Thursday, December 9, 2010


Cairo, dia 8 de Dezembro, 2010


Isadora Duncan, a Mae da Danca Moderna ( 1877-1927)




"A Bailarina do futuro sera aquela cujo coracao e alma cresceram juntos tao harmoniosamente que a linguagem natural dessa alma se tornou a linguagem do seu corpo.
Esta e' a missao da bailarina do futuro.
Ela esta a chegar, a bailarina do futuro:
o espirito livre que habitara o corpo das novas mulheres;
mais gloriosa do que qualquer outra mulher que ja existira; mais bela do que todas as mulheres de seculos passados: a maior inteligencia no corpo mais livre."
Isadora Duncan
Se Isadora Duncan fosse viva, haviamos de ser grandes amigas!
Leio aquilo que ela escrevia e revejo-me totalmente. As suas palavras sao as minhas desde que me conheci por gente, entre passos e saltos balleticos que nunca me pareceram naturais e amorosos em relacao ao corpo.
Com a Danca Oriental, regressei ao natural e ao que diz respeito ao CORPO e a ALMA, muito alem de tecnicas rigidas e dor imposta.
As vozes do passado tornam-se as vozes do presente com impressionante facilidade.



Cairo, dia 9 de Dezembro, 2010






Em busca do traje certo






Consoante evoluimos artisticamente (em termos musicais, movimento e expressao emocional/espiritual), tambem a necessidade de trajes que acompanhem essa evolucao se impoe.
Os meus trajes sempre foram um pouco - o.k,muito! - fora do normal. Desenhei grande parte deles e tendi a escolher as roupas mais incomuns e personalizadas.
A questao e': existe um lado estetico ao qual nao posso fugir porque faz parte do trabalho de uma bailarina ( a face visual da danca EXISTE) mas eu nao quero ficar presa e limitada por ele.
Por isso, e cada vez mais, procuro trajes diferentes (em direccao a simplicidade) que sirvam a DANCA e aquilo que eu pretendo transmitir. Trajes que permitam o MOVIMENTO e nao me magoem nem sejam desconfortaveis. Tenho uma serie deles - dos desconfortaveis - pendurados no quarto das arrumacoes, sem uso e a ganhar po.
Em nome da beleza, muitas bailarinas cedem ao uso de trajes que nao sao os mais beneficos para o corpo e com isso perdem liberdade de movimentos, relaxamento e prazer. Claro que sempre se pode ignorar a dor de um soutien lindissimo mas doloroso de usar mas a liberdade de movimentos e o sentimento ficam comprometidos.
Cada vez mais frequentemente, sonho com tunicas e pecas simples feitas de materiais leves e transparentes. NADA que me condicione...hhmmmm....
Precisamos de uma DESIGNER para o novo milenio de danca...
Candidatos???

Tuesday, December 7, 2010



Cairo, dia 7 de Dezembro, 2010




P.S.




Para quem ficou a magicar porque raio eu coloquei fotografias de caes no post anterior dedicado a minha querida mae (sim, a minha mae sera a primeira a colocar essa questao), aqui fica o esclarecimento:


1. Eu adoro animais e a minha mae tambem.


2. Estas fotografias (retiradas de um blogue da cadela de uma amiga minha - sim, a cadela tem um blogue! Habituem-se a impossibilidade do IMPOSSIVEL!) reflectem um estado de amor puro que exprime aquilo que sinto pela minha mae.


3. Podia ter colocado fotos minhas, da aniversariante ou de nos as duas mas isso seria tao previsivel e, a esta hora do campeonato, penso que ja todos sabemos que eu posso sofrer de alguns males mas previsibilidade nao sera um deles.


4. O AMOR exprime-se de muitas formas. Eu gosto de encontra-lo nos lugares mais improvaveis.


P.S. do P.S.: FELIZ ANIVERSARIO, QUERIDA DEDAS!

" I LOVE YOU, BABY!"

(depois de teres iniciado, com tanto entusiasmo, o teu curso de ingles, ja podes traduzir esta frase.:)



Cairo, dia 7 de Dezembro, 2010




Amor!




E os desejos -atrasados - de PARABENS para a minha Dedinhas, a pessoa que eu mais amo no mundo, a minha progenitora (mae adoptiva que me resgatou aos ciganos) e a unica pessoa no mundo a quem eu peco conselhos (o que nao quer dizer que os siga sempre!:) e em quem eu confio mais que na propria vida.
Aqui vai o meu PARABENS pelo teu aniversario com um simples "Adoro-te" e um "Obrigada" pela referencia de MULHER que sempre foste e continuas a ser na minha vida.
Sou quem sou por tua causa!
P.S. E por causa da "waka-waka", mas isso ja e' outra historia.

Comprovising with her accordeonist



Esquecam o titulo estranho deste video ("comprovizing" nao quer dizer nada em ingles nem em nenhuma lingua que eu conheca mas enfim...misterios do Universo para serem degustados e jamais entendidos) e concentrem-se no conteudo do mesmo.

Tal como acontece com a totalidade dos meus solos de acordeao e tabla (os que veem ao vivo e em video) sao totalmente improvizados e isto significa que nao ha forma de repetir o que se fez de um espectaculo para o outro.
Tenho recebido pedidos variados de todas as partes do mundo para que grave os temas do meu reportorio em cd mas isso seria impossivel devido a quantidade astronomica de musicas com que trabalho diariamente desde que comecei, ha quatro anos (voaram e parecem-me um seculo!) a actuar com a minha orquestra no Egipto. Tambem se torna impossivel devido a esse caracter de IMPROVIZACAO total que nao se pode conseguir em estudio nem reproduzir em varios "takes".

Esta e' a frustracao e a MAGIA da criacao LIVRE e irrepetivel a que me entrego a cada noite de espectaculos. Tudo depende da minha disposicao e da emocao do musico, do ceu estar limpo ou enevoado e dos atomos e estrelas rondando o palco. Misterios...ninguem sabe de onde vem o que ali chega, em forma de musica e danca. Vem de Deus, do NADA e do TODO. E ja alguem viu - ou ouviu- o NADA e o TODO captados em estudio com o fim de serem comercializados num cd?!

Nao creio...:)
Para testemunharem a magia destes momentos unicos - brisas que nos acariciam a pele e que jamais agarramos - terao de me ver dancar, ao vivo, com a minha orquestra. Se eu estiver num dos meus "melhores dias" (que pode ser um dia particularmente triste), entao vao ver-nos voar juntos...eu, a orquestra e o publico...e tudo isso continua a ser impossivel de ser captado por maquinas, por mais sofisticadas que elas sejam.

A maravilha de ainda sermos humanos...

Sunday, December 5, 2010

Diana Krall - Temptation : Montreal Jazz Festival 2004 Live



Fantastico...

Temptation.
Tentacao.
Irresistivel.

(E pergunto eu: porque fugir a tentacao se tudo e' BOM e MAU, se a lagrima ja e' o suor do riso?)
Cairo, dia 5 de Dezembro, 2010

Cores do Egipto!

Nao ha como fugir da loucura permanente da vida ca deste lado do rio Nilo.
De por onde der, aborrecimento sera uma palavra impossivel de aplicar a estes dias e noites que se multiplicam como uma montanha russa onde me lanco sem medo.

Enquanto me preparo para actuar num casamento egipcio num clube VIP que outrora foi palacio de repouso do ilustre antepassado egipcio Mohamed Ali, deparo-me com uma excursao de mulheres egipcias que irrompem pelo camarim adentro para rezar.

Aviso que o camarim esta ocupado - "hello! I am here! "- e que tenho de despir-me e coisa e tal...bla, bla, bla, whiskas saquetas. O meu pranto e' ignorado pelas mulheres que olham para mim, fascinadas, enquanto se descalcam e estendem tapetes no chao para a oracao.

Explico ao meu assistente que nao posso preparar-me para o espectaculo rodeada de um grupo de mulheres prostradas no chao clamando a Ala e mirando-me, pelo canto do olho, como se eu fosse a encarnacao pura de Paul Newman (mas ainda melhor, se isso for possivel!).

Elas desviam-se da minha roupa de palco porque e' "haram" (proibida por Deus, considerada malefica) e falam com entidades que lhes foram indicadas pelos "sheiks" das mesquitas e pela carneirada dos seus pais e avos.
Repetem gestos vazios em nome de Ala enquanto me fitam com um misto de admiracao, inveja e reprovacao.

Observam-me ate ao mais infimo detalhe e eu vejo-as a elas, fingindo rezar ou fingindo-se a si mesmas, atraves do espelho onde retoco a maquilhagem e arranjo o cabelo.

Oico um miar agudo que vem debaixo de um armario antigo ancorado ao lado do lavatorio.
E' um gatinho bebe assustado que, gracas a Deus, assusta o mulherio prostrado e as leva dali para fora, evitando um motim (levado a cabo por mim, farta de ser observada ou por elas, indignadas pela presenca "suja" de uma bailarina).

Os egipcios, por norma, ficam histericos com a presenca de chuva ou animais. Fogem de ambos como o diabo da cruz e ainda bem que assim e'.
Como Deus nao enviou chuva para o camarim, teve a amabilidade de enviar um singelo gatinho que deixou o mulherio histerico. E eu canto em forma de gospel (com peruca afro e tutti!):
I love you, LORD!!!


La me entendo com o gato, agradeco-lhe ter expulso os abutres islamicos e seus olhares prescrutantes e sigo para o espectaculo onde encontrarei estas mesmas mulheres.
Ali, longe do camarim, do gatinho aterrorizador e dos meus trajes anti-islamicos elas revelam-se tigresas a solta na Savana. Aplaudem, pedem-me beijos, abracos e fotografias.
No camarim eu era a meretriz, a amante do Mefistofeles, a pecadora e causa da queda da Humanidade e arredores. No palco, sou uma Deusa!

(Que parte da logica e' que eu nao consegui entender???)

Vamos la nos compreender estes egipcios!

Danco em frente ao lago onde se banhava o rotundo (quero dizer, gorducho!) Mohamed Ali e so vejo cores a minha volta. O som da orquestra (25 musicos concentrados num palco pequeno) embriaga-me, as luzes apontadas a minha cara confundem-me os passos e eu ja nao sei onde se encontra o norte e o sul. Sei, porem, quem sou e o que estou a fazer ali e assim danco. Para mim, para o rio, para as mulheres egipcias que encontrei no camarim e me irritaram ate ao tutano, para os seus maridos que me olham felizes com aquela bonomia de quem sabe que tudo aquilo e' areia demais para os seus camiozinhos (ou carrinhos de mao, por assim dizer).

Viro-me para os meus musicos e passo o olhar pelo meu decote. Um dos peitos esta quase, quase de fora, dizendo "Ola" ao pessoal. Ai, que vergonha...
Depois de soutiens e saias abertos em palco, trambolhoes maquiavelicos ao nivel acrobatico do "Cirque du Soleil" e outros contratempos que ja acho normais, que impacto tera um mamilo fora ou dentro do vestido...Meu Deus, sera que estou a perder a nocao de ridiculo?
Sera que ja nao sei onde se encontram os limites da decencia?!

Ajeito o soutien, tento olhar alguns dos meus musicos na cara, procuro uma referencia familiar a que me agarrar um pouco para nao flutuar totalmente no vazio.
A intensidade das luzes e a urgencia do AGORA (ha publico a entreter...the show must go on...) impedem-me de encontrar essa ancora.
Sigo flutuando no vazio. As estrelas miudas, quase imperceptiveis, flutuam comigo no ceu e dentro de mim.

Final:
Sucesso.
Abracos.
"Ela e' mesmo estrangeira?"- Perguntam eles.
A estrela do momento. (Rio-me porque sei que tudo e' ceu e tudo e' CHAO).