Friday, July 22, 2011

Inquisicao "a la oriental" (sim, ela nunca esteve ausente e jamais se limitou a católicos e loucos)! Ali estava eu confiante, apresentando a proposta relativa ao maior espectáculo de Danca Oriental que o Cairo já viu, rodeada de programas, certezas e talentos (meu, de músicos e bailarinos que me acompanham neste projecto) quando dou por mim numa sala repleta de arabescos antigos num maravilhoso instituto musical cujo nome vou omitir por razoes estratégicas.

A ideia seria apresentar aos directores (e, claro está, seus assistentes e assistentes dos assistentes) o projecto e ver em que medida eles poderiam colaborar comigo nesta empresa monumental.

Chás foram servidos, "shishas" foram acesas, bigodes foram repenicados pelos seus orgulhosos donos e o inquérito a moda da Inquisicao espanhola teve início sem prévio aviso.
Fui bombardeada de perguntas tolas, desconfiancas, presumíveis impressoes de que eu propunha um espectáculo de "streap-tease" e a grande questao: "Mas voce vai MESMO apresentar DANCA ORIENTAL?". Isto dito com a mesma cara de quem me poderia perguntar se eu vou mesmo lancar fezes a cara do público!

Todo o meu currículo e referencias minuciosamente analizados por senhores de barrigas proeminentes que percebem tanto de arte como eu percebo de aeronáutica, olhares desconfiados e até assustados (sim, eu posso ser ASSUSTADORA quando em modo "DEFESA" a ataques sucessivos) e um chorrilho de perguntas que rodearam o mesmo tema mas nao pareceram ter fim.

Para estas almas - e todas as entidades "culturais" deste país - DANCA ORIENTAL EGIPCIA é sinónimo de sexo que se vende, mulheres semi-nuas e meio caminho andado para as chamas do inferno islamico.

Mordi o lábio várias vezes, agarrei-me a cadeira para nao me agarrar ao pescocinho gorducho e suado de um dos "gentlemen" que ali se armavam ao pingarelho e, por fim, as bruxas sentiram-se saciadas com as minhas respostas, grande parte das quais nao compreenderam devido as suas limitacoes mentais.

Claro está que o Inquérito/Tortura ocorreu no mais escorrido dialecto egípcio e, mais uma vez, com a sensacao ácida de que tenho de LUTAR e LUTAR e LUTAR mais uma e outra vez pelo DIREITO a EXERCER a minha ARTE.
Nao, nao basta ser a melhor no meu trabalho. Nao basta ser apreciada pelo público, seja ele egípcio ou estrangeiro, nao basta nada do que já fiz até agora.

No final das contas, ainda tenho de me submeter a questionários idiotas por parte de gente ainda mais idiota para que me seja dada a oportunidade de exercer a minha ARTE.

Se me sinto revoltada? Claro que sim. Mais que revoltada, exausta. Da luta, da ignorancia, de ter de fazer frente a pessoal mais estúpido do que uma porta pelo simples facto de que sao estas as pessoas de quem depende a evolucao da minha carreira.

Frustrante. Muito!
Irritante. Sem dúvida.
Necessário? Nao tenho a mínima dúvida que SIM.

Nao é por acaso que afirmo ter na Danca Oriental uma MISSAO de vida. E por ela atravesso todo o tipo de desertos consecutivos. Até chegar ao meu oásis.
Diz-me a experiencia a intuícao de quem já passou por muita areia...

Edward Scissorhands - Ice Dance / Snow Scene



Apologia da Inocencia, Idade da Inocencia, Amor ao que ainda existe de Inocencia no coracao humano.

Cá para nós que ninguém nos ouve, aqui está uma das qualidades humanas mais subestimadas -ou até pouco apreciadas, alvo de escárnio - e, certamente, uma das pérolas que mais me encantam nas raras pessoas que ainda conseguem viver neste mundo desalmado e, ainda assim, manter a sua inocencia intacta ou apenas sobrevivente.


Inocencia: Resistencia mais que inteligente a tudo o que nao dignifica a melhor parte de nós mesmos.
Caixa de tesouros que ve a CRIANCA que fomos palpitando em belezas múltiplas dentro do nosso peito, teimosa na sua resolucao de nao se deixar desencantar pelas coisas feias deste mundo e dos seus habitantes com amnésia de coracao.
Capacidade de nao perder o brilho nos olhos e sempre conseguir ver a cores bonitas entre a mais profunda escuridao.

Inteligencia do coracao mascarada de tolice mansa.
A alma, chamando por si mesma, agarrando-se a sua própria cauda nao deixando que o HUMANO se perca do melhor de si mesmo, sendo esse mesmo aquilo que o define como SER HUMANO.



No Egipto,em particular, a inocencia é vista como sinal de estupidez em estado agudo, parolice, atraso mental, perversao da natureza. Quem tiver a coragem de admitir que ainda guarda inocencia no coracao, cá por terras egípcias, é alvo de riso fácil (sempre nas suas costas pois é falta de educacao rirmo-nos de alguém na sua cara!) e esmagado como um insecto minúsculo, insignificante e irritante.

Juntamente com a honestidade e a coragem, duas qualidades suficientes para me fazer apaixonar por uma rocha se ela as tiver como suas, só a presenca da Inocencia me encanta.
Digamos que é água pura no meio de muita sede de beleza, uma lufada de ar fresco no centro do sufocante e sujo ar que respiramos, uma Luz no meio da escuridao.

Que fazer? Sou apologista da Inocencia. Gosto dela. Em mim, nos outros. Certamente, nas criancas e nos animais onde ela ainda palpita a olhos vistos.


Nao será de estranhar que adore também o filme do genial Tim Burton, "Eduardo Maos de Tesoura" e todas as suas implicacoes.
Eduardo é uma espécie de Frankenstein, um ser inacabado mas com a pureza daqueles que nunca tiveram de deparar-se e defender-se com a maldade e pequenez humanas. Confrontado com o mundo exterior e suas perversoes, a sua INOCENCIA e PUREZA de coracao é tida como um já referido atras mental e por isso ele é enganado, usado, abusado e ferido ao ponto de ter de regressar ao castelo onde nasceu nas maos de um cientista visionário.

No decorrer dessa incursao ao mundo dos "humanos" tao pouco HUMANOS, Eduardo experiencia o AMOR, a AMIZADE e a LEALDADE sem que os seus mais experientes e adulterados companheiros se apercebam da riqueza que ele representa.

Para mim, este filme personifica a INOCENCIA e toda a alta Sabedoria nela presente, a beleza e o aroma a flores frescas que ela é. Sempre. Independentemente de quantas possamos ser desiludidos, magoados, traídos, despedacados.

Eduardo Maos de Tesoura é a água pura que corre, imparável, contornando os rios mais poluídos do mundo. Em direcao ao Oceano. Desaguando sempre na Eternidade.









Gueishas e samurais...









Pergunto-me porque será que me senti atraida pelas biografias de duas famosas gueishas japonesas no processo de escrita do meu próprio livro.






Sabendo que sofro do estado de leitura aguda compulsiva e fitando, com algum pavor, para as pilhas de livros por ler acumuladas nas prateleiras da minha casa cairota, ali mesmo decidi que nao leria nada enquanto nao terminasse a escrita do meu livro.





Esta decisao foi tomada com alguma tristeza mas com totais razoes de ser.







Primeiro que tudo, queria concentrar-me na escrita de algo MEU, nao na leitura de algo escrito por outros.







Em segundo lugar, preferia evitar sentir-me directamente influenciada por determinado livro durante o processo da minha escrita. Gostaria de ser assim, uma folha em branco com memórias de coisas belas no coracao.








Procurava o vazio para apenas aceder as minhas próprias vivencias e pontos de vista sem ser contaminada por talentos literários alheios.




Esta decisao, vejo-o agora, foi mais que acertada.







Porque será entao que senti a compulsao de ler duas biografias sobre gueishas famosas de um Japao já desaparecido?! Porque as gueishas e seus companheiros samurais? Que relacao possuem elas com a Danca Oriental e suas bailarinas?!










O meu instinto louco-freudiano diz-me que entre as gueishas japonesas e aquilo que se espera das bailarinas de Danca Oriental nao existe tanta diferenca quanto possa parecer, numa primeira instancia. E maravilho-me com o horror da comparacao e das semelhancas mas, como dizem os sábios, só a VERDADE nos liberta.











Em liberdade, sem medo das verdades...








Aqui vou eu, lancada ao Japao e suas amendoeiras em flor, mulheres fantasmas cuja funcao era entreter e seduzir os homens ricos/poderosos da regiao com seus talentos, pontes hollywoodescas e tamanhas contradicoes em mundos nos quais me movo sem jamais fazer parte deles.



Livros da minha compulsao:


1. Madame Sadayakko, The gueisha who seduced the West

Autora: Lesley Downer


2. Geisha, a Life

Autora: Mineko Iwasaki

Tuesday, July 19, 2011

Joana Saahirah of Cairo dancing Om Kolthoum



Mais um feliz lembrete em relacao ao meu
WORKSHOP OM KOLTHOUM no dia 27 de AGOSTO, em Lisboa.

Indicado a todos os alunos de Danca Oriental que tenham um ou mais anos de prática assídua desta arte ou/e profissionais.

O mundo fascinante de OM KOLTHOUM, a maior cantora de todos os tempos, e como interpretar a riqueza desse mundo através da Danca.

Detalhes sobre o evento nos meus dois perfis do Facebook e informacoes adicionais através do email: dancemagica@gmail.com

Entrevista a Joana Saahirah do Cairo



Ai, se eu soubesse o que sei hoje!
E só se passaram uns 5 mesitos...

Falava eu nas mudancas e na esperanca de um Egipto melhor e justo.
Continuo a desejar o mesmo, embora a realidade pós-Revolucao me mostre que este mundo está mesmo entregue aos políticos, diplomáticos aprendizes da mentira e aos ladroes que acham que poder e dinheiro lhes garantirá vida eterna.

Ao passar pela famosa Praca da Libertacao ("Middan Tahrir"), a única liberdade que senti foi a dos gases e micróbios que ali se concentraram.
Ele é acampamentos "a la Costa da Caparica", ele é concertos "baladi" e Djs em toda a parte, novos comerciantes de bandeiras e t-shirts com mensagens xicas espertas sobre o orgulho de ser egípcio e uma palhacada digna do tempo áureo do Circo Chen!

Mendigos, desempregados sem sítio para onde ir, fezes lado a lado com fogoes cozinhando "molokheya" e pessoal apanhando banhos de sol enquanto canta hinos patrióticos e mal diz Hosny Mubarak com o a vontade que, outrora, houvera sido substituída por terror e opressao.

Sim, continuo a sentir um imenso orgulho nos egípcios educados e lúcidos que arriscaram a vida por uma MUDANCA justa e tao merecida neste país mas sei ver quando o CAOS se instala num país onde o caos já estava na ordem do dia. Digamos que houve uma redefinicao de CAOS e aquilo que nós pensávamos ser confuso, desorganizado e corrupto, multiplicou-se como as baratas do meu "post" anterior e ampliou-se até dimensoes imprevistas.

De mao no nariz (o cheiro nauseabundo que cerca a praca da Libertacao é para Rangers e pessoal que lida com esgotos, nao para bailarinas com hipersensibilidade a odores) e boquiaberta, assisti ao resultado aparente de uma Revolucao que nenhum egípcio sonhou para si.

Como, par a par com o caos, sempre existe lugar para milagres, eu espero ver no Egipto a REVOLUCAO REAL que só acontecerá quando o país acordar do seu torpor pós-revolucionário e levar a sério o significado do que foi iniciado. Creio que Revolucao nao inclui palcos com cores garridas e Djs malucos liderando desempregados mal em bailes improvisados sem final previsto...

Nao acredito que aquilo que vi, com os meus próprios olhos, na Praca da Libertacao tenha o que quer que seja a ver com a REVOLUCAO que o Egipto merece ter.

E rio-me da minha própria ingenuidade por acreditar, tao cegamente, em milagres!

La Cucaracha song (Los Platanos)




"La cucaracha ya no puede caminar..."
(snif, snif, snif).

Homenagem - sempre singela, sei lá eu porque! - a todas as baratas, seus parentes e amigos que eu encontrei na minha nova casa aqui no Cairo. Parece que, para a maioria dos egípcios, a convivencia amigável e doméstica com "las cucarachas" é algo normal e, quem sabe, até desejável.
Se esta "normal" convivencia tem algo de tradicao faraónica ou nao, eu já nao sei.

O que sei é que tive de desinfestar a casa enquanto dava aulas particulares e enquanto coreografava Om Kolthoum. Quem diria que uma invasao de baratas, sua subsequente chacina e Om Koltoum poderiam ser servidas todas no mesmo prato?!

Digo adeus - espero! - as baratinhas que me vieram dar as Boas Vindas egípcias lá em casa e rio-me, cá para comigo, ao ver tantos e tao pequenos absurdos a minha volta. Surpreendida por constatar também que o instinto de sobrevivencia que estas meninas carregam e a sua capacidade de resistencia face as mais adversas condicoes "atmosféricas" sao, curiosamente, muito semelhantes as que encontro no meu carácter.
Estarei eu a comparar-me com "las cucarachas"?! Talvez isso soasse deprimente a maioria do pessoal que conheco. Para mim, esta comparacao tem em si o gérmen do riso, do sentido e do elogio.

E aqui fica a minha vénia e um doce e sentido "au revoir" dedicado as baratas egípcias que, outrora, viviam na minha actual casa.





E como se abusa da ignorancia por estas terras sagradas do Egipto...meus deuses e profetas de todas as religioes e ilusoes...

Aceitar a ignorancia alheia, como aceitamos e admitimos a nossa, é sinal de maturidade.
E aceitar o abuso exaustivo dessa mesma ignorancia? A mistura explosiva entre a extrema, até cómica, estupidez e a mais ferrenha e orgulhosa ignorancia? Maninhas e maos dadas, caminhando pela estrada negra dos que pensam que tudo sabem.


Aceitar o abuso sistemático e profundo desta cereja em cima do bolo a que chamamos ignorancia significa o que?
Será caminho directo para a Santidade?!
Se for este o caso, passem a chamar-me Santa Joana, se fazem favor.
E que Deus esteja convosco (bencaos dadas pessoalmente só sao dadas consoante prévia marcacao).