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Thursday, April 19, 2012



E é assim que fico (olhar para a imagem à vossa direita)quando ouço o mítico "Inshah Allah..."

Estou à espera do meu "caramel latte" num Starbucks do Cairo quando reparo num "brownie" de aspecto apetitoso exposto na montra da comida. Pergunto ao empregado:
-Este "brownie" é fresco?
-"Inshah Allah" ("Se Deus quiser").
-Não entendeu a pergunta.Quero dizer: se o "brownie" é de hoje, se foi entregue recentemente ou se já aqui está há dias...
-"Inshah Allah".
-...Se estiver seco, volto cá e devolvo-o. Fica avisado.
-"Inshah Allah".
(Alguém desliga, por favor, o botão do "Inshah Allah" que ficou bloqueado em sistema de piloto automático. Muito obrigada.)

Conclusão: permiti que a minha gulodice ganhasse sobre o bom senso de experiência adquirida e levei o "brownie", descobrindo que estava, de facto, mais seco do que tijolos. O termo "Inshah Allah" é usado e abusado para desresponsabilização das pessoas que o usam. Quer dizer, então o "brownie" é fresco, se Deus quiser???!!! Mas que raio quer isso dizer?

"Bokra,Inshah Allah! (Amanhã, se Deus quiser!)" ou um solitário mas conciso "Inshah Allah" atirado ao ar são as desculpas perfeitas para quem não tem a mínima intenção de se comprometer. Está TUDO nas mãos de Deus e nada nas minhas. Reparem só que conveniente que é...

Friday, March 2, 2012



Coisas inúteis e deliciosas.






SABIAS que :






As botas até a coxa eram originalmente usadas pelos piratas e contrabandistas que escondiam nelas valores roubados (booty em inglês) - uma prática que deu origem ao termo bootlegging (contrabando.)
Por: Nelson Neto da Cunha

Saturday, December 31, 2011




Imagem preferida de 2011.




Sim, é esta mesma, pá. E este "pá" vem carregado de significado e uma valente palmada nas costas da pessoa a quem o digo: "pá!".


Tradução do que lá está escrito:


"Eles riram-se dos nossos óculos.


Nós rimo-nos dos seus gritos."




E "´mai nada" que isto de VIVER tem o seu lado prático. Se tivesse de escolher uma imagem FAVORITA deste conturbado ano de 2011 não penderia para a Revolução egípcia pela qual passei - oh, sim, estou a passar ainda! - nem para a crise económica mundial, nem tão pouco para uma fotografia minha de espectáculos ou eventos espalhados pelo mundo.


A minha imagem favorita é mesmo esta: a mãe e o filho com óculos "à totó" e roupas de "fugir à polícia", troçando de quem se ri deles.


Isto porque a imagem carrega em si MUITA coisa boa, "pá"!


Que SEJAMOS mais de nós mesmos e que se lixe quem critica, fala mal, deita a baixo porque são esses quem nunca REALIZA nada e se odeia a si mesmo através da crítica aos que se MOVEM.




Terminando este ano com a imagem "im-perfeita" desta mãe e filho dos anos setenta.


Mais AUTENTICIDADE e CORAGEM para 2012. Que falem e os deixemos enterrar-se nos mexericos. Enquanto os cães ladram, a caravana passa.




Desejando que as vossas caravanas AVANCEM na direcção dos vossos sonhos e que os vossos PASSOS vos levem onde reside a FELICIDADE. Dentro e fora de vós.


Pá!

Tuesday, December 27, 2011



Perguntam-me porque vivo no Cairo!!!


É frequente dividir as reacções à cidade do Cairo em duas classes bem demarcadas: as do que odeiam a cidade e dos que a amam.

Creio que esta é uma forma simplista de colocar a questão.

Para mim, o Cairo odeia-se e ama-se, simultaneamente.

A sua complexa natureza, diversidade de contrastes, riqueza assim o exigem. Nela está contido o miraculoso e o monstruoso. Tal como a natureza Humana, o Cairo não se deixa catalogar por bonzinho ou mauzinho. Os cowboys e os índios são uma e a mesma pessoa, tornando a vida por cá um tumulto de sensações, choques, aprendizagens que podem elevar-nos ou, simplesmente, enlouquecer-nos.


Ontem à noite recordei porque AMO-ODEIO esta cidade e porque cá vivo.

Assisti a mais um espectáculo sufi no Palácio "El Khoury" (na zona do Hussein, onde também se encontra o famoso mercado de "Khan el Khalili" ) e participei numa sessão se "zaar" no coração do Cairo (numa das muitas zonas onde os agentes turísticos e "amigos" egípcios não nos levarão, nem em sonhos).


Ter músicos egípcios como amigos tem destes privilégios.

O espectáculo sufi acrescenta sempre ALGO ao que eu já sabia. Apercebo-me do PORQUÊ deste espectáculo ser patrocinado pelo Estado egípcio. Sendo sufi e, exclusivamente apresentado e criado por HOMENS, o teor do mesmo é RELIGIOSO, MUÇULMANO.

Para quem não entende as letras das canções apresentadas, esse pormenor passa ao lado. O pessoal quer apenas ver homens girando com as suas saias redondas e coloridas. Para a maioria, trata-se apenas de um espectáculo visual. Para mim não.


As letras louvam o Profeta Mohamed e Alá, envergando símbolos muçulmanos discretamente imbuídos de uma Sabedoria mais antiga que vê o Ser Humana como uma partícula dançante de um Universo também ele dançante.

Aprecio a ALMA de alguns dos bailarinos de "tannoura" ( quer dizer, literalmente, "saia") e músicos. Mirando em direcção ao céu, entoando cânticos de amor apaixonado a Alá, é fácil entender porque este é um espectáculo à parte da cena PROÍBIDA ("haram") onde a Dança Oriental se encontra como Senhora e Rainha. O mundo patriarcal que louva a um Deus e a um Profeta continuam a sobrepor-se à existência inegável de uma forma de ADORAR a VIDA feminina. Sendo também um espectáculo de teor muçulmano, conforma-se com a maioria e com o poder instituído. É perversa esta relação da ARTE com a POLÍTICA.


Depois dirigimo-nos para uma sessão de "zaar", não daquelas que fazem para turistas ver (já de si, muito raras) mas uma sessão espontânea que se pratica na mesma casa há muitas gerações.

Chamo ao "zaar" o psicólogo para o povo. Mulheres (e alguns homens) chegam de cada bairro em determinados dias da semana e pagam a músicos e cantores para as libertarem de tudo o que de negativo levam dentro de si. Para os mais supersticiosos, trata-se de um exorcismo. Os demónios e espíritos maléficos ("djinns") que penetraram no corpo daquela pessoa são libertados/expulsos através da música e da dança. Gosto da ideia!


Para um observador atento, não é difícil perceber que este ritual é um salva-vidas numa sociedade em que a maioria das mulheres ainda vive na pobreza, em ambientes de violência, sem amor ou realização que não seja a de procriar.

Através da música e da dança, libertam pressões, tristezas, tragédias, feridas abertas, raivas, revoltas internas que não ousam expressar de outra forma e por aí fora (que isto de SER MULHER no Egipto tem MUITO que se lhe diga).


Mais curioso ainda é que os mais conceituados músicos e cantores do "zaar" são MULHERES.

Elas tocam percussão e cantam com as vozes poderosas construídas de muito sofrer e viver, as mãos gordas e monumentais que mais parecem frangos caseiros, os olhos negros penetrantes de cumplicidade na alegria e na dor.


Não pude deixar de pensar na diversidade e riqueza imensa deste país, desta cidade. Aos olhos do estrangeiro, turista superficial, trata-se apenas de caos e repressão. Para quem QUER conhecer a fundo e abre o coração a este solo mágico, as REVELAÇÕES são imensas, lindas, indizíveis.

Thursday, December 22, 2011



Diz que disse à moda egípcia.


O Egipto continua nas boas do mundo de forma sensacionalista, ao bom estilo da imprensa mundial.

O período pós-revolucionário comprovou aquilo que sempre me pareceu a mim: que, dada a oportunidade de existirem eleições democráticas e honestas neste país, a maioria dos egípcios dariam a vitória à Irmandade Muçulmana.



Chamaram-me pessimista, Velho do Restelo de cabelos aloirados e outros mimos a que já estou habituada. Isto de uma Mulher ter uma VOZ activa ainda incomoda muita gente.


O que previa veio a confirmar-se, para desgosto meu e de muitos que olham a Irmandade Muçulmana com justificada desconfiança e até terror.

A verdade é que o povo teve o direito que merecia a votar mas a verdade é também que um povo sem educação académica e/cívica não está preparado para a Liberdade ou para a Democracia. Estas requerem cultura, cérebros que funcionam, pessoas educadas que sabem distinguir religião de política, campanhas eleitorais de compra de votos, sermões religiosos de lavagens cerebrais. Ora o Egipto, com o tanto que o amo porque é aqui que trabalho e vivo como qualquer outro egípcio, é um país com uma esmagadora percentagem de iletrados (pessoas que não sabem, sequer, ler e escrever). Para as massas deste país, a educação que recebem chega das mesquitas e dos sermões que os "cheiques" lá lhes dão, passando mensagens de extremismo religioso, ódio ao Ocidente e prometendo que o Paraíso na Terra só se consegue com um Governo Islâmico.


Irónico mas verdadeiro: se a maioria do povo egípcio escolhe a Irmandade Muçulmana para governar este país, então a IRMANDADE MUÇULMANA tem o direito de fazê-lo porque foi democraticamente eleita pela maioria.


Agora surgem vozes que se opoem a esta aparente consumada vitória e tantas outras vozes que se juntam ao caos, com ou sem razão para fazê-lo.

Cá por mim, não sou a favor nem contra ninguém mas sou, sem dúvida, em prol do uso do cérebro para mais do que abrir latas de atum. Se houve algo que a nossa história mundial nos ensinou é que a mistura entre Religião e Política nunca traz coisa boa. Quando este cocktail explosivo se dá, existem as Inquisições, as manipulações mentais, vários tipos de fascismos e outros demónios que tais. Aprender com a História é para quem teve essas coisas tão temidas por todos os poderosos financeiros do mundo: educação, cultura.


Entretanto, não se fala noutra coisa: mulheres com mamocas interessantes que passam na rua pedindo para ser assediadas (o Egipto não mudou assim tanto!) e política.


Deita-se fogo a importantes arquivos arqueológicos no centro do Cairo, anda-se à batatada com e sem razão aparente e fala-se mal dos militares que estão, por assim dizer, encostados à parede entre a protecção do seu povo e a tentativa, praticamente impossível, de reestabelecer a ordem para que a vida "normal" possa ser retomada num país já devastado pelos efeitos da queda brutal no turismo.


Como residentes, sabemos acerca das zonas onde estão concentrados os conflitos (perto de Tahrir e, em geral, pela baixa da cidade) e evitamos enterrarmo-nos nesta espiral de auto-destruíção que parece ter-se apoderado do meu querido Egipto.


Sim, o POVO egípcio queria e merecia a Revolução (tal como eu a queria e merecia) mas isso não significa que não hajam muitos outros PODERES (maioritariamente, escondidos) que são CONTRA-REVOLUÇÃO.

Vejo este povo meio perdido, como sempre esteve, porque nunca lhe foi dada a oportunidade de educar-se e pensar por si próprio.

Muito coração e pouca cabeça. Assim foi e assim continua a ser.


Fala-se também do aumento da criminalidade nas ruas do Cairo, algo inédito para mim, e nas Mulheres egípcias que começam FAZER-SE OUVIR num âmbito que não se restringe à Revolução.


Cá para mim, resta o orgulho nesta gente corajosa que chegou a um ponto de miséria e desesperança que disse para si mesma: não temos nada a perder e TUDO a ganhar.

Resta saber que será este TUDO e resta esperar-desejar-lutar para que este TUDO seja o que os revolucionários imaginaram para o seu país e não uma viagem à época medieval que separará, ainda mais, o Egipto da sua própria identidade e grandeza.


O meu coração e a minha mente estão sempre com o Egipto, assim como o meu corpo presente, a minha esperança ou até mesmo a minha ingenuidade, algo que tenho em comum com os meus conterrâneos outrora faraónicos.