Saturday, June 5, 2010


Cairo, dia 5 de Maio, 2010

Medo do sucesso

Porque sera que tenho tanto medo do sucesso?
Sera porque sei que ele traz novas pressoes,novas expectativas sempre crescentes?
Sera porque acho que nao estarei a altura da evolucao que esse sucesso traz?

Porque sera que o sucesso me da tanto prazer (ser apreciada, reconhecida, acarinhada pelo meu trabalho e alma)e me assusta tanto, simultaneamente?

Sera por ja saber que no topo da montanha estamos sos?!
Sera por saber que se acumulam inimigos consoante percorremos essa encosta escarpada que nos leva ao topo do nosso mundo/sonho?!

Hmmmmmmmm..........(pensando).

Porque tenho tanto medo do que mais desejo?
E porque somos nos, seres humanos, tao complicados?


NOTA PICANTE:
O genial Osho (filosofo, guru de varias geracoes, criador de toda uma nova consciencia) diria que a nossa mente representa o diabo.A consciencia que o ser humano possui da sua propria inteligencia...uma chatice e uma carga de trabalhos. Atraves da mente, adoramos - adoro!- complicar tudo.

Vamos la parar com isto!

Cairo, dia 5 de Junho, 2010

Nervos em franja

Tenho os nervos feitos num oito.

Com a chegada do maior Festival de Danca Oriental do mundo: AHLAN WA SAHLAN.

Com a grande noite do dia 1 de Julho (altura em que actuarei com a minha orquestra completa - 20 elementos do melhor que ha no Egipto ) e com a pressao/prazer que sera actuar para os profissionais de topo de todo o mundo.

Com a chegada de milhares de bailarinas de todo o mundo (sendo que muitas delas me enviam emails carinhosos avisando que estarao na primeira fila para me verem!).

Com as exigencias dos meus novos espectaculos no NILE MAXIM e nos grandes casamentos/eventos que estao para vir durante este mes e adiante...as expectativas em relacao a minha prestacao sao muitas e, embora esteja exausta ha ja muito tempo, a maquina nao poder parar.

Com o meu proprio sentido de perfeccionismo que me lixa quase sempre.

Com o clima, comigo mesma, com o mundo quando ele nao concorda comigo, com o meu proprio ego que se deixa enganar julgando que ate tem importancia e tal...

Com a possibilidade de grande sucesso (que traz responsabilidades acrescidas).

Cairo, dia 5 de Junho, 2010

In vino veritas

Os romanos tinham razao, ai tinham, tinham...
Sendo uma radical anti-alcool (jamais bebo algo que tenha alcool), ja me habituei a permanecer totalmente lucida (talvez demasiado) enquanto outros a minha volta se soltam e revelam com umas cervejinhas e coiso e tal.

Fantastico tudo o que o alcool liberta nas pessoas. E eu na plateia, a assistir.:)

Ontem a noite, no meio de uma noite de copos entre amigos e conhecidos do mundo da danca oriental (nao posso mencionar nomes concretos), eu assisti - uma vez mais - a uma licao de como tudo funciona neste meio em que me movo.
Verdade, verdadinha: eu tenho compensado a falta de jeito para promiscuidade com talento e trabalho arduo mas, no fundo, sei que as estrelas se fazem atraves da caminha de uns e outros (que os conheco bem!).

Entre um vodka e um whisky, pude recolher os seguintes conselhos de uma pessoa poderosa do meio da Danca Oriental:

1. Devo despir-me mais. Sim, leram bem. Segundo este senhor entendido na materia (entendido, sim!!!), eu sou demasidado conservadora em palco e nao mostro carninha suficiente. Explicou-me - bendito whisky!- que mais de metade do publico vai com a esperanca de ver-me o corpo e nao a minha arte (grande balde de agua fria...enfim, ja estou habituada!).

2. Sou demasiado conservadora no vestir e na forma como lido com os clientes e lideres de turismo que trazem os turistas e locais ate ao meu espectaculo. Segundo a sua opiniao, eu nao falho como bailarina mas sim como a pessima RELACOES PUBLICAS que sou. Traducao: nao sou amiguinha do pessoal que interessa, nao recolho os numeros de telefone dos senhores que me trariam mais trabalho e fama e nao saio com uns e com outros (os que interessam, claro!).

Mesmo sem beber alcool, quem comecou a sentir-se enjoado ate as entranhas foi eu.
Afinal, a minha profissao resume-se a uma palavra singela: ARTISTA.
Nao sou prostituta, relacoes publicas, streap-teaser nem nada do genero. SOU ARTISTA.
Sera isto demasiado complicado de entender?!

A conversa azedou ca para o meu lado mas pude aperceber-me, sempre e sempre, de que sou uma agulha limpa num palheiro sujo. Nao sei como tenho sobrevivido e crescido no meio da lama sem me sujar.

Gracas a Deus!
Onde vou buscar energia para lutar contra o sistema, isso ja nao sei...:)


NOTA: A bela pintura que da inicio a este posting chama-se : Baco com duas ninfas e cupido e o seu autor e Caesar van Everdingen.




Cairo, dia 5 de Junho, 2010

Do Brasil, com Amor...

Tenho a agradecer, do fundo do meu coracao, aos poucos amigos SINCEROS que tenho na vida.Eles sao a minha fortaleza e razao pela qual sigo lutando por tudo o que sonho.
Ao Michel, que vive no Brasil ( o carinho, a amizade e os sentimentos verdadeiros nao conhecem fronteiras nem distancias geograficas), envio um abraco ENORME do tamanho da sua Alma.
Pois mais esta linda mensagem que me anima, sempre que a leio, o meu muito OBRIGADA!


A grande arte da Vida é Acordar depois de...
     um Sonho, levantar depois de um...
       Tombo, sorrir depois de uma Decepção...
          e nunca se Desanimar!!!!
            É olhar pra Frente...
              com a esperança de Vencer!!!


(Enviado pelo meu querido amigo Michel)

Cairo, dia 5 de Junho, 2010

Mensagem de um amigo querido (Obrigada, Michel!)


Eis a mensagem LINDA que o Michel me enviou.Espero que vos possa inspirar tanto como a mim:

A Aranha

Uma vez, um homem estava sendo perseguido
por vários malfeitores que queriam matá-lo.

O homem, correndo, virou em um atalho que saía da estrada
e entrava pelo meio do mato e, no desespero,
elevou uma oração à Deus, da seguinte maneira:

- Deus Todo Poderoso, fazei com que anjos venham do céu
e tapem a entrada da trilha para que os bandidos não me matem!!!

Nesse momento, escutou que os homens se aproximavam da trilha,
onde ele se escondia e viu, que na entrada da trilha,
apareceu uma minúscula aranha.

A aranha começou a tecer uma teia na entrada da trilha.

O homem se pôs a fazer outra oração,
cada vez mais angustiado:

- Senhor, eu vos pedi anjos, não uma aranha.
Senhor, por favor, com tua mão poderosa,
coloca um muro forte na entrada desta trilha,
para que os homens não possam entrar e me matar...

Então, ele abriu os olhos, esperando ver um muro tapando a entrada
e viu apenas a aranha tecendo a teia.

Os malfeitores estavam entrando na trilha,
na qual ele se encontrava,
e ele estava esperando apenas a morte.

Quando passaram em frente da trilha o homem escutou:

- Vamos entrar por esta trilha.

- Não, não está vendo que tem até teia de aranha?
Nada entrou por aqui. Continuemos procurando nas próximas trilhas.

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Fé é crer no que não se vê,
é perseverar diante do impossível!

Às vezes pedimos muros para estarmos seguros,
mas Deus pede que tenhamos confiança nEle
para deixar que Sua Glória se manifeste
e faça algo como uma teia,
que nos dá a mesma proteção de uma muralha.

Nunca desanime em meio às lutas,
siga em frente, pois Deus disse:

¿Diga ao fraco que Eu sou forte¿.

São nos momentos mais difíceis,
que encontramos em Deus a nossa força.
Cairo, dia 5 de Junho, 2010

O que já mudou em mim – Joana pós-Egipto


O ser humano é condicionado e condicionável. Disso não tenho a menor dúvida.
O meio ambiente que nos rodeia e as suas pressões específicas moldam comportamentos, gostos, atitudes e até – ouso dizer – a forma como o nosso cérebro funciona e reage às circunstâncias.

Desde que cheguei ao Egipto (como residente, como artista trabalhando entre egípcios e árabes), muito mudou em mim.
Eis algumas das coisas que posso destrinçar do meio do caos ordenado em que se tornou a minha vida:

1. Já não saio à rua vestida como quero. Cubro-me com roupas e óculos de sol (faça sol ou não, de Inverno e de Verão) para minimizar as possibilidades de assédio sexual.

2. Já não cumprimento homens com um beijo na cara. Na maior parte das vezes, nem um frio aperto de mão entra na equação. Questão de hábito (homens e mulheres não se tocam, fisicamente, em países como o Egipto) e protecção instintiva contra – mais uma vez! – o assédio que chega das mais variadas formas.

O toque é altamente erótico para os egípcios/árabes.

Mulheres tocam outras mulheres e homens tocam – e beijam abundamente – outros homens mas não existe contacto físico entre sexos diferentes (excepto na intimidade de casais (i)lícitos).

Muitas mulheres até usam luvas compridas para não correr o risco de roçar os dedos das mãos pela mão de um homem que lhes passo um saco de supermercado ou que as atenda na farmácia. O exagero e a loucura chegam a este ponto.

Por essa razão e já sem pensar, eu deixei de cumprimentar homens como sempre fiz. Inclusivamente quando saio do Egipto e estou em países em que estas normas “anormais” não se aplicam.
Reacção já mecanizada.

3. Já não levo nada nem ninguém a sério. Arma essencial de sobrevivência no Egipto.

4. Não espero profissionalismo ou perfeccionismo da parte de ninguém. É uma luta inglória que só me esfrangalha os nervos a mim.

5. Começo a achar estranho se vejo um estrangeiro na rua. Mais estranho ainda se estiver vestido com braços ou pernas a descoberto. Dou por mim a olhar para o estrangeiro como se fosse um extra-terrestre (tal como os egípcios olham para mim).

6. Rio-me de tudo. Inclusivamente das pequenas e grandes tragédias do dia-a-dia. O sentido de humor e a loucura são o chão que me permite continuar a viver aqui sem ter um ataque cardíaco.

7. Sou um radar de duas pernas. Habituada a defender-me até do ar que respiro, tornei-me numa espécie de radar de frequências. Desenvolvi olhos em todos os lados e consigo cheirar os perigos, ler o pensamento das pessoas que me rodeiam e ver no escuro. Estas são apenas algumas das qualidades que cinco anos de vida no Médio Oriente me ofereceram.

8. Sentido de sobrevivência agudo. Razões óbvias.

9. Audição hiper desenvolvida. Claro que será fácil entender que este sentido – a audição- teria de ser o mais desenvolvido mas nada poderia prever o quanto ele se apurou. Consigo escutar os mais mínimos sons, dissonâncias, tons fora de tom e detalhes ínfimos apenas perceptíveis aos gatos e cães (serei eu um vampiro?).

10. Uma atitude de defesa em relação às pessoas que me rodeiam. Por ser extremamente emocional, esta defesa é facilmente quebrada se eu sentir que tenho uma boa pessoa na minha frente mas, por norma, a minha armadura e escudo estão em riste tentando evitar mais ataques do que os que já sofri.

11. Perdi todas as minhas certezas, ideologias, crenças. O Egipto e a experiência de vida que nos dá arrebata-nos de tal forma que a nossa estrutura, como seres humanos, cai por terra.

Tendo visto o pior do ser humano – e, raramente, o melhor! – e tendo já vivido tanta coisa chocante (para o bem e para o mal), sinto o horror da nítida verdade: O ser humano é capaz de TUDO.

12. Ganhei o bem mais valioso: A capacidade de PERDOAR as sombras dos outros. A capacidade de NÃO JULGAR. A nobre consciência de que todos fazem o melhor que sabem e podem (mediante o seu nível de consciência e feridas).
Cairo, dia 5 de Junho, 2010

O terror do soutien vermelho (deveria ter cobrado bilhetes!)


Directos ao assunto:
Uma amiga minha ofereceu-me uma bela camisa castanha justinha o suficiente para não eu não parecer um saco de batatas (look que tenho adoptado, como defesa, com cada vez maior frequência) mas folgada nas zonas certas para que não se torne proíbida de usar numa cidade louca como o Cairo.
Perfeita para ir às compras, ao banco, etc.
Camisa perfeita para o lado mais “normal” da minha vida tão “anormal”.

Facto:
Os homens egípcios/árabes são frustrados (mentalmente, sexualmente, emocionalmente, talvez até biologicamente) e reagem a qualquer rabo de saias como um cão em época de acasalamento. A diferença entre os cães e os homens de cá é o grau de civilidade de uns e de outros. Os cães são mais civilizados, só sentem a urgência de acasalar em determinadas alturas do ano e tendem a ser cavalheiros com as suas fêmeas. O mesmo não sucede com os homens deste lado obscuro do planeta Terra.



Episódio “Soutien Vermelho” (Pois devia, DEVIA ter cobrado bilhetes!):

Lá vou eu descobrindo uma nova mercearia de bairro, desejando estabelecer uma relação cordial com o pessoal do sítio.
O empregado da mercearia segue-me e persegue-me entre filas de batatas fritas e pão baladi. Não sei se o faz com receio que eu roube alguma coisa ou para me ver o “bife” (talvez os dois!).
Reúno as coisas que preciso e dirijo-me à caixa para pagar quando se dá início a converseta do costume:
-De onde é? Ah, que giro...mas fala tão bem árabe...é casada? Tem filhos? Onde vive? Desde quando reside no Cairo? Tem cá família? Que faz? Trabalho, estudo, turismo? Que número de cuecas veste, etc...(o normal!)?

Quando tento cortar a conversa para seguir caminho, reparo que todos os presentes na loja se encontram especados a olhar para mim como se eu fosse a reencarnação de Marilyn Monroe (versão cansada).
Observo-me a mim mesma apenas para confirmar se me esqueci de vestir as calças (podia ter acontecido, tendo em conta o estado em que se encontra o meu cérebro neste momento) e, não sendo esse o caso, reparo – com terror mas uma surpreendente descontração – que tenho o botão central da minha camisa aberto.
Este local estratégico onde o raio da camisa nova se lembrou de se abrir calha mesmo, MESMO no centro do meu peito assim revelando um belo exemplar de peitoral português revestido com um soutien vermelho que fez as delícias do pessoal da mercearia.

Onde estavam os bilhetes para serem cobrados? Em vez de fechar o botão , como se nada fosse, eu devia ter cobrado pelo espectáculo.
Isto de não ter sentido comercial já me tem lixado mais do que a conta...
Grrrrrrrrrrrrrrr..........


Falha adicional:
Reparo que não trouxe os meus óculos escuros e esta simples falha causa sarilhos em qualquer rua de um Cairo que se preze. Vêem-me os olhos e lá saltam os comentários de cariz sexual e uma enxurrada de piropos que, em vez de me fazerem sentir bem, me fazem sentir desrespeitada e exausta de sobreviver a tanto assédio.
A camisa aberta e a visão do meu peito revestido a um (ocasional?) soutien vermelho já não eram suficientes...também tinha de levar os olhos ao descoberto. Mas que ideia a minha! Do que é que estava à espera, afinal?!