Friday, June 3, 2011









Cairo, dia 3 de Junho, 2011






Segue-se um definitivo retiro (regressarei quando puder a esta esfera cibernética!) e eventos a seguir!



Anuncio uma partida definitiva a todos os seguidores dos meus blogues. Nao quero dizer com isto que desaparecerei do mapa cibernético para sempre mas o tempo da minha ausencia é indeterminado devido ao monumental salto no escuro que dou, AGORA.

Sem mais nem porques, avanco apenas algumas notícias breves de eventos que se seguem para todos os interessados na Danca Oriental "a minha maneira":


1. Caso passem pelo Cairo nos próximos meses, nao hesitem em contactar-me através do email: dancemagica@gmail.com para marcacao de aulas particulares (um aluno e pequenos grupos) ou para verem o meu futuro espectáculo fixo aqui na terra das - loucas e empoeiradas - Piramides!


2. Workshop especial "OM KOLTHOUM" em Portugal (Lisboa) no dia 27 de Agosto.

Mais detalhes disponíveis no Facebook e, brevemente, neste blogue.

Vida e obra de Om Kolthoum, técnica e interpretacao estilo mais desafiante e sensível do repertório de Danca Oriental.

Coreografia e técnica acompanhados da minha experiencia e amor acumulados no Egipto!

Para informacoes detalhadas, por favor, contactem-me através do email: dancemagica@gmail.com



3. Workshops e espectáculos em Itália, Estados Unidos e Espanha...e muito mais.


Acompanhem as novidades e DANCEM/VIVAM muito e TOTALMENTE!






Clarice Lispector.

Iluminando. Tudo!

Porque a VIDA é feita para os VITORIOSOS, jamais para os amantes da derrota e vítimas de si mesmos...
Para inspirar e empurrar-nos para a frente, para dentro e sempre para CIMA!




Cairo, dia 3 de Junho, 2011






As devassas.






Se há coisa que o Egipto me ensinou, através de muita tortura, assumir quem sou com total liberdade e nao me importar com o que os outros pensam de mim. Vivendo num mundo feito de hipocrisias, traicoes e diplomacias que disfarcam facadas nas costas de toda a gente, aprendi que MANTER e FORTALECER os meus valores e carácter era a única forma de nao me transformar num dos muitos monstros loucos que povoam este mundo desalmado no país de passado glorioso.



Para onde foi a ALMA do Antigo Egipto e seus incríveis feitos e inteligengia?!









"Down the toilet of time, my dear..." - Posso escutar o nosso Senhor Cronos, respondendo-me, paciente e exausto, do mais fundo dos tempos.






Em processo de mudanca de casa, mais uma!, vejo-me a maos com o usual dilema: como evitar falar sobre a minha profissao ao potencial senhorio que me alugará a casa.






Trata-se de uma fuga policial, um puzzle ao qual nao se encontra solucao.



O senhorio quer saber qual a minha profissao, mais por curiosidade e amor ao mexerico do que por razoes utilitárias, e eu sei que a proclamacao da minha profissao significará dois possíveis finais: ou o senhorio se nega, imediatamente, a me alugar a casa alegando que eu comerei homens ao pequeno-almoco e organizarei orgias báquicas todas as noites ou ganharei um admirador instantaneo que me vai perseguir ou visitar, sem se fazer anunciar, usando apenas um roupao de puro algodao egípcio e um olhinho confiante que pisca e me convida ao "regabofe"!






Como já nao tenho paciencia para estas experiencias inter-culturais (reminiscentes de todo o atraso mental deste mundo), criei uma identidade que serve a todos e me poupa algumas amargas aventuras.



"Sou professora de danca. Só para mulheres!"



E está feito. Fico entao pendente numa resposta que nao me define o suficiente mas que me coloca em terreno mais seguro. "Só para mulheres."






Nao posso, no entanto, deixar de sentir que me traio um pouco a mim e ao orgulho que sinto na minha profissao e carreira. O que também nao posso é deixar de admitir que existem momentos em que dizemos a nós próprios :"Que se lixe! Só nao quero que me chateiem os....PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII...." a boa maneira portuguesa.




E a vida desenrola-se desta forma, entre o orgulho de quem se é e a necessidade de pintar a realidade um pouco, mesmo a revelia do nosso carácter e dignidade próprios, para evitar uma dor de cabeca desnecessária. Mais uma!




"...porque tu sabes, que é de poesia minha vida secreta!" Renata lobo: "Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida ...

Florbela Espanca, citada por Renata Lobo no meu blog favorito!
Falando assim, de coisas, de si mesma, de mim. De todos nós...




"...porque tu sabes, que é de poesia minha vida secreta!" Renata lobo:
"Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida ...
: "'Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferent..."



Cairo, dia



3 de Junho, 2011







Conversas trocadas.





Ai, meu Deus! Querido Alá, seu Profeta e todos os outros que vieram antes e depois dele...


Oh, dear Lord...



Este mundo egípcio ainda me vai deixar louca, mais do que já sou (difícil, mas possível!).



Eu tento, juro que sim, entrar nesse mundo feminino do mulherio árabe/egípcio e aí ficar um pouco, nem que seja apenas meia hora, mas continuo a encontrar impossibilidades intransponíveis, falhas de comunicacao e um aborrecimento de morte.



Uma vez mais, uma rapariga egípcia tentou meter conversa comigo enquanto esperava um amigo num café perto de minha casa.



Aproximou-se e sorriu, como sorriem os bebés, e perguntou-me se me podia conhecer.



"Já vi este filme..."- Pensei eu e, ainda assim, resistindo este meu lado cínico de quem já viveu muito e aprendeu com esse viver.



- O meu nome é Samia. E o teu?



-Joana.



-Importas-te se me sentar perto de ti. Es muito bonita, sabias?



- Obrigada. Sim, senta-te aqui. Estou a espera de um amigo mas podemos conversar enquanto ele nao chega.



- De onde és? Es casada? Tens filhos? Onde está o teu marido? Onde vives?



Eu fiquei perplexa e desanimada, sem saber ao que responder primeiro e sem paciencia para a "conversa da treta" que se seguiria, invariavelmente.



Se usasse relógio, esta seria a altura em que eu olharia para o pulso e suspiraria "Bem, acho que o meu amigo nao vem. Se calhar, vou embora e ligo-lhe mais tarde."



Mas eu nao uso relógio e tenho muito pouca vontade de ser desagradável com uma pobre rapariga egípcia cujas intencoes sao, tenho a certeza, as melhores.



Em vez disso, tirei o meu "gloss" da bolsa de maquilhagem que levo na minha mala e coloquei-o na boca, olhando em volta, buscando uma resposta sucinta e satisfatória que encerrasse o questionário pidesco que se desenvolveria "ad infinitum".





Nao me ocorreu nada e, por isso, ali fiquei colocando "gloss" nos lábios e fitando o infinito, rezando para que o meu amigo chegasse depressa e me salvasse da entrevista de emprego " a la egipciana".



A minha entrevistadora nao desistiu nem se deixou abater pelo meu óbvio desinteresse.



- De que marca é esse gloss? L Oreal? Nivea? Podes mostrar-me a tua bolsa de maquilhagem? Que cremes usas e onde compras as tuas roupas?



Este é o ponto onde, nos filmes, se ve a personagem principal rodeada de mosquitos de toda a ordem a sua volta e ela se retira para o seu mundo próprio num silencio que é mais uma bolha paradisíaca de ar fresco. Só se veem os mosquitos - personagens enervantes - ao seu redor e a personagem principal sorrindo com ar lunático, embuída no mais profundo silencio.


Foi neste parentesis criado pelo poder fascinante da imaginacao (e capacidade de abstraccao em relacao ao mundo exterior) que eu fugi, quase sem querer, para um mundo só meu onde raparigas egípcias invasivas existem apenas como flores pintadas num papel de parede da casa da avó.


Nao sei por quanto tempo fiquei suspensa na minha bolha de ar respirável. Sei que o meu amigo chegou - arrancando um suspiro de alívio que se deve ter escutado no interior das piramides de Gizé - e que a melguita dispersou, desistindo de indagar sobre as marcas cosméticas da minha preferencia e detalhes vindouros sobre a minha vida privada.


E assim se vive por cá. Entre a realidade que me ensina e fortalece e a ocasional fuga da realidade que me permite manter-me mentalmente sana. Até ver...