Cairo, dia 15 de Julho, 2009
“ GRANDES espectáculos, Om Kolthoum e stress...”*** A minha cabeça anda à roda com tantos anseios, ideias e projectos que, de repente, se podem realizar. Ainda não caí em mim e senti, na verdade, a benção que me foi oferecida (com um preço a pagar, como tudo o que nos é “dado” no Egipto!). Nada me foi dado de mão beijada. Cada espectáculo que apresento é ganho à custa de muito talento, cabeça e trabalho árduo. Será que os meus neurónios resistem a tanto esforço constante?!

*** A transição que fiz para o “Nile Maxim” é um passo que já ansiava há imenso tempo mas que, devido à realidade que

me rodeia e aos “timings” divinos que tudo regem, ainda não podia realizar até que proclamei a mim mesma e perante o Universo: é agora ou nunca.
*** Conseguir actuar neste local – competindo directamente com duas das bailarinas mais experientes e conceituadas do Egipto, Randa Kamel e Asmahan – sem me prostituir ou ceder um milímetro que fosse do meu orgulho e dignidade é, em si, uma benção. Conheço o mercado em que trabalho. Sei como foi que cada uma das bailarinas começou a actuar e através de que cama o conseguiu. Sei demasiado para ser inocente e mais do que preferia saber.
A ignorância pode ser umaa benção, outro género de benção pela qual anseio frequentemente.

*** O convite chegou-me depois de quase quatro anos de trabalho incessante e sem qualquer tipo de auxílio, publicidade, ajuda. Estive imersa no meu mundo de arte e amor numa cave onde, pouco a pouco, músicos e audiências (especialmente, a egípcia) me foram descobrindo. Graças a Deus!
Como o tempo passa a correr, meu Deus! E como os quase quatro anos se dissolvem em nada quando penso em tudo o que vivi e evoluí.
*** Não entrando pela porta dourada da cama, há que trabalhar o triplo de quem lá está por essa via. Disso eu já sabia. Assim passo os meus dias, entre a burocracia interminável do meu novo contrato e visto de trabalho, novos trajes, programação, coreografias e roupas de bailarinos, cantorias (sim, eu canto em árabe!) and quebra-cabeças diário que escolho para mim mesma na busca de novas/velhas músicas que me apaixonem para dançar.
A sede da criação devora-me e eu sinto-me uma máquina de criar trabalhando incessantemente, com a noção clara de que cada noite, cada espectáculo é único, um privilégio que não devo tomar por garan

tido. O meu sucesso ganha-se com trabalho sem tréguas. Nenhuma mão de auxílio no horizonte, nunca lá esteve!

Apenas escuto vozes derrotistas de músicos que se queixam que a arte acabou no Egipto ou de gerentes perdidos clamando aos céus porque o público não frequenta os locais de espectáculos. Uma choraminguice geral que a nada leva!
“Sim, mas não vale a pena choramingar. Há que seguir em frente e fazer o melhor das circunstâncias em que vivemos. Chorar e lamentar nunca resolveu nada.
Se a realidade não é o que desejávamos que fosse, porque não colocar mãos à obra e arranjar soluções para trazer de volta o público às casas de espectáculo?!
A mudança está nas nossas mãos...” Digo eu aos meus músicos quando nos reunimos antes de cada espectáculo. Eles respiram fundo, exaustos, e olham para mim como se fosse Saad Zaghloul, o pai da Independência do Egipto (bye, bye, ingleses!).
*** Os espectáculos desta noite foram simplesmente FANTÁSTICOS. Parece que todo o senhor ou madame que se pode apelidade de VIP estava lá para me ver.
A pressão era muita e tudo tinha de estar perfeito. Verifico a roupa dos músicos, o som, o programa, os bailarinos e os adereços. Os meus trajes e toda a parafernália que a eles está associada estão organizados por ordem em cadeiras que me esperarão para mudanças de roupa rapidíssimas no decorrer do espectáculo.

*** Dispenso a minha assistente. Dou-lhe a câmara de filmar e digo-lhe que se divirta assistindo ao espectáculo. Ela está lá, supostamente, para me ajudar a trocar de roupa e tornar estas corridas contra o tempo o mais fáceis e velozes possível mas, na realidade, assim que me dispo ela fica especada a olhar para mim e faz nada do que eu necessito que ela faça para me ajudar a preparar-me para o palco.
*** Deleite (o espectáculo):Faço a minha entrada com bailarinos e depois a só. A estrutura que montei está a solidificar-se e eu já perdi o medo de me esquecer dos passos nas sequências de dança com os rapazes.
Assim que entro, e depois de ter sido avisada milhares de vezes relativamente à mesa dos VIP que vieram verificar a qualidade do “bife português” , escuto o meu nome em gritos carinhosos de uma audiência que desconheço mas que, de qualquer forma, me conhece a mim e não se inibe em manifestar o seu apreço.
Isto é o que os egípcios têm de melhor: participam activamente nos espectáculos, reagindo activamente à bailarina. Por vezes, vê-se inveja e cobiça na face das egípcias que não engolem o facto de eu ser estrangeira. Outras vezes, vê-se a reticência monstruosa na cara de homens e mulheres que, momentos mais tarde, estão rendidos à arte. Sem fronteiros nem nacionalidades. Seja como for, o público egípcio mostra sempre o que sente e pensa e isso é um desafio que adoro enfrentar. Ser apreciada. Aceite numa profissão onde sou vista como uma intrusa. Que desafio...
*** A noite está a ser maravilhosa. Um espectáculo de uma hora de puro entretenimento já lá vai e agora o segundo da noite com os tais VIPs esperando o melhor (ou o pior?!) de mim.
Desço as escadas íngremes que me levam ao camarim para concluir a última mudança de traje. Os bailarinos e a orquestra fazem tempo no palco até que eu chego e os gerentes já haviam comentado que o palco sem mim torna-se demasiado vazio e o público queixa-se. Que fazer?! Poderei eu mudar de roupa em cena??? (lá poder, poder, até posso...seria um “outro” espectáculo um pouco fora da minha “onda”!).
Visto uma série de peças de roupa, troca de sapatos, top, “gallabeya” baladi, gallabeya e boné saiidi, retoca a maquilhagem e o cabelo, seca o suor que me escorre fluentemente pelas costas e pelas pernas abaixo...estou quase, quase pronta quando o fecho do meu top decide abrir-se e eu verifico que a presilha que une as alças se soltou. “Oh, meu Deus....agora não! Este é o pior momento para remendos, linhas e agulhas... e os meus bailarinos fazendo tempo lá em cima onde tudo acontece sem ideia de que eu estou a desesperar procurando a minha caixinha de agulhas e linhas, o kit de urgência para estas ocasiões. “
*** Peço a Deus que me ajude, sei que estou a demorar-me no camarim muito para além do aceitável e os gerentes já devem estar a bufar por todos os lados...nada a fazer senão esquecer a ajuda de Deus – que parece estar a gozar com o meu desespero – respirar fundo e fazer o que há a fazer, evitando pensar no que se passa no palco até que eu lá chegue.
*** Corro para os meus bailarinos, tento compensar o terrível atraso atraso com entusiasmo e inspiração extra enquanto danço. O público sente-o e parece esquecer que estive no camarim o tempo suficiente para assar um frango do campo (mais duro e tenro do que os de aviário e, por isso, mais lento de cozinhar).
*** A noite termina em delírio total. Estou esgotada. Estes espectáculos/desafio dão-me uma energia sobre-humana mas também ma roubam como se eu fosse um balão em pleno voo ao qual é retirado todo o ar apenas num segundo.
A ovação é total e o grupo VIP – bem como todo o público! – está rendido. Eu prosto-me agradecendo à audiência, aos meus músicos e bailarinos, a Deus. Sorrio e respiro fundo olhando à minha volta e tentanto sentir os pés no chão.
Sim, é verdade. Estou AQUI. O sonho de tantas bailarinas de todo o mundo. O meu sonho ou parte dele.
Olho para os meus bailarinos e para o candelabro que me cobre a cabeça como uma benção ou um baptismo de luz. Custa-me a acreditar que cheguei até aqui e sei, no entanto, que este talento, perseverança e força que me têm feito crescer são mimos – ou castigos - de Deus pelos quais devo estar sempre grata.
*** Regresso ao camarim, olho-me ao espelho e repito, uma vez mais e já em árabe pela força do hábito, “Graças a Deus” (“Il hamdulilah”). Uma vez mais, as musas da inspiranção estiveram comigo (podem não estar!), o público recebeu-me de braços abertos e todos os intervenientes no espectáculo tiveram saúde e energia para dar o seu melhor. Il hamdullilah!
*** A minha assistente recolhe e arruma roupas, acessórios, os meus novos “toura” (espécie de “sagats” grandes usados pelos sufis) , maquilhagem e tanta traquitana que compõe o pré-espectáculo e eu estou inerte, sentada na cadeira que descansa em frente a um espelho quebrado, respirando fundo, tentanto tomar consciência de tudo o que me está a acontecer.
Penso para mim mesma: “Se mais oportunidades me forem dadas, farei melhor e melhor. Soltaram o leão da jaula e não há forma de o parar...graças a Deus, uma e outra vez, sem parar...”