende as letras das canções apresentadas, esse pormenor passa ao lado. O pessoal quer apenas ver homens girando com as suas saias redondas e coloridas. Para a maioria, trata-se apenas de um espectáculo visual. Para mim não.


As letras louvam o Profeta Mohamed e Alá, envergando símbolos muçulmanos discretamente imbuídos de uma Sabedoria mais antiga que vê o Ser Humana como uma partícula dançante de um Universo também ele dançante.

Aprecio a ALMA de alguns dos bailarinos de "tannoura" ( quer dizer, literalmente, "saia") e músicos. Mirando em direcção ao céu, entoando cânticos de amor apaixonado a Alá, é fácil entender porque este é um espectáculo à parte da cena PROÍBIDA ("haram") onde a Dança Oriental se encontra como Senhora e Rainha. O mundo patriarcal que louva a um Deus e a um Profeta continuam a sobrepor-se à existência inegável de uma forma de ADORAR a VIDA feminina. Sendo também um espectáculo de teor muçulmano, conforma-se com a maioria e com o poder instituído. É perversa esta relação da ARTE com a POLÍTICA.


Depois dirigimo-nos para uma sessão de "zaar", não daquelas que fazem para turistas ver (já de si, muito raras) mas uma sessão espontânea que se pratica na mesma casa há muitas gerações.

Chamo ao "zaar" o psicólogo para o povo. Mulheres (e alguns homens) chegam de cada bairro em determinados dias da semana e pagam a músicos e cantores para as libertarem de tudo o que de negativo levam dentro de si. Para os mais supersticiosos, trata-se de um exorcismo. Os demónios e espíritos maléficos ("djinns") que penetraram no corpo daquela pessoa são libertados/expulsos através da música e da dança. Gosto da ideia!


Para um observador atento, não é difícil perceber que este ritual é um salva-vidas numa sociedade em que a maioria das mulheres ainda vive na pobreza, em ambientes de violência, sem amor ou realização que não seja a de procriar.

Através da música e da dança, libertam pressões, tristezas, tragédias, feridas abertas, raivas, revoltas internas que não ousam expressar de outra forma e por aí fora (que isto de SER MULHER no Egipto tem MUITO que se lhe diga).


Mais curioso ainda é que os mais conceituados músicos e cantores do "zaar" são MULHERES.

Elas tocam percussão e cantam com as vozes poderosas construídas de muito sofrer e viver, as mãos gordas e monumentais que mais parecem frangos caseiros, os olhos negros penetrantes de cumplicidade na alegria e na dor.


Não pude deixar de pensar na diversidade e riqueza imensa deste país, desta cidade. Aos olhos do estrangeiro, turista superficial, trata-se apenas de caos e repressão. Para quem QUER conhecer a fundo e abre o coração a este solo mágico, as REVELAÇÕES são imensas, lindas, indizíveis.

Sunday, November 14, 2010


Cairo, dia 14 de Novembro, 2010


Em palco...



Em palco...SOU FELIZ!


Feliz de Carnaval, feliz de amar sem fim, feliz de nao pensar na VIDA e, ainda assim ou talvez por isso, VIVE-LA, feliz de gelado de morango no meio do Verao, feliz de abraco de crianca, feliz de colo de mae, feliz de enamoramento profundo, feliz de ver o ceu azul brilhando, feliz de dizer " amo-te" e escutar um outro "amo-te" sincero do outro lado, feliz de noite de Natal, feliz de ser totalmente FELIZ!



Embora a alegria da vida real - como lhe teimam em chamar - nao substitua a que se vive em palco, a verdade e' que existe um outro tipo de vida " real" debaixo das luzes e em frente a um publico.

Um lado alimenta o outro...nao posso dancar a alegria senao a tiver vivido " la fora", na vida quotidiana que partilho com a normalidade (???) das gentes.

Nao poderei dancar a tristeza com verdade senao a tiver experienciado do tal lado dito cujo juntos aos tambem ditos cujos "normais" companheiros de quotidiano.

Como posso dancar o Amor e a Paixao senao os tiver sentido na tal " vida real"?


Existem bailarinos-actores. Estes nao necessitam de VIVER para DANCAR.

Eu sou - ou tento ser - BAILARINA-ARTISTA-BAILARINA e isso requere, a par da tecnica e de tantos outros conhecimentos e preparacao, VIVA vivida.
Alem de tudo e acima de tudo, o mais importante permanece: No palco, sou FELIZ...
Feliz de Amor Eterno...e havera felicidade maior que essa?!

Sunday, October 24, 2010

Cairo, dia 24 de Outubro, 2010

Regresso aos espectaculos com nova orquestra (uma vez mais!) e um novo folego!

Wow...ja estou (quase) habituada...quase, quase...
Mais uma revolucao.

Sempre procuro melhores musicos e, consoante o meu nome vai crescendo no mercado egipcio e internacional, tambem esses ditos cujos me procuram a mim. Isto faz com que mude, de estacao em estacao, de orquestra. Se juntarmos a isto aqueles revezes da vida egipcia onde se encontram, por exemplo, o facto de eu ter descoberto que o chefe da minha orquestra e meu braco direito me roubava a descarada por baixo das minhas barbinhas, entao as mudancas sao ainda mais marcantes e constantes.

La se foi um ladrao embora e com ele foram outros musicos que ja nao estavam a dar o rendimento que eu pretendo. Nao posso crescer se a minha orquestra nao crescer comigo.

Por isso, pela milesima vez em cinco anos de trabalho diario no Cairo, la vou eu encarar, ensaiar, corrigir, coordenar e estimular uma nova orquestra nuclear que me seguira em espectaculos diarios e festas, casamentos, etc.

Confesso que me sinto cansada mas, tal como refiro vezes sem conta, a realizacao de cada sonho traz o seu preco agregado. Quem nao quer arriscar e pagar contas elevadas, nao realiza sonhos nem tem a coragem de ir onde sempre desejou ir. Eu vou, vou, VOU ate que a voz, o corpo e a alma ja nao me possam acompanhar.

A pior tristeza na vida sera estar morto antes do tempo.
Novo programa, novas caras, nova energia de grupo a agarrar, estudar, explorar. Sei que daqui saira algo melhor, mais evoluido, fantastico...tenho imensa fe no poder da mudanca.

Dando sempre o meu melhor!

Thursday, July 29, 2010


Cairo, dia 29 de Julho, 2010


Espectaculos diferentes - NILE MAXIM, CASAMENTOS e um RAMADAO ESPECIAL quase, quase a chegar...


Os desafios jamais de abandonam, gracas a Deus.

Para alguem mutante (ao segundo!) como eu, a estagnacao seria mortal. Por isso, tento nao queixar-me do cansacao que vem deste estilo de vida na qual tenho de adaptar-me a realidades distintas (e, frequentemente, adversas) e a constantes mudancas.


O treino de desapego que ja trago na bagagem deixaria qualquer Gautama Buddha impressionado!


Como a minha vida se baseia na combinacao bombastica entre mudancas, crescimentos e surpresas constantes, a minha danca acaba por reflectir isso mesmo e ai me vejo a mim mesma sempre movendo-me de forma inusitada (mas de onde sera que me chegam determinados movimentos?!).


Seguem-se novos espectaculos, como sempre.

E programacao especial para os casamentos que se multiplicam (gracas a Deus!).

E ainda um espectaculo dedicado ao Ramadao para cumprir esta estacao religiosa durante a qual estarei a actuar todos os dias (non stop!).


Deixo-me levar pelas mares e tento nao perguntar demasiado ou fazer planos. La dizia - alguem! - que a vida acontece nos intervalos de tempo que existem enquanto fazemos planos.


Remar contra a mare do Universo nao seria apenas arrogante mas tolo e inutil...

Deixando-me levar pelas correntes, rodeando-me -cada vez mais - de pessoas, objectos e energias que reflictam a minha Luz e nao tentem apaga-la.


Criando...

Deliciando-me com o livro ZORRO da autora chilena Isabel Allende (porque sera que os autores latino-americanos possuem um calor e uma humidade entranhados nas palavras que nao se encontra em autores de outras partes do mundo?!)

Thursday, August 27, 2009

Cairo, dia 28 de Agosto, 2009

"Shows do Ramadao e portugueses na audiencia!"


A estacao de espectaculos do Ramadao teve inicio ha tres dias e hoje recebi uma surpresa maravilhosa: audiencia portuguesa no "Nile Maxim"!

O costureiro portugues "Augustus" e a sua familia, amigos e outros grupos da nossa gente que ali cairam de para-quedas. Como o mundo pode ser tao pequeno... :)


Apesar do programa de Ramadao ser limitado pela estacao religiosa, foi um prazer actuar para os meus queridos conterraneos e pude, por momentos, sentir-me em Portugal.

De facto, sera sempre a alma e o sentimento que define o local onde estamos e como nos sentimos em casa ou simplesmente deslocados.



Idiossincracias desta epoca religiosa:

Varios desafios a vista nesta estacao diaria de espectaculos em pleno Ramadao!

O meu "chauffeur" (que chique!) recusa-se a levar-me ao trabalho durante o Ramadao porque coincide com a hora em que ele quebra o jejum e o dinheiro consideravel que ganha comigo nao sera competicao para o ritual de "encher o bandulho a grande e a francesa" depois de um dia de jejum. Que se lixe o dinheiro e o ganha-pao...



Continuo sem entender os egipcios.


O canalizador que veio ca a casa ver o que precisa de ser arranjado na casa de banho (poupo-vos os detalhes escatologicos do episodio) recusou-se a vir fazer o trabalhito de manha porque, e passo a citar "Costumo dormir ate tarde...(expressao super relaxada a acompanhar o proferido)"

"Entao a que horas quer vir fazer o trabalho? - Pergunto eu como se estivesse a convidar um amigo para um lanche ca em casa.

"Ah, nao sei...quando acordar. Como comemos durante a noite e depois rezo antes de me ir deitar, nunca sei a que horas me consigo levantar! " - Diz-me ele com um desplante tao grande que eu tenho de agarrar a minha boca para ela nao cair.


Por momentos, fiquei em silencio. Perplexa. Tenho na minha frente um senhor nitidamente pobre e com uma larga familia para sustentar. Existem despesas extra proprias desta estacao(comida, doces, presentes e roupas para os mais novos, "iftar" /pequeno-almoco ou quebra jejum para o qual convidar familia e amigos, etc) e dificuldades economicas constantes mas, apesar de tudo isto, este senhor preferiu marcar o trabalho de acordo com a hora em que lhe apeteca acordar, correndo o grave risco de ser mandado la para o outro lado por uma Joana - "moi" - extremamente indignada.


Continuo sem entender os egipcios...


Para espairecer, aqui estao as primeiras imagens desta nova estacao de shows..."in motion"...
Apesar das limitacoes ou talvez por causa delas, estou entusiasmadissima com esta estacao. Se a minha progenitora aqui estivesse a ouvir - ou a ler - dir-me-ia, no seu tom de sabedoria popular "Porra...ha pessoal realmente masoquista..."

Ah, as delicias da sabedoria de uma maezinha...nada que se lhe compare (beijos a minha querida Dedinhas de quem morro de saudades...ja falta pouco para estar ai!)


Saturday, August 15, 2009

Cairo, dia 13 de Agosto, 2009

“Grandes espectáculos e o público que vem em massa assistir às minhas loucuras...”


Sinto-me grata e orgulhosa de mim mesma. Permaneço dentro do silêncio impotente quando penso no que tem acontecido nestes últimos tempos. Vitórias e reconhecimento depois de tantas batalhas e dificuldades constantes. Eu sabia que isto aconteceria. Mais ninguém o sabia.
Mas... eu sabia! Tenho fé em mim para dar e vender (mas não sem dúvidas e lágrimas) e sempre soube que tanta montanha escalada na mais absoluta solidão dariam frutos. Ei-los aqui...

A luta continua mas flui mais facilmente. Uma monstruosa montanha foi escalada com sucesso e os visitantes desta aldeia global têm vindo visitar o eremita ( “moi”), comprovando aquilo que corre nas bocas do Cairo:
Eu até sei dançar! A miúda percebe daquilo, porra!:)JJJJ

Não descansando sobre elogios e louros ganhos, sei que o que ainda não foi feito é aquilo em que tenho de concentrar-me. O meu espírito de luta e criatividade estão no ponto mais alto que alguma vez pude sentir.

Mal durmo, mal como, mal respiro. Quero criar, surpreender mais e mais...crescer...crescer...abrir as asas e voar porque foi para isso que deixei tudo no meu país e me lancei ao desconhecido como só os loucos e os aventureiros de alma se propõem fazer.

Tuesday, July 28, 2009


Cairo, dia 27 de Julho, 2009
"Crescendo em palco...a verdadeira maratona!"


Uau! Que maratona...deveria ter actuado quatro noites e descansado duas para retomar mais um bloco de quatro noites de espectaculos mas, por qualquer razao que desconheco e agradeco aos ceus, acabamos por actuar (sem descanso) 15 dias seguidos.



Nao me queixo, estou para la de Bagdad de feliz e, no entanto, chegar a casa as 2.30h da manha, dar aulas na manha seguinte ate as duas da tarde e seguir para mais uma noite de shows sera, logicamente, maravilhoso mas extenuante.
A minha assistente - Nagle, um autentico personagem retirado dos romances do Nobel Naguib Mahfouz - tem sido a minha salvacao. Nao so me ajuda durante os shows mas traz-me comida egipcia e pipocas (?!), cha, roupas frescas que nao lhe servem e que ela pensa que ficarao a matar em mim e outros miminhos que me ajudam a nao cair para o lado.
Quando me encontro neste ritmo de rotina de shows, a vida resume-se apenas a isso mesmo: ROTINA DE SHOWS. Nao ha tempo nem para ir comprar comida e encher o frigorifico que se encontra num estado lastimoso de penuria...



O programa tem de ser mudado todos os dias. O melhor professor do mundo jamais me poderia ensinar tudo o que eu estou aprender com esta vida que aqui vivo.Jamais...

As manicures e pedicures sao mantidas diariamente, bem como "coisas de mulher" (depilacao, depilacao, depilacao, a cruz do mulherio...) e um tempo minimo de sono que eu nao tenho cumprido.
Tudo o que se conversa ronda...adivinharam! OS SHOWS. Passo os dias rodeada pela minha assistente, musicos, tecnicos e designers que me fazem os trajes e me cobram os olhos da cara por eles, entregando-me trajes mal acabados (cujos "soutiens" convenientemente se abrem e se desmembram em palco logo na primeira vez que os visto!Um primor!).



Reunioes com os musicos antes de cada show. Ensaio, correccoes, novas musicas sendo preparadas de um dia para o outro. A maquina nao pode parar.


Lado bom da exaustao:
Estou tao cansada que nem me posso dar ao luxo de estar tensa ou nervosa. Nao tenho energia para tal. Em palco, devido a essa mesma abencoada exaustao, estou extremamente relaxada e, porque a mente nao esta activada a 100% e o corpo responde a alma, nao ao raciocinio. Muitas das melhores noites de espectaculos chegaram quando eu estava exausta!
Nao perder tempo com assuntos ou pessoas que nao merecem a minha atencao:
Outro lado positivo da exaustao e da concentracao num objectivo maior (fazer sempre melhor e melhor). Fantastico! Quando a nossa cabeca esta centrada em objectivos que nos sao valiosos, nao existe espaco para pensamentos destrutivos, pessoas ou assuntos que nao nos dignificam.

Fico-me pelo ESSENCIAL e vou repelindo cada elemento superfluo com uma naturalidade que ronda a frieza (fico surpreendida comigo mesma).
Nova orquestra (ainda instavel mas, pouco a pouco, definindo-se) e a ousadia que so o sucesso e o reconhecimento nos oferecem para tentar coisas novas e lancar-me em terrenos estranhos ate entao. A todo o vapor...
Aqui vai mais um tabla solo com o meu novo percussionista. Esta foi a primeira vez que actuamos juntos. Nada de ensaios ou conversas previas. De estranhos, passamos a companheiros de palco. Aqui esta o resultado da nossa primeira improvisacao (ele nao sabe o que eu vou fazer e eu nem sonho o que ele me dara na "tabla" mas o resultado nao esta mau, para primeira vez!:):

Cliquem no link:

Friday, July 17, 2009















Cairo, dia 15 de Julho, 2009

“ GRANDES espectáculos, Om Kolthoum e stress...”

*** A minha cabeça anda à roda com tantos anseios, ideias e projectos que, de repente, se podem realizar. Ainda não caí em mim e senti, na verdade, a benção que me foi oferecida (com um preço a pagar, como tudo o que nos é “dado” no Egipto!). Nada me foi dado de mão beijada. Cada espectáculo que apresento é ganho à custa de muito talento, cabeça e trabalho árduo. Será que os meus neurónios resistem a tanto esforço constante?!

*** A transição que fiz para o “Nile Maxim” é um passo que já ansiava há imenso tempo mas que, devido à realidade que me rodeia e aos “timings” divinos que tudo regem, ainda não podia realizar até que proclamei a mim mesma e perante o Universo: é agora ou nunca.

*** Conseguir actuar neste local – competindo directamente com duas das bailarinas mais experientes e conceituadas do Egipto, Randa Kamel e Asmahan – sem me prostituir ou ceder um milímetro que fosse do meu orgulho e dignidade é, em si, uma benção. Conheço o mercado em que trabalho. Sei como foi que cada uma das bailarinas começou a actuar e através de que cama o conseguiu. Sei demasiado para ser inocente e mais do que preferia saber.
A ignorância pode ser umaa benção, outro género de benção pela qual anseio frequentemente.

*** O convite chegou-me depois de quase quatro anos de trabalho incessante e sem qualquer tipo de auxílio, publicidade, ajuda. Estive imersa no meu mundo de arte e amor numa cave onde, pouco a pouco, músicos e audiências (especialmente, a egípcia) me foram descobrindo. Graças a Deus!
Como o tempo passa a correr, meu Deus! E como os quase quatro anos se dissolvem em nada quando penso em tudo o que vivi e evoluí.

*** Não entrando pela porta dourada da cama, há que trabalhar o triplo de quem lá está por essa via. Disso eu já sabia. Assim passo os meus dias, entre a burocracia interminável do meu novo contrato e visto de trabalho, novos trajes, programação, coreografias e roupas de bailarinos, cantorias (sim, eu canto em árabe!) and quebra-cabeças diário que escolho para mim mesma na busca de novas/velhas músicas que me apaixonem para dançar.

A sede da criação devora-me e eu sinto-me uma máquina de criar trabalhando incessantemente, com a noção clara de que cada noite, cada espectáculo é único, um privilégio que não devo tomar por garantido. O meu sucesso ganha-se com trabalho sem tréguas. Nenhuma mão de auxílio no horizonte, nunca lá esteve!
Apenas escuto vozes derrotistas de músicos que se queixam que a arte acabou no Egipto ou de gerentes perdidos clamando aos céus porque o público não frequenta os locais de espectáculos. Uma choraminguice geral que a nada leva!

“Sim, mas não vale a pena choramingar. Há que seguir em frente e fazer o melhor das circunstâncias em que vivemos. Chorar e lamentar nunca resolveu nada.
Se a realidade não é o que desejávamos que fosse, porque não colocar mãos à obra e arranjar soluções para trazer de volta o público às casas de espectáculo?!
A mudança está nas nossas mãos...” Digo eu aos meus músicos quando nos reunimos antes de cada espectáculo. Eles respiram fundo, exaustos, e olham para mim como se fosse Saad Zaghloul, o pai da Independência do Egipto (bye, bye, ingleses!).

*** Os espectáculos desta noite foram simplesmente FANTÁSTICOS. Parece que todo o senhor ou madame que se pode apelidade de VIP estava lá para me ver.
A pressão era muita e tudo tinha de estar perfeito. Verifico a roupa dos músicos, o som, o programa, os bailarinos e os adereços. Os meus trajes e toda a parafernália que a eles está associada estão organizados por ordem em cadeiras que me esperarão para mudanças de roupa rapidíssimas no decorrer do espectáculo.

*** Dispenso a minha assistente. Dou-lhe a câmara de filmar e digo-lhe que se divirta assistindo ao espectáculo. Ela está lá, supostamente, para me ajudar a trocar de roupa e tornar estas corridas contra o tempo o mais fáceis e velozes possível mas, na realidade, assim que me dispo ela fica especada a olhar para mim e faz nada do que eu necessito que ela faça para me ajudar a preparar-me para o palco.

*** Deleite (o espectáculo):

Faço a minha entrada com bailarinos e depois a só. A estrutura que montei está a solidificar-se e eu já perdi o medo de me esquecer dos passos nas sequências de dança com os rapazes.
Assim que entro, e depois de ter sido avisada milhares de vezes relativamente à mesa dos VIP que vieram verificar a qualidade do “bife português” , escuto o meu nome em gritos carinhosos de uma audiência que desconheço mas que, de qualquer forma, me conhece a mim e não se inibe em manifestar o seu apreço.
Isto é o que os egípcios têm de melhor: participam activamente nos espectáculos, reagindo activamente à bailarina. Por vezes, vê-se inveja e cobiça na face das egípcias que não engolem o facto de eu ser estrangeira. Outras vezes, vê-se a reticência monstruosa na cara de homens e mulheres que, momentos mais tarde, estão rendidos à arte. Sem fronteiros nem nacionalidades. Seja como for, o público egípcio mostra sempre o que sente e pensa e isso é um desafio que adoro enfrentar. Ser apreciada. Aceite numa profissão onde sou vista como uma intrusa. Que desafio...


*** A noite está a ser maravilhosa. Um espectáculo de uma hora de puro entretenimento já lá vai e agora o segundo da noite com os tais VIPs esperando o melhor (ou o pior?!) de mim.
Desço as escadas íngremes que me levam ao camarim para concluir a última mudança de traje. Os bailarinos e a orquestra fazem tempo no palco até que eu chego e os gerentes já haviam comentado que o palco sem mim torna-se demasiado vazio e o público queixa-se. Que fazer?! Poderei eu mudar de roupa em cena??? (lá poder, poder, até posso...seria um “outro” espectáculo um pouco fora da minha “onda”!).

Visto uma série de peças de roupa, troca de sapatos, top, “gallabeya” baladi, gallabeya e boné saiidi, retoca a maquilhagem e o cabelo, seca o suor que me escorre fluentemente pelas costas e pelas pernas abaixo...estou quase, quase pronta quando o fecho do meu top decide abrir-se e eu verifico que a presilha que une as alças se soltou. “Oh, meu Deus....agora não! Este é o pior momento para remendos, linhas e agulhas... e os meus bailarinos fazendo tempo lá em cima onde tudo acontece sem ideia de que eu estou a desesperar procurando a minha caixinha de agulhas e linhas, o kit de urgência para estas ocasiões. “

*** Peço a Deus que me ajude, sei que estou a demorar-me no camarim muito para além do aceitável e os gerentes já devem estar a bufar por todos os lados...nada a fazer senão esquecer a ajuda de Deus – que parece estar a gozar com o meu desespero – respirar fundo e fazer o que há a fazer, evitando pensar no que se passa no palco até que eu lá chegue.

*** Corro para os meus bailarinos, tento compensar o terrível atraso atraso com entusiasmo e inspiração extra enquanto danço. O público sente-o e parece esquecer que estive no camarim o tempo suficiente para assar um frango do campo (mais duro e tenro do que os de aviário e, por isso, mais lento de cozinhar).

*** A noite termina em delírio total. Estou esgotada. Estes espectáculos/desafio dão-me uma energia sobre-humana mas também ma roubam como se eu fosse um balão em pleno voo ao qual é retirado todo o ar apenas num segundo.
A ovação é total e o grupo VIP – bem como todo o público! – está rendido. Eu prosto-me agradecendo à audiência, aos meus músicos e bailarinos, a Deus. Sorrio e respiro fundo olhando à minha volta e tentanto sentir os pés no chão.
Sim, é verdade. Estou AQUI. O sonho de tantas bailarinas de todo o mundo. O meu sonho ou parte dele.
Olho para os meus bailarinos e para o candelabro que me cobre a cabeça como uma benção ou um baptismo de luz. Custa-me a acreditar que cheguei até aqui e sei, no entanto, que este talento, perseverança e força que me têm feito crescer são mimos – ou castigos - de Deus pelos quais devo estar sempre grata.

*** Regresso ao camarim, olho-me ao espelho e repito, uma vez mais e já em árabe pela força do hábito, “Graças a Deus” (“Il hamdulilah”). Uma vez mais, as musas da inspiranção estiveram comigo (podem não estar!), o público recebeu-me de braços abertos e todos os intervenientes no espectáculo tiveram saúde e energia para dar o seu melhor. Il hamdullilah!

*** A minha assistente recolhe e arruma roupas, acessórios, os meus novos “toura” (espécie de “sagats” grandes usados pelos sufis) , maquilhagem e tanta traquitana que compõe o pré-espectáculo e eu estou inerte, sentada na cadeira que descansa em frente a um espelho quebrado, respirando fundo, tentanto tomar consciência de tudo o que me está a acontecer.
Penso para mim mesma: “Se mais oportunidades me forem dadas, farei melhor e melhor. Soltaram o leão da jaula e não há forma de o parar...graças a Deus, uma e outra vez, sem parar...”
Para verem um clip, parte do show, cliquem neste link:

*** A caminho de casa:

O taxista que nos leva até casa – assustado com os bastões, chapéus e malas com roupas minhas e dos bailarinos – fala consigo mesma, totalmente distante e indiferente à minha expressão de surpresa que parece dizer:
“O que é que lhe deu!? Com quem está ele a falar?!”

Abrimos as janelas e deixamos entrar esse ar inimitável do Verão no Cairo. Brisa fresca e arrogante desalinhando o que resta do meu penteado e da minha maquilhagem já esborratada depois de tanto trabalho.
De repente, e enquanto eu fecho os olhos e simplesmente respiro, ouve-se a voz de Om Kolthoum e o taxista abandona o seu amigo imaginário para se juntar à diva que canta algumas das minhas canções favoritas numa cassete com aquilo a que os egípcios gostam de chamar “cocktail” musical (partes seleccionadas de várias músicas unidas entre si).

Eu começo a cantar com o taxista, é inevitável. O taxista não parece notar que eu me juntei ao duo que ele criou a partir do seu mundo interno de sonhos e um coração que, a meio da loucura da luta diária, ele tende a esquecer.

Quando chegamos a casa e depois de lhe ter pago e retirado toda a minha traquitana do táxi, ele estende a sua mão calejada na minha direção e oferece-me a cassete da Om Kolthoum, a mesma que liderara o nosso concerto improvisado.
Apanhada de surpresa, eu recuso e agradeço a simpatia.
“Desculpe mas não posso aceitar. Essa cassete é sua. Eu posso apontar o nome da cassete e comprá-la amanhã. Não se preocupe.” Digo eu firmemente.
“Não. Aceite a cassete. Alguém que adora Om Kolthoum como você e a canta dessa forma, merece este presente!” – Retorquiu ele, sem hesitar e totalmente seguro de que aquela cassete me pertencia.
“Il akhla hedeya, walah!” (“ O melhor presente de todos, por Deus!”) - Respondi eu com uma alegria que só me lembro de sentir na noite de Natal quando eu e a minha irmã éramos pequenas e ainda acreditávamos que o Pai Natal existe (apesar de sabermos que o meu pai se vestia de vermelho e colava algodão às barbas sem razão aparente...).

*** A noite não podia ter terminado da melhor forma. Cheguei a casa e abri as portas das minhas varandas para deixar entrar o ar da noite. Uma corrente de ar envolveu a casa e trouxe-me melodias e ritmos vindos da rua. Talvez um par de casamentos no bairro. Consegui destrinçar um solo de tabla famoso nos casamentos, o também célebre “shik shak shok” e o saxofone de Semir Serour tocando a sua versão instrumental da minha querida Om Kolthoum.

*** Já sem maquilhagem e totalmente ausente de energia, paro na escuridão do meu quarto em frente à varanda obscura e começo a dançar para mim mesma ao som das músicas variadas que me chegam da rua. Olho para a lua, relembro os espectáculos da noite, o gesto generoso do taxista que me ofereceu a cassete do meu encanto, estas músicas coloridas de emoções que me chegam da rua às 2.00h da manhã e eu ali...dançando de olhos fechados de mão dada com a brisa desta noite que não podia ter sido mais perfeita.

*** Longe de tudo o que ainda me falta e sem pensar no que já ri e chorei, agradeci, agradeci e agradeci ao ponto de tornar a simples palavra “Obrigada” numa prece. Talvez a única que faz sentido.

Saturday, June 27, 2009


Cairo, dia 6 de Junho, 2009

“Grande espectáculo no Nile Maxim – o começo de uma nova Era...”


Uma nova Era tem início...na minha Vida.
A noite passada tive um dos meus sonhos premonitórios que me anuncia mais invejas e males de olhado fortíssimos...nunca se cresce, evolui e goza de sucesso sem termos de andar de mão dada com a inveja e a cobiça. Este é o preço mínimo a pagar pelas nossas conquistas. O sonho relembrou-me dessa fria verdade que tanto me tem custado aceitar.
A VIDA pode ensinar-nos muitas coisas. Experiências das quais se retiram conclusões, erros repetidos com os mesmos resultados, ciclos que se completam e fecham diante dos nossos olhos incrédulos face ao rápido passar do tempo. É lugar comum afirmar que todos envelhecemos, mas nem todos crescemos. Há muito boa gente a quem crescem cabelos brancos mas nunca o juízo. O tempo passa pela gente comum como um vento suave que não nos toca directamente nem altera quem somos, a nossa estrutura molecular, o estado da nossa (in)consciência.
Ter vindo sozinha viver e batalhar pelos meus sonhos foi a decisão mais difícil da minha vida – até agora – mas também aquela da que mais me orgulho e a qual não trocaria por nenhum sucesso garantido nem conforto que o meu país Natal me pudesse oferecer. Senti que Portugal era demasiado pequeno – geografica e artisticamente – para tudo o que quero realizar e tinha razão. Cada vez que visito o meu país e vejoo estado em que se encontram as Artes, em geral, e a Dança Oriental – em particular – fico triste por quem lá trabalha e feliz por ter escapado à vulgarização e comercialização barata da arte que eu aprendi a amar e pela qual já tanto sofri e sorri.
Das muitas coisas que aprendi, por experiência própria, foi ter a certeza de que na vida não existem certezas (será isto uma contradição?!) e que a vida dá muitas, muitas, muitas e inesperadas voltas.
Depois de tres anos de trabalho no Cairo, incessantemente provando o meu valor próprio e gerindo sozinha orquestras, burocracia, contactos com homens da pior estirpe e espectáculos diários, vejo-me apresentando o meu primeiro espectáculo no famoso cruzeiro “Nile Maxim”, em Zamalek.
A história que me trouxe até aqui é demasiado rebuscada para relatar neste diário. Tão incrível e absurda que nem eu mesma pareço acreditar na realidade que vivi. Ver um porco a andar de bicicleta já não me surpreenderia e digo isto sem gozo nem ironia. A mais pura verdade: já nada, absolutamente nada me impressiona ou choca.
Em tres anos de espectáculos, aprendizagem do dialecto egípcio, luta diária e incessante e muitas desilusões pelo caminho, ganhei também uma preciosa capacidade de contornar obstáculos e de não me deixar tocar demasiado pelo sofrimento e pelos episódios clássicos de gente em quem confiava e que me apunhala pelas costas com o sangue frio de uma barata. Espero o melhor e o pior de todos os que rodeiam e quando os choques embatem e seria óbvio ver-me de rastos, eu reergo-me da queda sem deixar que os meus braços cheguem ao chão. Respiro fundo, perdoo no momento imediato e sigo em frente sem verter uma lágrima. Desenvolvi esta carapaça em tais proporções que já duvido se é possível voltar a sentir o gosto de uma lágrima. Será bom sinal já não conseguir chorar face às maiores tristezas e desilusões!? Hmmmm.....
“Quem diria?! Eu, actuando com a minha nova orquestra e bailarinos no famoso “Nile Maxim” e sem passar pela cama de nenhum gerente ou senhor do poder...uau!Os milagres acontecem, de facto!”
As duas bailarinas com que eu partilho o local são duas referências da cena internacional do Cairo e duas bailarinas que eu respeito por razões distintas: Randa Kamel (egípcia) e Asmahan (argentina).
Nunca penso em termos de competição mas, se o fizesse, estaria a competir com os pesos mais pesados da melhor categoria de bailarinas no Egipto ( ambas com cerca de 15 anos de avanço em relação a mim em termos de presença e experiência no mercado) e isso não me deixa ansiosa ou com receio...deixa-me excitada e com vontade de provar, mais uma vez, quem sou e como amo esta arte que me escolheu. O desafio é irresistível e não me amedronta.
Entro no cruzeiro com a minha assistente egípcia– maquilhada de forma tão exagerada que se parece com uma “drag queen” mas feliz e deslumbrada por estar ali ao redor de tantos artistas e num local de prestígio – e uma colecção de malas impressionante. Os meus trajes, adereços, maquilhagem e chá, os trajes do meus bailarinos (sim, agora tenho bailarinos egípcios no meu espectáculo!) e respectivos adereços...uff!
Entro na sala onde, tantas vezes, vim assistir aos espectáculos da Randa Kamel e da Asmahan e, de forma estranhamente familiar, sinto que este local me pertence. Piso o palco, faço um teste de som e ensaio com os meus bailarinos (sabe bem dizer “os meus bailarinos”...:) J as duas coreografias que iremos apresentar juntos daí a uma hora numa sala expectante cheia de clientes, gerentes e donos do local.
“Depois de tantas voltas, como vim aqui parar?!”
Dou uma vista de olhos, pela primeira vez, no camarim do “Nile Maxim” que é, como imaginei, no porão do barco. Não sou fã de porões e rés-do-chão. Gosto de altitutes, sou adepta do “lá em cima” em oposição ao “lá de baixo” mas isso, perante os nervos do primeiro espectáculo neste local, não me aflige por aí além.
Depois do ensaio com os bailarinos, desço até ao meu camarim e tento convencer a minha assistente a desfazer as malas e a começar a preparar o trabalho que se segue. Ela está boquiaberta, observando tudo e todos e deslumbrada com a minha maquilhagem, as minhas conversas com os músicos que vêm, um a um, cumprimentar-me ao camarim, os ensaios e acertos de última hora com os bailarinos...ela pensa em tudo, menos no que há a fazer...

O que há a fazer?
*** Desfazer malas e colocar os quatro trajes do espectáculo em cadeiras separadas com os respectivos adereços e sapatos para que as mudanças de roupa possam ser rápidas e não vá para palco dançando Saiidi com as sandálias que usei no estilo de Alexandria...
*** Maquilhagem e secador de cabelo preparados. A minha água e o meu chá ali à mão e toalha para me enxugar de cada vez que vier trocar de roupa.
*** Últimos recados e acertos com a orquestra e bailarinos. Peço aos bailarinos um último ensaio improvisado em frente às casas de banho. Para uma insegura e perfeccionista como eu, os ensaios nunca são demais. Diz-se que o Fred Astaire era obcecado por ensaios. Era capaz de repetir a mesma peça de dança umas quinhentas vezes...embora não seja o Fred Astaire nem encontre grandes semelhanças entre nós, compreendo esta obsessão.
*** Deixar programa do espectáculo escrito em inglês – para mim – e em árabe – para músicos e bailarinos – nos respectivos camarins para que a coordenação de entradas e saídas bata certo e todas as músicas sejam interpretadas no local certo. Embora o resultado do espectáculo pareça fluido e simples para o público que nos vê, existe um cuidado e uma estrutura sem os quais o alinhamento do show vai por água abaixo. Existem tantas linhas condutoras e trabalho invisível aos olhos do público...

Qual o trabalho que esteve por trás do espectáculo?
*** Esta é complicada de se responder. Começo por referir toda a experiência acumulada que tenho acumulado e que me fez chegar até aqui e ter na minha mão e sob a minha coordenação um grupo de 13 músicos de alto gabarito e tres bailarinos profissionais que actuarão a solo e comigo.
*** O facto de ter querido introduzir bailarinos no meu espectáculo dançando comigo e não apenas como introdução à minha entrada ou preenchendo espaços vazios durante os quais eu trocaria de roupa também foi uma carga de trabalho acrescida da qual não me arrependo.
*** Novas coreografias com os bailarinos, ensaios, trajes para mim e para eles nas nossas actuações conjuntas e escolha de repertório novo.
*** Ensaio com a orquestra na qual incluí alguns novos elementos.


Como foi trazer bailarinos egípcios para o meu espectáculo?


*** Prefiro trabalhar com bailarinos – rapazes – do que com bailarinas egípcias.
Já tive a oportunidade de actuar com ambos e, sempre que existe um grupo de bailarinas egípcias, acabei por assistir a discussões sem sentido, lutas de egos e vaidade a meio de ensaios – coisa que eu jamais permitiria, caso o grupo me pertencesse – e batatada de meia noite porque a fulana fez um comentário sarcástico em relação às mamocas da colega ou a sicrana se “fez ao bife” ao namorado da outra a quem as outras colegas chamam pega! Demasiado para mim...o meu cérebro não processa tanta futilidade e perda de tempo concentrada num só contexto e ocasião!
Elas são, por norma, mais preguiçosas, volúveis e problemáticas do que os rapazes. A minha forma de trabalhar é bastante descontraída mas exigente e seca. Mãos à obra e jamais perder tempo com elementos e assuntos que não estejam ligados à tarefa que temos em mãos. Por essa razão, eu prefiro trabalhar com homens na grande maioria das vezes...por mais que isso me custe admitir. A minha forma de trabalhar é muito similar àquela que a maioria dos homens adopta e entendemo-nos na perfeição. Gosto de profissionais, pessoas competentes e com ética de trabalho e, acima de tudo, concentrados no trabalho que se lhes apresenta e produtivos.

*** Outro aspecto positivo acerca dos bailarinos egípcios é a rapidez com que trabalham, memorizam, processam a informação e executam o que lhes é pedido. “I´m in heaven...”J
Ensaiámos no estúdio do meu querido amigo e professor Mahmoud Reda e coreografámos duas músicas – uma dança moderna com hip hop e jazz e outra Saiidi – numa tarde. Poucas palavras, nada de mexericos e risadinhas tão característicos dos meios femininos e uma concentração absoluta no trabalho. Assim dá gozo trabalhar.

Qual o maior gozo deste novo trabalho?

*** Começando pelo local em si que é um novo desafio para mim, o “Nile Maxim” e pelo facto de estar a actuar paralelamente a duas bailarinas conceituadas no mercado egípcio e internacional. Isso é uma honra para mim.

*** Trabalhar com coreografia – eu improviso a totalidade dos meus espectáculos, sempre... – e bailarinos profissionais com quem me posso ampliar como artista e explorar novas ideias.
Apresentar uma música de dança moderna, hip hop e jazz, tão longe da Dança Oriental que as pessoas esperam ver-me apresentar...uma bela surpresa para quem não sabe que eu danço muitos outros estilos, para além do Oriental.

*** Ter uma orquestra melhor do que a habitual com quem também posso experimentar elementos e músicas novas que não fazem parte do meu repertório usual.

*** Contando com a participação dos bailarinos, poder criar “tableaus” de dança e canto inéditos nos quais tenho a colaboração deste rapazes tão talentosos. É maravilhoso trabalhar com um grupo onde toda a gente é criativa e produtiva. Tudo o que faço e tenho dentro de mim como pessoa e artista se amplia e novas janelas se abrem devido à presença deste novo contingente humano.

*** Acima de tudo, o gozo de enfrentar num novo desafio, audiências e um nível de exposição bastante maior. Sim, existem os nervos à flor da pele, a insegurança e os medos de não estar sempre “à altura”, as dúvidas quanto ao que o futuro trará mas nada disso se equipara à excitação de uma nova aventura que nos lança, claramente, em voos que merecemos viver e para os quais tanto trabalhámos.

*** O que é preciso ver?

É muito comum ver-se alguém bem sucedido e invejar-se o lado solar – como eu lhe chamo – desse sucesso e das suas vitórias. As pessoas adoram, odeiam e cobiçam o sucesso alheio e apegam-se apenas às imagens de sonhos realizados, “glamour” e vitórias mas ninguém está interessado ou tenta invejar todo o trabalho, sacrifícios, perseverança e sofrimento que foram necessários para se chegar até ao cume de uma das muitas montanhas deste mundo em crescimento contínuo.
O lado lunar – secreto, na maior parte das vezes – do sucesso não interessa ao público, apenas o brilho encandescente do sucesso.


Sei, por experiência própria, que tudo tem um preço. Sei o preço que tenho pago pelo meu sucesso e não me arrependo de nada porque jamais vendi a alma ao diabo e me orgulho de cada lágrima e cada sorriso. Apelo apenas a que todos os que cobiçam o sucesso alheio tentem ver o trabalho árduo que está por trás de todo esse esplendor e, finalmente, reconheçam os seus próprios sonhos e lutem por eles sabendo que o preço a pagar pode testar as suas forças, crenças e capacidades humanas até ao limite.
Boa sorte a todos os que têm a coragem de se erguer do seu confortável estado de inércia e arregaçam as mangas face às conquistas que escolheram para si.

“De regresso ao trabalho! Casamento de arromba...”

Cairo, dia 11 de Maio, 2009

“De regresso ao trabalho! Casamento de arromba...”

O regresso ao trabalho não podia ser melhor, apesar do braço de ferro que tenho travado com a gerência do local que tem o meu contrato de trabalho na mão.
Depois de me ter negado a actuar – resultado da ausência de pagamento pelo meu trabalho e uma nítida falta de respeito pelos responsáveis do local que não souberam valorizar aquilo que eu tenho provado valer, na prática, durante mais de dois anos de trabalho quase diário – vi-me numa medição de forças com homens no poder que nada sabem sobre gerência, boa educação e respeito. Este fenómeno é bastante comum no Egipto e resultado, sem dúvida nenhuma, das fortunas que se fazem através da corrupção e dos postos de poder que se conseguem através de artimanhas, traições, prostituíções de todo o tipo – aplicadas a mulheres e a homens – e aquela capacidade essencial num país como o Egipto a que se chama, em bom português popular, “ser-se chico esperto”. A inteligência e o mérito de muito pouco servem num país como este. Em vez disso, convém ter “olho e mão ligeiros”, saber quem bajular, a que portas bater e a quem se submeter de forma a conseguir favores – que têm, invariavelmente, um preço alto a pagar – que reverterão a nosso favor na forma de oportunidades profissionais e títulos.
Desde que me recusei a trabalhar sem o meu pagamento em dia e sem um pedido de desculpas formal da parte da gerência, vi o meu calendário de espectáculos reduzido a uma quinta parte do que é e distribuído por bailarinas que não são exigidas nem apreciadas pelo público como eu. Fui informada que este era um castigo a ser aplicado por insubornidação, visto que me foi implorado que actuasse nessa fatídica noite em que decidi que seria a última vez que era desrespeitada no meu trabalho.
Consigo escutar as vozes indignadas dos gerentes sussurrando entre eles: “Quem é que ela pensa que é?! Uma bailarina!!! Uma bailarina fazendo-nos frente...temos de a colocar no sítio!”
A verdade é que acabo por ser eu a colocá-los a eles no sítio deles, o mesmo sítio onde habitam os ignorantes e pobres de espírito.
Quando o chefe da minha orquestra e outros gerentes questionaram a razão pela injustiça aplicada ao meu calendário de espectáculos, foram informados que eu tinha sido rebelde e me tinha queixado que o meu pagamento não era feito há mais de 15 dias! Os pagamentos de toda a gente estão sempre atrasados e ela é a única que se queixa...com que direito?!!!” Foi esta a resposta que o descendente de Einstein deu aos pedidos de explicação daqueles que sabem que não sou apenas a bailarina mais apreciada daquele local mas também a mais cumpridora, bem educada e responsável em todos os aspectos do meu trabalho.
Como em tudo na vida...vejo neste braço de ferro ridículo uma oportunidade valiosa de mudança...e aqui vou eu que ninguém me pára!:)

*** Casamentos egípcios!


· O mercado dos casamentos é um dos mais férteis do Egipto e uma fonte considerável de rendimento e fama para os artistas que nele conseguem entrar. Os lobbys para entrar no fechado círculo dos casamentos egípcios são tão fortes como os que conheço nos “night-clubs” e hotéis mas, pouco a pouco e sem contactos que me abram portas, vejo-me a entrar nesse mundo paralelo onde os espectáculos ajudam a criar a memória de um dos dias mais importantes na vida de um ser humano. No caso dos egípcios, o dia mais importante das suas vidas, logo a seguir ao nascimento dos seus filhos.

· Normalmente, a entrada neste mercado é feita pelo lado da cama – o tradicional! – ou pagando consideráveis subornos às pessoas certas para que comecem a propor o nosso trabalho aos casais que recorrem a empresários e agências. Pondo de parte o caminho da cama, a questão é: a quem pagar?! Como? Quanto?

· Tal como sucede em várias outras áreas da vida no Médio Oriente, existem sistemas e verdades vigentes das quais jamais se fala como se de um comum acordo se tratasse sem necessidade de ser mencionado ou reconhecido como real. Ninguém me disse como funcionava o sistema de subornos para fazer avançar tudo e mais alguma coisa (e eu não fiz outra coisa senão questionar sobre o assunto) e, no entanto, eu aprendi à minha custa que é assim que tudo começa e avança sendo necessário um certo talento para ir ter às pessoas certas e gerir esse sistema silencioso em que todas as peças do “puzzle” se encaixam sem alarido nem complacência pelos valores e honestidade alheios. Tal como aprendi a falar o dialecto egípcio sem intermedários, também aprendo – mal e porcamente, devo reconhecer – como se tecem as malhas do submundo da dança no Cairo. Este não é o meu mundo e, no entanto, sou obrigada a nele veicular para poder dar passos valiosos na minha carreira. Como sempre, a história da flor de lótus reluzente no meio do pântano mais sujo...assim eu me sinto, lutando para me manter limpa e à luz do dia estando rodeada de pântanos com sapos feios que se fazem passar por príncipes encantados. Como andar pela lama sem me sujar, é essa a questão???

· O meu regresso à rotina de trabalho no Cairo não podia ter começado de melhor forma! Um casamento onde toda a gente parecia estar, verdadeiramente, feliz e onde foi tratada como uma verdadeira estrela!

· Pela experiência que tenho, já me apercebi que o trabalho de casamentos é de uma natureza especial e à parte do que se faz nos hotéis e night-clubs. O mais importante num casamento egípcio é contribuír para uma atmosfera de amor e alegria e dar tudo o que temos para tornar essa noite especial o mais feliz possível. A audiência participa activamente no espectáculo, mais do que já é costume e o objectivo máximo não é produzir arte mas sim levar os presentes a momentos de felicidade e união. O casamento e os noivos são os verdadeiros protagonistas deste tipo de espectáculo e não a bailarina. Entretenimento com sentimento e não tanto um espectáculo completo onde a ARTE engloba todo o tipo de sentimentos e “moods”.

· Ao contrário do que eu previa antes de ter feito o meu primeiro casamento, acabei por adorar este tipo de trabalho porque as pessoas que me contraram costumam ser – até agora – gente bonita, bem disposta e muito bem educada que sabe apreciar e tornar o meu trabalho ainda mais prazeiroso. Embora tenha o reportório condicionado à ocasião, os noivos e convidados costumam ser tão carinhosos e fantásticos comigo que acabam por compensar os limites que tenho em relação à escolha das músicas.

· Além disso, existe o factor da satisfação emocional de sentir o amor dos noivos, ver tanta gente feliz e em plena celebração, o brilho nos olhos dos que se amam e acreditam que tudo é possível e eu no meio desse oceano ainda infinito deixando uma marca numa noite que marcará a vida dos que se casam e me pediram a mim, exclusivamente, para os abençoar com a minha dança. Emocional e gratificante.

· Esta época de trabalho não podia ter começado melhor! VIVA O AMOR!