Cairo, dia 14 de Agosto, 2009
“Do nada se faz tudo e um filme a não perder”
***Em processo de investigação e ensaios. Criando, sempre.
Isto de ser artista é uma forma de vida estranha...invade toda a nossa vida, varre tudo e todos à nossa volta.
Faltam meios (o vil metal, o vil metal!) para comprar novas músicas compostas para mim. Quanto mais se sobe e melhor se faz, mais se quer fazer. Lógica das coisas. Lógica dos que querem sempre dar de si, mais e mais, melhor e melhor.
A minha lógica.
Às vezes, meio na brincadeira e meio a sério, vou amaldiçoando a minha falta total de aptidões para a “real putaria” (desculpem o termo crú) tão comum no mundo das bailarinas do Egipto e de todos os artistas, em geral. Em troca de uma grande oportunidade de carreira, artistas que nós conhecemos e admiramos (quando já se consagraram e lá longe vão os dias em que tiveram de vender o corpo e a alma em troca do sucesso entregue de bandeja) prostituem-se, cedem nos valores que até achavam serem tão seus, esquecem quem são – ainda que por momentos – e lá se lançam eles nas suas carreiras e estrelato. Ninguém parece importar-se com o que fizeram debaixo dos lençóis (ou em cima, tanto faz!) antes de chegarem ao “topo”! O brilho do sucesso cega o público. Não interessa o que existe por trás desse brilho.
Eu não tenho esse gene da devassidão e dou cabeçadas na parede por isso. J
*** Existe uma série de compositores/letristas com quem quero trabalhar aqui no Cairo. Pessoal da velha guarda, artistas na rectaguarda de bailarinas como a Nagwa Fouad (a que sempre teve as melhores músicas e “tableaus” do mercado egípcio), Fifi Abdou, etc. Todos eles cobram balúrdios pelo seu trabalho porque fazem parte de um sistema mais que conhecido no qual as bailarinas se prostituem ou casam com homens de negócios e multi-milionários que nelas investem e que lhes pagam trajes luxuosos, jóias, apartamentos e afins, orquestras de primeira classe e músicas. O dinheiro que, em regra geral, estes compositores e letristas recebem não é gerado pela dança em si mas pela “cama” (legalizada pelo casamento ou não).
*** Como lutar contra o sistema?! E como seguir fazendo omeletes sem ovos?! Dou graças a Deus por onde estou mas, agora que aqui cheguei, existem outros degraus a subir e o dinheiro – ou a falta dele – para investir em material de dança/canto parece ser um obstáculo deveras frustrante.
Pessoal que nasceu de gente humilde – como eu – está habituado a fazer muito do pouco que se tem. A comida alentejana é exemplo disso. De ervitas e pão duro se faz uma açorda fenomenal.
Aqui ando eu fazendo açorda atrás de açorda, explorando ao máximo a minha imaginação e talento de forma a que a falta de dinheiro para investir em grande não seja tão significativa.
*** Não sou músico, sou bailarina e actriz. São esses os trabalhos para os quais estudei e para os quais estou preparada. No entanto, vejo-me a editar músicas, colando daqui e dali e criando novas composições com memórias de melodias que escutei, provavelmente, num táxi qualquer ou num café de rua. Orquestro a minha banda e rebusco canções do início do século que eu dançarei e cantarei. Há que lhes dar uma volta, actualizá-las. Sento-me com o orgão, o acordeão, a flauta nay, kanun. Todos me olham em reverência e esperando respostas. Eu, de entre eles, sou a que menos percebe de música (supostamente) mas é de mim que se esperam respostas e soluções musicais. O.k, vamos a isso! Se eu não o fizer, mais ninguém o fará e nada me irrita mais do que a imobilidade.
Que loucura!
*** Filme a não perder:
“2 Filhos de Francisco”, a história de Zezé di Camargo e Luciano (dupla sertaneja muito conhecida no Brazil).
Este filme foi uma surpresa maravilhosa que me foi dada a conhecer pela minha amiga Souheir, digna representante do nosso clube secreto (não tão secreto a partir deste momento!) a que eu chamei “Clube das Guerreiras Ováricas” (todas as mulheres – e homens – que vivem a vida a 100% com coragem e sempre a partir do coração e da alma).
O filme conta a história real destes cantores e todo o seu percurso de vida ilustra aquilo que eu sempre acreditei: talento, fé, persistência, muita luta e coragem e... amor no coração são ingredientes mais que suficientes para a realização dos nossos sonhos.
A personagem mais marcante do filme é o pai da dupla, principal motor de toda a sua carreira e aquele que nunca deixou de acreditar no poder avassalador dos sonhos que se vivem com toda a alma. Se todos os pais do mundo acreditassem nos seus filhos como este personagem acreditou neles, tantos mas tantos guerreiros mais poderiam sair vitoriosos.
Um hino à coragem, à capacidade de luta pela vida, à fé no ser humano e em Deus. Estou apaixonada!
O filme está disponível em DVD.
Saturday, August 15, 2009
Cairo, dia 13 de Agosto, 2009“Grandes espectáculos e o público que vem em massa assistir às minhas loucuras...”
Sinto-me grata e orgulhosa de mim mesma. Permaneço dentro do silêncio impotente quando penso no que tem acontecido nestes últimos tempos. Vitórias e reconhecimento depois de tantas batalhas e dificuldades constantes. Eu sabia que isto aconteceria. Mais ninguém o sabia.
Mas... eu sabia! Tenho fé em mim para dar e vender (mas não sem dúvidas e lágrimas) e sempre soube que tanta montanha escalada na mais absoluta solidão dariam frutos. Ei-los aqui...
A luta continua mas flui mais facilmente. Uma monstruosa montanha foi escalada com sucesso e os visitantes desta aldeia global têm vindo visitar o eremita ( “moi”), comprovando aquilo que corre nas bocas do Cairo:
Eu até sei dançar! A miúda percebe daquilo, porra!:)JJJJ
Não descansando sobre elogios e louros ganhos, sei que o que ainda não foi feito é aquilo em que tenho de concentrar-me. O meu espírito de luta e criatividade estão no ponto mais alto que alguma vez pude sentir.

Mal durmo, mal como, mal respiro. Quero criar, surpreender mais e mais...crescer...crescer...abrir as asas e voar porque foi para isso que deixei tudo no meu país e me lancei ao desconhecido como só os loucos e os aventureiros de alma se propõem fazer.
Cairo, dia 10 de Agosto, 2009
“Telefonema do Além (melhor dizendo, do “Além Cérebro”)
*** Oh, as delícias de se ser mulher – e estrangeira e bailarina! – num país fascinante como o Egipto nunca páram de me surpreender.
Afirmo com uma alarmante placidez que já vi tudo, já ouvi tudo e já presenciei cenas do espectro humano e animal de tal índole que não me admiraria se visse um porquinho a andar de bicicleta. Os meus amigos riem-se quando menciono o tal porco! Vá-se lá saber porquê mas a imagem de um porco rosado a andar de bicicleta despoleta as mais valentes risadas e suspiros aliviados de quem julga que isso não é possível (Um porco?! Montando uma bicicleta?! Nahhh....” ).
*** Pois sim, meus amigos. Neste país de contrastes e deliciosas surpresas constantes, os porcos andam de bicicleta e até de asa delta e, mais surpreendente que estes feitos em si mesmos, ninguém se admira com tal aberração da natureza porque, tal como “moi”, o pessoal de cá está calejado de tal forma que apagou a palavra “impossível” do dicionário. Absurdo é outra das palavras a esvaírem-se a olhos vistos dos dicionários...ah, e lógica e...(a lista é longa, fica para outra vez!)...
*** Hoje recebi um telefonema do Além (Além-cérebro, para ser mais concreta).
Não foram extra-terrestres que me ligaram de Marte tentando convencer-me a comprar uma viagem espacial em promoção mas sim outro tipo de criatura que vive – presumo eu – em cavernas ou em grutas nas profundidades do Mar Morto e que se vislumbra à luz do dia quando nos visita a nós – seres humanos ditos “normais” – colocando em questão noções básicas de inteligência, paciência e utilização produtiva do nosso tempo.
*** Não tendo um gerente que me explore – monetária e/ou sexualmente – e que, por outro lado, me angarie trabalhos extra e faça de ponte entre mim e os potenciais clientes (privados, hotéis, empresários, outros agentes), sou eu quem atende o meu telemóvel egípcio e, assim sendo, exponho-me a todo o tipo de interlocutor.
*** O telefonema de hoje foi emblemático da taxa de desemprego que assola o país e, em particular, os homens de quem se espera que produzam e façam muito dinheiro para sustentar esposas e famílias inteiras.
Não havendo trabalho nem relações pessoais saudáveis e realizadas, um grupo de semi-extra-terrestres lança-se ao passatempo de telefonar a mulheres que eles julgam ser prostitutas (todas as mulheres que não são suas familiares ou que não andem todas cobertas segundo os preceitos religiosos mais extremistas) e, directa ou indirectamente, tentar estabelecer uma relação express que, no meu caso, tentam criar a partir do pretexto do meu trabalho.
*** - Salam ualekum. – Lança o porco que anda de bicicleta.
- Aleekum salam... – Responde a vítima do porco.
- Estou a falar com a Madame Joana? – Continua ele num tom muito sério.
-Sou eu mesma. Quem fala?
- Sou o......(escolham um nome árabe do mais imperceptível que há e coloquem-no neste espaço em branco...soltem as rédeas da vossa imaginação...). Sou actor e produtor e tenho uma fotografia sua nas minhas mãos. Sei que a Joana é bailarina e ando há muito tempo tentando alcançá-la mas só agora consegui.
- Certo. Posso perguntar-lhe como conseguiu então alcançar-me e quem lhe deu a minha fotografia?!
- A sua fotografia está no nosso escritório (outro nome imperceptível nesta altura do campeonato).
- O.k. Diga-me que assunto o leva a telefonar-me?
-A Joana é de Portugal, não é?! (começa a conversa da treta...)
-Sou, sim senhor.
- Ah, Portugal!!! A melhor gente! Gente muito respeitável e bonita...que maravilha! É de onde, exactamente?! De Lisboa?!
- Sim, de Lisboa. Mas, por favor, diga-me qual o assunto do seu telefonema ( e é aqui que eu começo a ficar nervosa e a tentar destrinçar se este é apenas um empresário egípcio abelhudo e amante da conversa de chacha ou se é um atrasado mental – o porquinho, o porquinho! - a passar o tempo tentando engatar uma vítima por telefone).
- Onde vive a Joana? – Pergunta o condutor da bicicleta (ai o porquito!) ignorando os meus pedidos de esclarecimento quanto ao assunto do telefonema.
- Vivo no Cairo. – Respondo eu, não querendo ser mal-educada mas, simultaneamente, começando a sentir uns calores familiares subindo-me pela garganta acima.
- Onde, no Cairo? Pode ser que vivamos perto um do outro?!”
(E aqui dá-se a explosão, ainda que controlada pelo cansaço e pela quantidade monstruosa de vezes que já recebi telefonemas destes).
-Desculpe mas não vejo por que razão deva dizer-lhe onde moro ou o que isso poderá interessar para o meu trabalho. Diga-me qual o motivo do seu telefonema e, se esse motivo não for profissional, por favor desligue.
E gostaria de saber quem lhe deu as minhas fotografias já que não o conheço nem a si nem ao seu escritório.
- Alguém deixou as suas fotografias no meu escritório, não sei quem.
Numa delas tem um decote muito generoso e noutra aparece apenas a sua cara mas a do decote é, realmente, muito expressiva. A do decote...decote...decote...deco...deco...de...de...de...d..d...d...d....d... (o extra-terrestre encalhou no raio do decote!)
-Sim, estou a ver...(a estupidez dele, não o decote!)
- Queria apenas saber se moramos perto um do outro...só isso. – Continua o caçador com uma calma e uma perseverança que são típicamente egípcias e tipicamente irritantes.
- Vou desculpar-me uma vez mas não tenho de lhe responder a essa questão. Qual é o assunto de trabalho que tem para me propôr?! – Insisti eu, sentindo um valente berro querendo dizer olá a este mundo de loucos.
-De momento, nada. Mas... vi a fotografia do decote e achei podia ligar-lhe.
Ahhhh... (lembra-te que estás no Egipto, Joaninha...olha o porquito e a bicicleta...lembra-te das delícias do país que te acolheu...).
Como é que eu, que até me julgo uma moçoila inteligente, não pude entender que quem se deixa fotografar com um decote está “mesmo a pedi-las”?! Como foi possível que eu, moçoila respeitável e de boas famílias me deixasse fotografar com um traje de dança que inclui a exposição deslambida do meu decote (que nem é assim tão generoso quanto isso!) sem esperar um feed-back igualmente vergonhoso?!
O que o porquinho a andar de bicicleta me estava a tentar explicar – indirectamente, como bom egípcio que é – é que o facto de eu ter fotografias com decote a circularem no mercado da dança só pode querer dizer que ando à procura e à espera de telefonemas de anormais que não conheço de lado nenhum tentando “fazer-se ao bife português”!
Como posso ser tão lenta de raciocício?!
- Este contacto é apenas para trabalho. Se o senhor não tem trabalho nenhum para propôr-me, faça o favor de desligar o telefone.
Não lhe dei tempo para responder ou tentar, uma vez mais, inventar uma nova questão pessoal que, talvez (quiçá, quiçá, quiçá...), quebrasse o gelo antártico que nos separava. Persistência e imaginação são qualidades que não se devem menosprezar e os homens egípcios possuem-nas para dar e vender.
*** Assim que desliguei o telefone, pensei no par de minutos e na atenção que desperdicei com mais um porco a andar de bicicleta. Depois de ter visto tantos porcos andando nos mais diferenciados meios de transporte, já devia ter estaleca suficiente para identificar um “esquema de engate” num segundo mas a minha ingenuidade persistente trai-me quando menos espero.
*** O mesmo personagem voltou a ligar persistentemente durante a hora seguinte e, espero eu, deve ter chegado à conclusão que este decote não combina com a sua bicicleta mas, ainda assim, não pude deixar de me surpreender – ainda?! – com a tristeza da vida de tantas pessoas como esta que empregam o seu tempo e dinheiro em tarefas doentias como a caça aos decotes e afins.
Este é um dos passatempos mais comuns no Egipto e um dos sinais óbvios do estado mental e emocional doentios em que os seus residentes se encontram.
*** Os meus sentimentos e profunda pena vão para este, agora desolado, porquinho ciclista.
*** (“Vai mas é trabalhar, malandro!”).
Singela homenagem à minha progenitora e aos “Contemporâneos”, ambos grandes proclamadores deste expressão tão portuguesa.
“Telefonema do Além (melhor dizendo, do “Além Cérebro”)
*** Oh, as delícias de se ser mulher – e estrangeira e bailarina! – num país fascinante como o Egipto nunca páram de me surpreender.
Afirmo com uma alarmante placidez que já vi tudo, já ouvi tudo e já presenciei cenas do espectro humano e animal de tal índole que não me admiraria se visse um porquinho a andar de bicicleta. Os meus amigos riem-se quando menciono o tal porco! Vá-se lá saber porquê mas a imagem de um porco rosado a andar de bicicleta despoleta as mais valentes risadas e suspiros aliviados de quem julga que isso não é possível (Um porco?! Montando uma bicicleta?! Nahhh....” ).
*** Pois sim, meus amigos. Neste país de contrastes e deliciosas surpresas constantes, os porcos andam de bicicleta e até de asa delta e, mais surpreendente que estes feitos em si mesmos, ninguém se admira com tal aberração da natureza porque, tal como “moi”, o pessoal de cá está calejado de tal forma que apagou a palavra “impossível” do dicionário. Absurdo é outra das palavras a esvaírem-se a olhos vistos dos dicionários...ah, e lógica e...(a lista é longa, fica para outra vez!)...
*** Hoje recebi um telefonema do Além (Além-cérebro, para ser mais concreta).
Não foram extra-terrestres que me ligaram de Marte tentando convencer-me a comprar uma viagem espacial em promoção mas sim outro tipo de criatura que vive – presumo eu – em cavernas ou em grutas nas profundidades do Mar Morto e que se vislumbra à luz do dia quando nos visita a nós – seres humanos ditos “normais” – colocando em questão noções básicas de inteligência, paciência e utilização produtiva do nosso tempo.
*** Não tendo um gerente que me explore – monetária e/ou sexualmente – e que, por outro lado, me angarie trabalhos extra e faça de ponte entre mim e os potenciais clientes (privados, hotéis, empresários, outros agentes), sou eu quem atende o meu telemóvel egípcio e, assim sendo, exponho-me a todo o tipo de interlocutor.
*** O telefonema de hoje foi emblemático da taxa de desemprego que assola o país e, em particular, os homens de quem se espera que produzam e façam muito dinheiro para sustentar esposas e famílias inteiras.
Não havendo trabalho nem relações pessoais saudáveis e realizadas, um grupo de semi-extra-terrestres lança-se ao passatempo de telefonar a mulheres que eles julgam ser prostitutas (todas as mulheres que não são suas familiares ou que não andem todas cobertas segundo os preceitos religiosos mais extremistas) e, directa ou indirectamente, tentar estabelecer uma relação express que, no meu caso, tentam criar a partir do pretexto do meu trabalho.
*** - Salam ualekum. – Lança o porco que anda de bicicleta.
- Aleekum salam... – Responde a vítima do porco.
- Estou a falar com a Madame Joana? – Continua ele num tom muito sério.
-Sou eu mesma. Quem fala?
- Sou o......(escolham um nome árabe do mais imperceptível que há e coloquem-no neste espaço em branco...soltem as rédeas da vossa imaginação...). Sou actor e produtor e tenho uma fotografia sua nas minhas mãos. Sei que a Joana é bailarina e ando há muito tempo tentando alcançá-la mas só agora consegui.
- Certo. Posso perguntar-lhe como conseguiu então alcançar-me e quem lhe deu a minha fotografia?!
- A sua fotografia está no nosso escritório (outro nome imperceptível nesta altura do campeonato).
- O.k. Diga-me que assunto o leva a telefonar-me?
-A Joana é de Portugal, não é?! (começa a conversa da treta...)
-Sou, sim senhor.
- Ah, Portugal!!! A melhor gente! Gente muito respeitável e bonita...que maravilha! É de onde, exactamente?! De Lisboa?!
- Sim, de Lisboa. Mas, por favor, diga-me qual o assunto do seu telefonema ( e é aqui que eu começo a ficar nervosa e a tentar destrinçar se este é apenas um empresário egípcio abelhudo e amante da conversa de chacha ou se é um atrasado mental – o porquinho, o porquinho! - a passar o tempo tentando engatar uma vítima por telefone).
- Onde vive a Joana? – Pergunta o condutor da bicicleta (ai o porquito!) ignorando os meus pedidos de esclarecimento quanto ao assunto do telefonema.
- Vivo no Cairo. – Respondo eu, não querendo ser mal-educada mas, simultaneamente, começando a sentir uns calores familiares subindo-me pela garganta acima.
- Onde, no Cairo? Pode ser que vivamos perto um do outro?!”
(E aqui dá-se a explosão, ainda que controlada pelo cansaço e pela quantidade monstruosa de vezes que já recebi telefonemas destes).
-Desculpe mas não vejo por que razão deva dizer-lhe onde moro ou o que isso poderá interessar para o meu trabalho. Diga-me qual o motivo do seu telefonema e, se esse motivo não for profissional, por favor desligue.
E gostaria de saber quem lhe deu as minhas fotografias já que não o conheço nem a si nem ao seu escritório.
- Alguém deixou as suas fotografias no meu escritório, não sei quem.
Numa delas tem um decote muito generoso e noutra aparece apenas a sua cara mas a do decote é, realmente, muito expressiva. A do decote...decote...decote...deco...deco...de...de...de...d..d...d...d....d... (o extra-terrestre encalhou no raio do decote!)
-Sim, estou a ver...(a estupidez dele, não o decote!)
- Queria apenas saber se moramos perto um do outro...só isso. – Continua o caçador com uma calma e uma perseverança que são típicamente egípcias e tipicamente irritantes.
- Vou desculpar-me uma vez mas não tenho de lhe responder a essa questão. Qual é o assunto de trabalho que tem para me propôr?! – Insisti eu, sentindo um valente berro querendo dizer olá a este mundo de loucos.
-De momento, nada. Mas... vi a fotografia do decote e achei podia ligar-lhe.
Ahhhh... (lembra-te que estás no Egipto, Joaninha...olha o porquito e a bicicleta...lembra-te das delícias do país que te acolheu...).
Como é que eu, que até me julgo uma moçoila inteligente, não pude entender que quem se deixa fotografar com um decote está “mesmo a pedi-las”?! Como foi possível que eu, moçoila respeitável e de boas famílias me deixasse fotografar com um traje de dança que inclui a exposição deslambida do meu decote (que nem é assim tão generoso quanto isso!) sem esperar um feed-back igualmente vergonhoso?!
O que o porquinho a andar de bicicleta me estava a tentar explicar – indirectamente, como bom egípcio que é – é que o facto de eu ter fotografias com decote a circularem no mercado da dança só pode querer dizer que ando à procura e à espera de telefonemas de anormais que não conheço de lado nenhum tentando “fazer-se ao bife português”!
Como posso ser tão lenta de raciocício?!
- Este contacto é apenas para trabalho. Se o senhor não tem trabalho nenhum para propôr-me, faça o favor de desligar o telefone.
Não lhe dei tempo para responder ou tentar, uma vez mais, inventar uma nova questão pessoal que, talvez (quiçá, quiçá, quiçá...), quebrasse o gelo antártico que nos separava. Persistência e imaginação são qualidades que não se devem menosprezar e os homens egípcios possuem-nas para dar e vender.
*** Assim que desliguei o telefone, pensei no par de minutos e na atenção que desperdicei com mais um porco a andar de bicicleta. Depois de ter visto tantos porcos andando nos mais diferenciados meios de transporte, já devia ter estaleca suficiente para identificar um “esquema de engate” num segundo mas a minha ingenuidade persistente trai-me quando menos espero.
*** O mesmo personagem voltou a ligar persistentemente durante a hora seguinte e, espero eu, deve ter chegado à conclusão que este decote não combina com a sua bicicleta mas, ainda assim, não pude deixar de me surpreender – ainda?! – com a tristeza da vida de tantas pessoas como esta que empregam o seu tempo e dinheiro em tarefas doentias como a caça aos decotes e afins.
Este é um dos passatempos mais comuns no Egipto e um dos sinais óbvios do estado mental e emocional doentios em que os seus residentes se encontram.
*** Os meus sentimentos e profunda pena vão para este, agora desolado, porquinho ciclista.
*** (“Vai mas é trabalhar, malandro!”).
Singela homenagem à minha progenitora e aos “Contemporâneos”, ambos grandes proclamadores deste expressão tão portuguesa.
Cairo, dia 6 de Agosto, 2009
“Casamento baladi”
*** Actuei no casamento do filho de um dos meus músicos hoje à noite!
Ofereci o espectáculo como prenda de casamento e recebi, como um presente inesperado: a melhor audiência do mundo!
O casamento estava povoado de músicos e cantores e todos eles me esperavam com uma antecipação que eu reconheço quando eu própria vibro ao assistir a um espectáculo da Lucy (bailarina egípcia ainda no activo).
O calor, carinho e reconhecimento da parte deste público tão especial são bençãos que não sei descrever por palavras. Toda a gente quis deixar bem claro que era eu a estrela da noite e conseguiram-no!
Vi lágrimas nos olhos do meu músico, do seu irmão, do noivo, de mulheres da família que se colaram à cadeira olhando-me em extâse total.
Nenhum dinheiro do mundo paga este carinho e respeito!
De regresso a casa, parei em Sakkarah para comprar mangas (às 3.00h da manhã!) e pude apreciar os campos ainda estrelados que os camponeses egípcios cuidam com sacrifício há séculos e séculos.
Só no Egipto isto seria possível...(as mangas eram FENOMENAIS!)
“Casamento baladi”
*** Actuei no casamento do filho de um dos meus músicos hoje à noite!
Ofereci o espectáculo como prenda de casamento e recebi, como um presente inesperado: a melhor audiência do mundo!
O casamento estava povoado de músicos e cantores e todos eles me esperavam com uma antecipação que eu reconheço quando eu própria vibro ao assistir a um espectáculo da Lucy (bailarina egípcia ainda no activo).
O calor, carinho e reconhecimento da parte deste público tão especial são bençãos que não sei descrever por palavras. Toda a gente quis deixar bem claro que era eu a estrela da noite e conseguiram-no!
Vi lágrimas nos olhos do meu músico, do seu irmão, do noivo, de mulheres da família que se colaram à cadeira olhando-me em extâse total.
Nenhum dinheiro do mundo paga este carinho e respeito!
De regresso a casa, parei em Sakkarah para comprar mangas (às 3.00h da manhã!) e pude apreciar os campos ainda estrelados que os camponeses egípcios cuidam com sacrifício há séculos e séculos.
Só no Egipto isto seria possível...(as mangas eram FENOMENAIS!)
Cairo, dia 4 de Agosto, 2009
“Tentando recuperar forças e compras “baladi”...o submundo onde vivem as cores reais do Egipto”
*** “Ukala”, “Hussein”, “Mercados antigos de Maadi”...
Existem actividades e locais no Cairo que fazem as delícias dos turistas e visitantes ocasionais e que, devido à minha vivência diária por cá, são o similar de pequenos infernos nos quais eu evito enfiar-me.
A familiaridade apaga tanta da magia a locais e pessoas com quem estamos em contacto constante.
O mercado de “Khan el Khalili” (inferno nº 1 no meu “ranking” pessoal), as famosas pirâmides de Gizé ( só estando louca ou a cavalo é que me aventuro nessa área povoada por mil melgas egípcias tentando impingir de tudo um pouco aos turistas), a baixa da cidade (assédio sexual brutal, barulho, trânsito constante e sujidade) e todo o tipo de mercados locais (baladi) aos quais, feliz ou infelizmente, tenho de recorrer de quando em vez.
*** Dia de compras “baladi” com a minha assistente. O roteiro completo :
*** “Ukala”, ou o mercado dos tecidos onde se pode encontrar roupa em segunda mão, materiais de costura e outras coisitas que fazem as delícias da vaidade feminina mas que, a mim, me aborrecem de morte.
O que adquiri: tecidos e materiais para os meus novos trajes e para a minha primeira pequena colecção de trajes de dança (preparem-se para as fotos aqui no BLOG!)
*** “Hussein”, ou “Khan el Khalili” onde se encontram quantidades assustadoras de turistas (eu já fui um deles mas tendo a esquecer-me disso!) e de outro tipo de melga egípcia que mistura assédio sexual com um falatório frenético lançado sem pudor aos nossos ouvidos tentando vender o que precisamos e o que não precisamos. Assédio sexual e comercial juntinhos num cocktail explosivo que, a um estrangeiro pode soar exótico e até engraçado mas que, para mim que já ouvi as ladainhas mil vezes, me soa como uma música de mau “heavy metal”.
O facto de eu entender árabe – em oposição aos estrangeiros que não o entendem – só piora a situação.
A minha assistente perde-se fascinada no meio das lantejoulas e dos trajes, dos lenços e dos bastões. O meu cérebro está focado naquilo que interessa: materiais para as minhas criações/trajes, músicas novas que eu possa incluir no meu espectáculo, o que quer que seja que enriqueça o meu trabalho.
Serei demasiado capricorniana?! Talvez, apesar da familiaridade e de entender os insultos velados lançados aos estrangeiros, eu pudesse usufruir um pouco mais deste pequeno “inferno” à face da terra mas ainda não o consigo fazer.
Prometo à minha assistente trazê-la, uma noite, ao “Hussein” que a mim me agrada. O café de Naguib Mahfouz, o meu café “baladi” que me foi dado a conhecer pelo meu querido professor Shokry Mohamed (infelizmente, falecido), o espectáculo dos derviches no palácio de “El Khoury” e outras delícias que se revelam como flores nocturnas.
O que adquiri:
Uma pequena crise de nervos protegendo-me a mim e à minha assistente que, apesar de ser egípcia, se encostou aqui à guerreira estrangeira para protecção e orientação.
Strass, lantejoulas, materiais diversos para trajes que estou a desenhar.
*** Mercados baladi de Maadi
E o caos aqui tão perto de casa. Eu nem fazia ideia!
Nada de turismo, pirâmides ou lantejoulas. Este é o mercado do povo e aquilo que ele procura está lá:
*** Vegetais e frutas (a frescura parece ser dispensável no que concerne estes bens). Nunca o “Kunami” (fruta pobre vendida como se fosse fresquíssima e exótica segundo um dos “sketches” dos Gato Fedorento!) ganhou tamanho significado e dimensão. O Cairo é o Rei absoluto do Kunami. Está declarado (e penso que se encontra na Constituíção Egípcia).
*** Carne e peixe de origens duvidosas e segundo os mesmos preceitos da fruta/vegetais kunami. A carne chega aos talhos vinda em táxis, bicicletas e todo o tipo de veículos não refrigerados que compensam a sua ineficácia com aquilo que os egípcios têm de melhor: o sentido de humor!
A carne e o peixe são mantidos às moscas e expostos nas ruas, bem como o pão que se espalha no chão como areia ou os mariscos que podem ser escolhidos a partir de um viveiro improvisado num alguidar lá de casa.
*** Lingerie egípcia ao seu melhor estilo “sex shop”. A gama completa para agradar ao marido/amante obscuro/ vizinho/ noivo com quem se tem encontros proíbidos antes do casamento e para festejar os célebres rituais das 5ª feiras à noite (altura em que as esposas dançam/seduzem os maridos partindo para aquilo que é, supostamente, uma noite de sexo com ou sem amor).
Plumas nos mamilos, girassóis guerridos nos sítios onde o sol não brilha, fetiches atrás de fetiches na forma de lingerie reflectindo – em grande escala e muito claramente – o estado da sexualidade neste país.
O conceito de sedução inexistente (proíbido por uma visão extremista do Islão) e a pornografia, em seu lugar, tomando um lugar cimeiro em todo o seu esplendor.
*** Roupas ousadas ao lado de “hijabs” usados para cobrir as cabeças das mulheres que se submetem a esse gesto considerado religioso e de respeito a Deus. O contraste e a contradição definem o Egipto desde tempos imemoriais e essa característica não se perdeu, como é óbvio pelo convívio absurdo entre repressão e libertinagem, entre uma cabeça totalmente coberta e uns jeans apertados que revelam cada curva e detalhe do corpo de uma mulher.
*** Artigos ligados ao Ramadão que está mesmo aqui à porta:
Nozes, figos, ingredientes para confeccionar as iguarias próprias desta altura sagrada do ano, lâmpadas do Ramadão (símbolo desta estação festiva), vestidinhos e fatos masculinos para crianças (as crianças recebem roupas novas nesta altura, um pouco como no Natal dos Cristãos), etc.
*** E eu correndo...
Correndo para finalizar todas as compras importantes antes de começar o Ramadão – dia 20 de Setembro – porque, assim que este comece, a preguiça que já é tanta no comum dos dias, atinge dimensões assustadoras e, pior que isso, encontra desculpa e apoio geral.
As lojas abrem tarde – se abrirem! – e ficam abertas em horários variáveis consonte a disposição do comerciante, os vendedores são mais lentos do que o normal devido ao jejum que cumprem até às 17.00h (hora aproximada de quebra de jejum) e nada do que se planeia se cumpre devido ao caos e lassidão gerais.
Pelo que já me apercebi, até o ginásio que frequento (“Gold´s Gym”) e que se pauta por coordenadas internacionais, fechará durante todo o dia funcionando apenas das 18.00h às 1.00h da manhã. Eu que até nem sou muçulmana tenho de cumprir o horário do jejum e mudar toda a minha rotina em função do mesmo. Isto (também) é o Egipto que eu amo.
*** Vá-se lá compreender o amor!
Cairo, dia 3 de Agosto, 2009
*** Nagle, a minha salva-vidas!
A minha assistente egípcia tem sido a minha salvação nestas últimas semanas. Não só me assistiu em tudo o que precisava antes, durante e depois dos espectáculos diários como me presenteou com algumas das iguarias da cultura popular egípcia:
Todos os dias me trouxe comida egípcia caseira (o orgulho na cara dela quando eu gemi de prazer ao provar cada um dos pratos não tem preço!);
Introduziu esta humilde latina a uma arte ancestral praticada no Egipto até hoje: “halawa” ! A “halawa” é uma pasta que se assemelha à cera depilatória usada no Ocidente feita manualmente a partir de limão, mel e açucar.
As mulheres egípcias e árabes depilam-se totalmente. Quero dizer: TOTALMENTE (fui clara ou preciso de dar detalhes anatómicos?) e entram em estado de histeria profunda se vêem um pêlo a despontar de um braço ou de uma virilha. A aversão às pelosidades femininas é algo que ainda não entendi totalmente. Cá para mim, é mais uma forma de manter a mulher em eterno sofrimento e escravidão seguindo cânones de beleza que as escravizam e fazem sofrer. Imaginam o que é depilar constantemente todo o corpo?! Uiiiiiiiii.....
Até a cara de depila...as costas, os pés, as sobrancelhas, tudo e mais alguma coisa. Suspeito que esta atenção exagerada aos pêlos também tem a ver com a falta do que fazer. Hmmmm...
A minha ode pessoal e admiração profunda vai para as nossas amigas francesas e afins que se declaram, mais ou menos, livres das imposições estéticas da sua cultura exibindo orgulhosos tufos debaixo dos braços e nas virilhas. Rastas e trancinhas poderão ser uma opção para estas nossas amigas mas não aconselho que as venham exibir aqui para o Médio Oriente. Aqui, o ódio ao pêlo é a bandeira mais hasteada pelo mulherio e as tatuagens de “henna” nas partes pudibundas do pessoal são um “must” cujo fascínio também ainda não entendi.
Se eu fosse um homem e a minha mulher/namorada/o que Deus queira e imagine me aparecesse nua totalmente depilada (“look” extra-terrestre devido à ausência das sobrancelhas) e com a tatuagem de um dragão na...vamos lá ver...passarola (não me ocorreu nada melhor)...eu fugiria a sete pés. Pisga-te!
NOTA: Não pude deixar de reparar no deleite sádico que a Nagle parec
NOTINHA EXTRA: O óleo de menta que ela desencantou num mercado local para aliviar os meus músculos. Fantástico! Receita caseira e um autêntico salva-vidas. MUITO BOM. Nunca dormi sem antes passar este óleo nas pernas a fim de me ajudar a recuperar de um dia para o outro sem o devido descanso.
Chá egípcio com menta como só os egípcios sabem confeccionar. Tem a ver com os tempos de fervura, a quantidade de chá, menta e açúcar, a atenção que se dá ao ritual e a lentidão com que se depura o sabor de tudo...ninguém prepara um chá como os egípcios.
Antes de eu ter tempo de lhe pedir, a Nagle dava os passos mágicos e invisíveis para que eu tivesse sempre um copo de chá com menta bem quentinho na mesa do meu camarim. Atenções destas não têm preço!
Arranjos, trajes, cortinas lá para casa, limpezas...A verdadeira “Wonder Woman”: Nagle! Foi ela que me arranjou trajes novinhos em folha comprados a “designers” da treta que me cobram os olhos da cara por roupas de dança que se desmancham quando as visto pela primeira vez.
Foi ela que que fez uma bonitas – e tão esperadas – cortinas cor-de-rosa para o salão da minha casa.
Foi ela que, entre uma entrada de palco e outra me remendou um “soutien” que ameaçava abrir-se em pleno espectáculo.
Ela fez de tudo um pouco...
A Nagle e o seu “walkman” de segunda mão onde me mostrou uma série interminável de músicas que ela gostaria que eu dançasse. O mai surpreendente de tudo é o bom gosto e sentido de espectáculo que ela demonstrou possuir. Alguns dos temas que agora danço em palco foram sugestões dela.
Nagle, a fotógrafa. As fotografias de camarins que podem ver nos meus BLOGS e no meu FACE BOOK são da autoria desta senhora “baladi” com uma alma de artista e uma vontade de trabalhar muito pouco usual nas suas conterrâneas. Gosto de mulheres assim, prontas a arregaçar as mangas e a ir à luta! Não é por acaso que ela é min
Saturday, August 1, 2009
Cairo, dia 1 de Agosto, 2009
"Primeira maratona concluida...!"
Ontem terminei a minha primeira maratona no famoso "Nile Maxim".
O que seria apenas uma serie de 4-5 shows seguidos acabou por ser 18 shows de uma tirada. Nem tempo para reprogramar nada, nem para respirar, nem para nada...e eu feliz da vida!
Oficial: JOANA S. NO "NILE MAXIM"

E a minha mente nao para. Novo programa, trajes, coreografias com novos bailarinos, ensaio com a nova orquestra. Em busca da excelencia, sempre.
E a minha mente nao para. Novo programa, trajes, coreografias com novos bailarinos, ensaio com a nova orquestra. Em busca da excelencia, sempre.
Estou partida em mil bocadinhos. Todo o meu corpo esta dolorido e a mente exausta mas a alegria de uma primeira etapa e desafio mais que superados deixa-me cheia de orgulho e alegria. "Tudo vale a pena...depende da dimensao da nossa alma." Luiz de Camoes sabia do que falava.
Cliquem nestes links para mais videos de "moi" e riam com esta personagem (eu!) vestida de homem "saiidi" bailando com os meus rapazes:
E uma entrada classica no "Nile Maxim":
Subscribe to:
Posts (Atom)