Saturday, June 27, 2009


Cairo, dia 25 de Maio, 2009


“1º GRANDE WORKSHOP MINISTRADO POR JOANA S. NO CAIRO

Dias 25,26,27 de Maio e 1,2 e 3 de Junho PLUS Workshop intensivo de dia 8 de Junho até ao final de Julho (2ª e 4ª feiras, das 12.00h às 13.00h)”

Foi com um enorme prazer que acumulei à minha actividade de espectáculos mais um desafio que tinha rejeitado desde que deixei Portugal: ensinar regularmente Dança Oriental no Cairo.
O convite partiu de uma amiga minha brasileira – querida Perereca, maravilhosa!!! – e tenho de dizer que foi um presente/oportunidade maravilhosa que só uma verdadeira amiga me podia oferecer.


O grupo com o qual comecei hoje a trabalhar é amoroso e muito empenhado e eu estou em extâse só de pensar nas imensas possibilidades e instrumentos de ensino disponíveis aqui no Cairo. Assim que dei o primeiro passo na aula de hoje, a minha mente começou a voar e a excitação de poder fazer algo de qualidade e originalidade na minha área deixou-me, como sempre, entusiasmada e com vontade de agarrar o mundo com as mãos! Os alunos poderão vir ver os meus novos espectáculos, poderei levá-las a um costureiro de trajes de dança, a um concerto de música árabe clássica, a um espectáculo de folclore, uma viagem de estudo ao Luxor...temos uma filmografia e discografia imensa à nossa disposição e todo o tipo de experiências que só o Egipto nos oferece e que tanto enriquecem a nossa aprendizagem.
Nada como o arrancar de um novo desafio para voltar a acender o fogo da minha vontade e da fé que trago cá dentro.


O centro cultural onde iniciei as minhas aulas encontra-se num bairro verdejante da zona de Maadi – onde resido – e é composto de um ginásio, salas variadas onde decorrem todo o tipo de aulas e cursos (danças, culinária internacional, artesanato, etc), uma loja com artesanato local produzido por comunidades beduínas, uma biblioteca, uma cafeteria com chás fantásticos e uma zona exterior com mesas e cadeiras cobertas por trepadeiras que nos protegem deste sol de Verão escaldante que já se faz sentir. Este é um lugar que eu frequentaria, mesmo que não aí desse aulas!


Confesso que estou apaixonada! A direcção do centro é totalmente estrangeira e, apesar de eu saber que soa muito mal afirmá-lo, devo admitir o meu alívio por saber que estou nas mãos de europeus e americanos cuja forma de trabalhar e ritmo de produtividade se aproximam aos meus. Quando já tenho de lidar 24 horas por dia com egípcios e árabes num trabalho como o meu – não me escapo, mesmo que quisesse! – sabe bem comunicar com pessoas com as quais tenho mais em comum e a quem posso compreender facilmente sem tantos equívocos, meios entendimentos, mensagens codificadas, enigmas de comportamento e mentalidade que eu não consigo compreender nem explicar....ufff! Por menos diplomático que seja, sei que o CSA é uma ilha povoada de estrangeiros e essa uma das razões decisivas pelas quais aceitei este desafio!


Adoro diferenças e choques culturais que me levem a reavaliar a minha própria forma de pensar e ser mas dou graças a Deus por ter a oportunidade de me evadir em locais como estes onde se ouve falar inglês, árabe, francês, italiano, chinês, japonês, filipino, espanhol (os idiomas que já apanhei!) mas, no fundo, o ambiente é ocidental com tudo o que isso tem de positivo. Um oásis neste deserto de loucos e figuras inesquecíveis que é o Cairo!
Cairo, dia 18 de Maio, 2009

“ Acabo de chegar ao meu Paraíso privado no Egipto!”

*** Existem muitos mecanismos de defesa contra as pressões e dificuldades da vida numa cidade como o Cairo. Existem fugas – conscientes ou inconscientes – e provas visíveis da forma como, dê por onde dê, os habitantes desta louca cidade têm, forçosamente, de encontrar escapes que protejam de senilidade precoce ou de tendências criminosas!
O haxixe e a sua propagação monumental um pouco por todos os sectores da sociedade egípcia, todo o tipo de drogas e prostituíção que se tornaram parte integrante e até socialmente aceite do quotidiano egípcio são prova de como, na maior parte das vezes, os escapes que escolhemos não são os mais benéficos.

*** Trabalhando numa área na qual preciso de um cérebro, de um corpo e de um coração sãos e claros, também eu busco essas formas de respirar fundo que me compensam do que veio antes e do que virá logo a seguir, as surpresas constantes– agradáveis e desagradáveis – os desafios para os quais eu raramente tenho armas sujas que sirvam, os imensos obstáculos já por mim referidos mil vezes.
Entre esses meus escapes, encontra-se a leitura – inglês, português, francês e espanhol...tudo o que me cative, desde arte a biologia – as idas ocasionais ao banho marroquino e às massagens, o treino no ginásio onde tenho tentado recuperar a minha prática de yoga e...umas mini-férias no Mar Vermelho, mais concretamente, em Nweiba.

*** Sonho com este pedaço de terra sempre que me encontro a caminho de alguma reunião ou espectáculo, encurralada no trânsito infernal do Cairo como uma sardinha enlatada, inalando um ar tão envenenado que nem os meus pulmões me pedem para respirar. Sempre que a pressão e os problemas se acumulam e a sua resolução não se encontra nas minhas mãos, sempre que a minha cabeça está prestes a explodir devido à sobrecarga de assuntos, prioridades e compromissos pelos quais apenas eu dou a cara, sempre que a realidade se torna demasiado pesada...sonho com esse pedaço de terra em Nweiba.

*** Fazendo justiça ao meu sentido aventureiro e, confesso, a alguma estupidez nata e tendência amnésica, concordei em apanhar o autocarro que me levaria até ao meu paraíso pessoal. A viagem faz-se bem de noite, eu adormeço que nem um bebé assim que o autocarro arranca e quando der por mim, já estarei em Nweiba!
Na minha sede de chegar ao destino tão ansiado, decidi não lembrar-me que a viagem dura cerca de 10 horas seguidas, existe tão pouco espaço entre uns bancos e os outros que as pernas de um ser humano regular ou até de um anão – como eu! – não cabem no espaço que a elas lhe é destinado, as poucas casas de banho existentes no trajecto são autênticas provas de sobrevivência a que qualquer Ranger ou Forças Especiais temeria fazer frente e o autocarro estava LOTADO.

*** Quantidade de mulheres no autocarro: Duas. Eu e mais uma holandesa gorduchinha que parecia fazer estremecer todo o autocarro sempre que se movia na sua cadeira.

*** Quantidade de estrangeiros no autocarro: Dois. Eu e a supra citada holandesa de carninhas abundantes. Pode parecer um comentário xenófobo mas só quem vive entre egípcios e árabes 24 horas por dia, durante todo o ano poderá compreender o alívio que é a presença ocasional de um estrangeiro que, para variar, não nos observe como se fossemos um extra-terrestre, não nos assedie sexualmente e não tente entabular conversas íntimas como se nos conhecessemos há vinte anos! Por mais que consiga ver o lado positivo dos povos que me rodeiam – a versão masculina desses povos, porque lido com muito poucas mulheres – a verdade é que a presença de estrangeiros num local fechado que partilharei com 60 pessoas, traz uma lufada de ar fresco e um sentimento de familiaridade e conforto que eu aprecio.

*** Onde fiquei sentada: O.k, aquela história de nos concentrarmos e visualizarmos o que desejamos para nós de forma a atraí-lo e deixar de lado os pensamentos e projecções negativas deve fazer algum sentido mas... a realidade é que eu me projectei deitada num confortável assento com dois lugares vagos só para mim e acabei sentadinha e encurralada ao lado de um senhor egípcio de carinhas ainda mais abundantes do que a holandesa deixando-me sem espaço para respirar ou sobreviver porque cada gesto meu passou a ser submetido ao escrutínio atento deste “gentleman” bem nutrido. O pior de tudo foi o pequeno detalhe do duche que este senhor não deve ter tomado nas últimas semanas e num mau hálito impressionante que colocaria o hálito do nosso cão Gil ou até mesmo a bomba de Hiroshima a um canto!
Entre a vontade de me movimentar e não o conseguir e as preces para que o senhor não bocejasse (“oh, não...lá vai ele de novo...nãooooo....por favor, não abra a boca!”), consegui encontrar uma posição bizarra de “yogi” na qual me pudesse aguentar – não sem dor! – as 10 horas de viagem ininterrupta e mentalizar-me para que o aroma “interessante” que se desprendia deste senhor não me aniquilasse como os gazes venenosos fazem aos seres humanos neste planeta Terra tão cheio de maravilhas e torturas inesperadas.
Horas de sono conquistadas: Talvez uma e não seguida. Por mais facilidade que tenha em adormecer em qualquer veículo que se mova, nem mesmo eu consigo passar ao lado de uma lata de sardinhas na qual estou metida com um senhor abençoado por divinas carininhas extra que não me deixa espaço para respirar com o volume do seu corpo e os aromas espectaculares que dele exalam quando abre a boca ou simplesmente existe, ali ao meu lado, persistentemente...que Deus o abençoe!




Incursões a w.c.s egípcios dos quais saí viva (embora não ilesa!): Duas. Depois de ter passado e sobrevivido pelas casas de banho na mesquita de Mohamed Ali – no Cairo – e da estação de comboios de Alexandria, já me tornei ilesa às terríveis possibilidades de horrores existentes nesta instituíção nacional que é o W.C. egípcio!




Ressonadelas do meu companheiro de viagem: Incontáveis. Entre o mau hálito e o concerto erudito que me ofereceu, não sei qual dos dois classificar como o mais fantástico!
Chegámos a Nweiba às 7.00h numa manhã para lá de luminosa que me pareceu mais uma miragem do que realidade. O sol já brilhava em todo o seu explendor e aquele ar “indefenível” que aqui se goza invadiu-me imediatamente como um amigo que nos dá as Boas Vindas a casa depois de uma longa e tortuosa viagem.
Uma série de taxistas beduínos atacaram o autocarro assim que este estacionou tentando angariar clientes para os seus veículos e para as suas mãos que se fazem pagar pelo simples transporte de uma mala ou uma simples informação.
“-Pode dizer-me que horas são, por favor?”
“- São 7.10h. Tem algum dinheiro que me possa dar?!”
Quando, depois de fazer o “check-in” no hotel e deixar as malas no quarto, tive o privilégio de mergulhar naquelas águas quentes e transparentes rodeadas pelas montanhas do Sinai e pela Arábia Saudita, não puder conter um profundo suspiro de alívio e alegria profundos. Tinha chegado ao Paraíso...aqui tudo se limpa e harmoniza. Aqui, os males do coração e o trânsito imparável da minha mente desaparecem como que por magia, preparando-me para regressar ao Cairo – o grande campo de batalha – com uma maior capacidade de decisão e de acção.
Entrei em transe face a este mar carinhoso que me embala. Dormi à sombra do chapéu de palha durante várias horas. Quando despertei, olhei à minha volta e custou-me a acreditar que estava, uma vez mais, no Paraíso. Tudo me pareceu um sonho...até que...




“Bom dia! Benvinda ao Egipto! Stá tudo bem? De onde és?” – Escuto um dos empregados do hotel gritar aos meus ouvidos depois de ter esperado, por momentos de doce ilusão, que não seria “atacada” por este género de mosquitos de praia...
“Bom dia. Sou de Portugal.” – Respondo eu de forma conclusiva e dirigindo o meu olhar a um livro que tenho na minha frente nitidamente tentando passar a mensagem de que não estou interessada no diálogo-inquérito- investigação policial que se seguirá e da qual eu conheço cada doloroso passo. O facto de eu mostrar completo desinteresse na conversa de ocasião não o desanima nem um pouco. Sempre admirei a persistência e resistência a recusas que a maioria dos egípcios alimenta e pratica tão maravilhosamente. A rejeição e um NÃO redondinho jamais foram razões para que desistissem de seguir em frente com o que pretendem e dessa atitude irritante muito teremos a aprender.
Sim, é por demais irritante a insistência com que nos tentam impingir produtos, serviços e pessoas mas é de admirar, simultaneamente, essa mesma persistência. Para quem desiste dos seus objectivos face ao mais pequeno obstáculo, sugiro que observem estas melgas rainhas da persistência!




Os empregados estão a fazer o seu trabalho, sei disso. É esta a forma que possuem de sobreviver ganhando algum dinheiro com marcações de massagens, viagens de barco, serviços variados e afins mas eu sei que antes de venderem o seu produto, lhes é ensinado a repetirem uma ordem precisa de questões que vão dar, invariavelmente, à vida privada dos turistas que se encontram na praia. Depois de perguntar-me de onde eu sou, sei que se segue a questão que introduz o primeiro passo de um longo inquérito que acaba em mexerico puro, muito distante dos objectivos profissionais que, à partida, os trouxeram até mim. Sei que pergunta se segue...e não falho!
“Estás aqui sozinha? Onde moras? Como é que falas árabe? De certeza que não és egípcia?! Onde está o teu namorado?” – Continua a melga profissional, apesar do meu óbvio desinteresse e expressão irritada. Fixo os olhos no meu livro, tentando que o guerreiro do mexerico se evapore de uma vez por todas.
Hmmmm...não sou assim tão sortuda! “Dream on, baby...”
“Vim com um amigo e falo árabe porque vivo no Egipto. Pode ir directamente ao assunto, por favor? Diga-me o que quer vender de uma vez por todas e saltemos esta lenga-lenga de perguntas inúteis, por favor...”




A melga olha para mim em estado de choque. Existe um silêncio entre nós que parece durar um século. Falar tão directamente a alguém sem floreados e desmascarando as suas intenções mais submersas sempre foi considerada falta de educação no mundo árabe. Segundo a tradição árabe, até as mais puras verdades deverão ser dissimuladas e colocadas à luz do dia de forma velada, subentendida e sempre com palavras bonitas. Dessa forma, podemos estar a mandar alguém dar uma volta ao bilhar grande mas de uma forma indirecta, coberta de mel que não é, no fundo, senão fel mas assim parece – à luz da ilusão que só os diplomatas conseguem criar – algo bonito e agradável. Um ladrão não se chama, segundo a boa etiquette árabe, ladrão mas sim agente desviante de objectos variados pertencentes a outrém. Chamar-lhe ladrão cara a cara parece ser mais grave do que o roubo em si.




Depois de recuperar do choque de ter encontrado uma estrangeira bárbara e incivilizada como eu, a melga profissional engoliu em seco e decidiu prosseguir com o inquérito, ignorando o meu pedido desesperado para que fosse directamente ao assunto: o que queres vender???
“Onde está o teu namorado? O que fazes no Egipto?” – Prosseguiu ele com o seu questionário ao qual eu respondi, concluindo muito claramente que não seguiria respondendo às suas questões.
A melga acabou por render-se e mostrou-me uma folha com a descrição de várias actividades aquáticas nas quais eu poderia estar interessada. Eu agradeci a informação e garanti que o contactaria, caso estivesse interessada nalguma das ofertas arrancadas à custa de tanta conversa vazia. Ele seguiu, cabisbaixo e ainda em choque, para um casal idoso que estava ao meu lado, começando por elogiar a beleza quase centenária da senhora e bajular o homem que, acreditando nas palavras da melga, era um digno representante dos “pachás” de outros tempos. Assisti à forma como a bajulação e falsos elogios lhe renderam uma boa gorgeta e como conseguiu levá-los a comprar viagens e serviços que nem sonhavam que existiam apenas pelo poder dessa instituição nacional egípcia que é a CONVERSA VAZIA (“kalam fadi”, como se diz em dialecto egípcio) e a BAJULAÇÃO.

*** Como em tudo o que acontece neste país, existe um lado negro e um lado luminoso de todas as realidades.
Depois de me livrar da melga profissional, respiro profundamente e começo a acordar de uma anestesia da qual não me tinha apercebido. Quando a realidade e tudo o que ela engloba é demais para os nossos sentidos, mente e coração, tendemos a ausentar-nos do estado de “sentir” normal de forma a recuperar forças, fé, energia e uma boa dose de humanidade que corremos o risco de perder no decorrer de tantas experiências que nos levam ao limite das nossas forças.
Acordando da anestesia geral na qual me encontrava, ganho coragem para fitar as montanhas mágicas e protectoras do Sinai, mesmo na minha frente. Não as sinto como paisagem longínqua mas como os braços de Deus acalentando, protegendo e afagando a minha alma. Dou graças a Deus pelo privilégio de estar aqui, uma vez mais.

*** Os jardins do hotel nunca estiveram mais resplandescentes. Flores exóticas e todo o tipo de vegetação frescos e mais vivos que nunca. Uma festa para os sentidos e para os variados pássaros que aqui constroem lares coloridos com o seu canto dia e noite. Tudo parece perfeito e a perfeição é um conceito que eu jamais associei ao Egipto. Maravilhoso, sim. Divertido e surpreendente, supostamente. Mas não perfeito. A perfeição não consta do dicionário egípcio. Ou não constava, até agora...


Cairo, dia 15 de Maio, 2009

“Nova Galeria de Fotos – por Alexandre Bordalo”

Nesta minha última passagem por Portugal, tive o prazer de ser fotografada pelo meu amigo e fotógrafo Alexandre Bordalo.
Já conheço o Alexandre e a Margarida – sua esposa - há alguns anos depois de ele me ter fotografado para algumas produções de revistas portuguesas. O reencontro não podia ter sido mais feliz e estão aí as fotografias que o comprovam!
Sendo amante de fotografia, não foi complicado para mim pousar para o Alexandre. Além do meu interesse por fotografia, adoro ser o objecto captado pela câmara como se isso me tornasse um pouco mais próxima da eternidade. Quando gosto da pessoa que me fotografa, deixo-me levar pelo diálogo silencioso entre mim e a câmara e permito que uma nova linguagem sem palavras possa criar realidades e momentos que ficarão registados para a posteridade.
O Hosny, o percussionista central da minha orquestra do Cairo, também apareceu em algumas dessas fotos. A figura deste personagem não poderia ter passado despercebida ao Alexandre, obviamente...
Nenhuma das fotos foi minimamente retocada com Photoshop ou qualquer outra forma de manuseamento de imagem. É dessa naturalidade e simplicidade que eu gosto. Sugiro que vejam a Nova Galeria do Alexandre Bordalo na GALERIA DE FOTOS do meu website (http://www.joanabellydance.com/) ou no meu FACE BOOK .Espero que gostem!
Cairo, dia 14 de Maio, 2009

“Estação de gaz e noite quente de espectáculos – combinação explosiva”

Bem, tentemos falar do assunto com alguma compostura e classe, se possível...por onde começar e como abordar um assunto tão pouco poético como um ataque agudo de flatulância a meio de uma noite glamourosa de espectáculos que duraram das sete da noite até quase às tres da manhã?!

Devo dizer, desde já, e em minha defesa que eu não sofro de problemas intestinais nem de ataques de gases como este que me visitou na pior das circunstâncias... o fascinante mundo dos enlatados, prisioneiros e afins não me é familiar (graças a Deus!) e daí a minha surpresa quando, entre um espectáculo e outro senti que a bomba de Hirsoshima renascera dentro da minha barriga, ameaçando destruir tudo e todos à sua volta. Sem aviso nem historial que o fizesse prever, vi-me com a barriga a rebentar de tanto gaz e eu sem saber que voltas daria à minha vida para evitar envenenar os pobres dos meus músicos – que até são bons homens e pais de família – e a audiência que não sonhava estar a presenciar uma estreia absoluta:
“Joana, a gaseificada!”

Terá sido sabotagem de alguma bailarina que pagou ao meu assistente para me “temperar” o chá com leite com algo que me desse a volta à barriga?! Hmmmm...tudo é possível.
Ao abrigo do meu camarim e enquanto mudava, uma vez mais, de roupa, os ataques passaram a ser tão constantes que eu pensei em sugerir ao técnico de som que vestisse um dos meus trajes, rapasse o bigode e se lançasse ao palco no meu lugar. O desespero atiça a imaginação e a necessidade é filha do engenho, de facto...

Aos ataques consecutivos de gases veio juntar-se uma diarreia bárbara que, com muita respiração yogica e pensamento positivo, se conseguiu manter sob controle durante toda a noite. A fome juntara-se à vontade de comer e eu ali, sem saber se aquele era um castigo divino ou a oportunidade de saber, em primeira pessoa, como se evacua um cruzeiro em plena navegação pelo Nilo. O poder dos gases portugueses poderia ter sido testado mas, ainda assim, preferi remeter essa fantástica experiência de uma vida para outra altura. “Save the best for last...”J
E lá me deparei, uma vez mais, com a contradição constante daquilo que a audiência vê e daquilo que eu sinto, por trás da maquilhagem, trajes, luzes e orquestra. Muitas vezes, a audiência vê sorrisos e dança que classifica como “fantástica” e eu choro por dentro (com ou sem gases). O espectáculo tem de ser feito a 100%, independentemente da minha disposição, estado emocional ou físico, inspiração ou até nível de gases no organismo. Diarreias e todo o tipo de ataques intestinais são brincadeiras de meninos e um profissional que se preza não se deixa abalar por tais contratempos! Não penso que tenha de actuar e fingir que está tudo bem, como uma actriz interpretando um papel agradável, mas tenho de conseguir transcender a dor e, neste caso, os gases e a diarreia sua companheira para evitar mortes de inocentes e um novo tipo de espectáculo que eu não me orgulharia de apresentar.
Cada vez que entrava em palco, imaginava uma casa de banho reluzente na minha frente e rolos de papel higiénico em vez de pessoas a aplaudirem...foi grave a este ponto! E, no entanto, sobrevivi e deixei que os demais também assim o fizessem, recordando espectáculos que o público terá descrito como “maravilhosos e cheios de gaz”! Nem eles sonham do que se salvaram...

“De regresso ao trabalho! Casamento de arromba...”

Cairo, dia 11 de Maio, 2009

“De regresso ao trabalho! Casamento de arromba...”

O regresso ao trabalho não podia ser melhor, apesar do braço de ferro que tenho travado com a gerência do local que tem o meu contrato de trabalho na mão.
Depois de me ter negado a actuar – resultado da ausência de pagamento pelo meu trabalho e uma nítida falta de respeito pelos responsáveis do local que não souberam valorizar aquilo que eu tenho provado valer, na prática, durante mais de dois anos de trabalho quase diário – vi-me numa medição de forças com homens no poder que nada sabem sobre gerência, boa educação e respeito. Este fenómeno é bastante comum no Egipto e resultado, sem dúvida nenhuma, das fortunas que se fazem através da corrupção e dos postos de poder que se conseguem através de artimanhas, traições, prostituíções de todo o tipo – aplicadas a mulheres e a homens – e aquela capacidade essencial num país como o Egipto a que se chama, em bom português popular, “ser-se chico esperto”. A inteligência e o mérito de muito pouco servem num país como este. Em vez disso, convém ter “olho e mão ligeiros”, saber quem bajular, a que portas bater e a quem se submeter de forma a conseguir favores – que têm, invariavelmente, um preço alto a pagar – que reverterão a nosso favor na forma de oportunidades profissionais e títulos.
Desde que me recusei a trabalhar sem o meu pagamento em dia e sem um pedido de desculpas formal da parte da gerência, vi o meu calendário de espectáculos reduzido a uma quinta parte do que é e distribuído por bailarinas que não são exigidas nem apreciadas pelo público como eu. Fui informada que este era um castigo a ser aplicado por insubornidação, visto que me foi implorado que actuasse nessa fatídica noite em que decidi que seria a última vez que era desrespeitada no meu trabalho.
Consigo escutar as vozes indignadas dos gerentes sussurrando entre eles: “Quem é que ela pensa que é?! Uma bailarina!!! Uma bailarina fazendo-nos frente...temos de a colocar no sítio!”
A verdade é que acabo por ser eu a colocá-los a eles no sítio deles, o mesmo sítio onde habitam os ignorantes e pobres de espírito.
Quando o chefe da minha orquestra e outros gerentes questionaram a razão pela injustiça aplicada ao meu calendário de espectáculos, foram informados que eu tinha sido rebelde e me tinha queixado que o meu pagamento não era feito há mais de 15 dias! Os pagamentos de toda a gente estão sempre atrasados e ela é a única que se queixa...com que direito?!!!” Foi esta a resposta que o descendente de Einstein deu aos pedidos de explicação daqueles que sabem que não sou apenas a bailarina mais apreciada daquele local mas também a mais cumpridora, bem educada e responsável em todos os aspectos do meu trabalho.
Como em tudo na vida...vejo neste braço de ferro ridículo uma oportunidade valiosa de mudança...e aqui vou eu que ninguém me pára!:)

*** Casamentos egípcios!


· O mercado dos casamentos é um dos mais férteis do Egipto e uma fonte considerável de rendimento e fama para os artistas que nele conseguem entrar. Os lobbys para entrar no fechado círculo dos casamentos egípcios são tão fortes como os que conheço nos “night-clubs” e hotéis mas, pouco a pouco e sem contactos que me abram portas, vejo-me a entrar nesse mundo paralelo onde os espectáculos ajudam a criar a memória de um dos dias mais importantes na vida de um ser humano. No caso dos egípcios, o dia mais importante das suas vidas, logo a seguir ao nascimento dos seus filhos.

· Normalmente, a entrada neste mercado é feita pelo lado da cama – o tradicional! – ou pagando consideráveis subornos às pessoas certas para que comecem a propor o nosso trabalho aos casais que recorrem a empresários e agências. Pondo de parte o caminho da cama, a questão é: a quem pagar?! Como? Quanto?

· Tal como sucede em várias outras áreas da vida no Médio Oriente, existem sistemas e verdades vigentes das quais jamais se fala como se de um comum acordo se tratasse sem necessidade de ser mencionado ou reconhecido como real. Ninguém me disse como funcionava o sistema de subornos para fazer avançar tudo e mais alguma coisa (e eu não fiz outra coisa senão questionar sobre o assunto) e, no entanto, eu aprendi à minha custa que é assim que tudo começa e avança sendo necessário um certo talento para ir ter às pessoas certas e gerir esse sistema silencioso em que todas as peças do “puzzle” se encaixam sem alarido nem complacência pelos valores e honestidade alheios. Tal como aprendi a falar o dialecto egípcio sem intermedários, também aprendo – mal e porcamente, devo reconhecer – como se tecem as malhas do submundo da dança no Cairo. Este não é o meu mundo e, no entanto, sou obrigada a nele veicular para poder dar passos valiosos na minha carreira. Como sempre, a história da flor de lótus reluzente no meio do pântano mais sujo...assim eu me sinto, lutando para me manter limpa e à luz do dia estando rodeada de pântanos com sapos feios que se fazem passar por príncipes encantados. Como andar pela lama sem me sujar, é essa a questão???

· O meu regresso à rotina de trabalho no Cairo não podia ter começado de melhor forma! Um casamento onde toda a gente parecia estar, verdadeiramente, feliz e onde foi tratada como uma verdadeira estrela!

· Pela experiência que tenho, já me apercebi que o trabalho de casamentos é de uma natureza especial e à parte do que se faz nos hotéis e night-clubs. O mais importante num casamento egípcio é contribuír para uma atmosfera de amor e alegria e dar tudo o que temos para tornar essa noite especial o mais feliz possível. A audiência participa activamente no espectáculo, mais do que já é costume e o objectivo máximo não é produzir arte mas sim levar os presentes a momentos de felicidade e união. O casamento e os noivos são os verdadeiros protagonistas deste tipo de espectáculo e não a bailarina. Entretenimento com sentimento e não tanto um espectáculo completo onde a ARTE engloba todo o tipo de sentimentos e “moods”.

· Ao contrário do que eu previa antes de ter feito o meu primeiro casamento, acabei por adorar este tipo de trabalho porque as pessoas que me contraram costumam ser – até agora – gente bonita, bem disposta e muito bem educada que sabe apreciar e tornar o meu trabalho ainda mais prazeiroso. Embora tenha o reportório condicionado à ocasião, os noivos e convidados costumam ser tão carinhosos e fantásticos comigo que acabam por compensar os limites que tenho em relação à escolha das músicas.

· Além disso, existe o factor da satisfação emocional de sentir o amor dos noivos, ver tanta gente feliz e em plena celebração, o brilho nos olhos dos que se amam e acreditam que tudo é possível e eu no meio desse oceano ainda infinito deixando uma marca numa noite que marcará a vida dos que se casam e me pediram a mim, exclusivamente, para os abençoar com a minha dança. Emocional e gratificante.

· Esta época de trabalho não podia ter começado melhor! VIVA O AMOR!

Lisboa, dia 29 de Abril, 2009


Dia Mundial da Dança!!!
· Festejar este dia em Portugal tem um sabor muito próprio.


· Escuto o som angelical do “espanta espíritos” do nosso jardim, vejo flores e árvores em movimento, oiço o vento por dentro e por fora de mim e sei que tudo isto é vida e tudo isto é, definitivamente, DANÇA.
Seria inútil e para lá de lugar comum afirmar o meu amor por esta arte que esteve comigo desde que tenho consciência de ser gente. Arte incompreendida e a mais antiga de todas, dizem os entendidos. Instintiva, visceral, total e humana e, portante, livre e perigosa. Sempre foi vista como algo a controlar e a proibir. No que se refere a países muçulmanos, continua a ser assim embora o resto do mundo já esteja mais aberto e evoluído nesses termos.


· Enquanto o corpo humano for tabu, a dança será vista como arte menor e alvo a abater por sociedades que não sabem lidar com a sexualidade, sentimentos e fisicalidade das suas gentes.
· Há quem use a dança em seu proveito e quem já tenha nascido com ela no sangue. Eu penso encaixar-me no segundo exemplo. Essa urgência inata de expressar quem se é através da música manifestada no corpo.Sempre fui assim e não penso que essa força se extinga, por mais preconceitos e maldades em torno da arte que me atrevo a chamar um pouco minha.


· No Dia Mundial da Dança, gostaria que reflectíssemos na relação que temos com o nosso próprio corpo e nem tanto na dança em si mesma que sempre existiu, existe e existirá sobrevivendo a toda a ignorância e até a leis islâmicas que a condenam como “haram”, o grande pecado e um dos grandes crimes contra a honra de uma mulher cujo corpo ainda é encarado com amor/ódio.


· Neste dia especial, abaixo a forma negativa como tantas mulheres e homens se vêm a si mesmos e aos seus corpos que torturam com dietas, operações plásticas e todo o tipo de agressões que os transformam numa versão iludida daquilo que se pensa que é a perfeição. Como disse já a uma aluna, não interessa tanto a dimensão das tuas pernas ou dos teus braços como a dimensão da tua ALMA. É a partir dela que a qualidade da dança se define.


· Abaixo a negatividade e extremos com que lidamos com tudo o que está relacionado com a sexualidade – especialmente, a das mulheres – e com o nosso lado instintivo.


· Animais ou humanos? Ambos.


· Sensações ou intelecto? Porquê ter de escolher um em detrimento do outro?


· Alegria ou tristeza? Que escolha absurda se a vida carrega com as duas e a dança não é senão um espelho poético da vida.


· Abaixo a ignorância da falta de percepção do que significa DANÇAR e da função essencial desta arte que é, afinal, unir-nos sem palavras. A linguagem da dança, como a do amor, é universal. Abaixo a escuridão e as mentes presas em corredores estreitos.


· Viva a Dança e a VIDA que são uma e a mesma coisa.

“Trabalho em Portugal com Hosny Watatak – um pouco do Egipto na minha terra...”


Lisboa, dia 27 de Abril, 2009


“Trabalho em Portugal com Hosny Watatak – um pouco do Egipto na minha terra...”

Regressar ao meu país é sempre uma oportunidade para respirar fundo e hibernar, temporariamente, à distância dos holofotes dos espectáculos diários do Egipto. Por mais trabalho, promoções televisivas e entrevistas à imprensa que eu possa ter nada, mas nada se equipara ao nível de pressão, luta e julgamento constantes a que estou diariamente submetida no Egipto e, por isso, tudo me parece fácil, fluido e sem o peso dos meus desafios habituais.
Vim com o percussionista principal da minha orquestra do Cairo e não me desiludi com os resultados. Além de ser uma pessoa fantástica – aspecto essencial para mim! – o Hosny é também um daqueles raros profissionais e artistas de quem eu posso sempre esperar talento, eficiência, delicadeza e um profissionalismo a toda a prova. Caso raro, portanto...sei que ter o Hosny na minha rectaguarda – seja nos workshops como nos espectáculos – equivale a ter um chão bem semeado, fértil e atento a partir do qual não só retiro o que necessito mas também colho surpresas inusitadas, frutos sagrados de arte e generosidade, mesmo em momentos e circunstãncias nas quais qualquer outro percussionista apenas “cumpriria aquilo que dele se pedisse”. Gosto de ser surpreendida quando da arca se sacam tesouros que valem a pena partilhar!

Espectáculos:


O “background” musical que estava previsto e previamente assegurado para seguir o Hosny nos espectáculos acabou por desaparecer num segundo, provando – uma vez mais – que até amigos nos podem deixar desamparados e à nora. Aprendi a minha lição!
Também constatei que até alguns dos percussionistas que mais trabalham no nosso país têm extrema dificuldade em acompanhar o Hosny. Aqueles que se afirmam mestres da percussão e se dão ares de estrelas acabam por ficar reduzidos a simples e desajeitados principiantes ao lado do Hosny. Isso não só me entristeceu como me envergonhou porque eu assegurei ao meu músico que tinha contactado alguns dos melhores da percussão árabe em Portugal!
“Em terra de cegos, quem tem olho é rei!” e isso aplica-se a Portugal desde tempos imemoriais. Estes dias, tenho recordado As Farpas de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão e a forma como descrevem o nosso cantinho à beira mar plantado como terreno fértil para falsos profetas e todo o tipo de mesquinhezes aplaudidas em ovação contínua. Continuamos a ser pequeninos não só em dimensão geográfica e económica como mental e não parece que a maioria das pessoas que aqui encontro, a cada visita que faço a Portugal, tenha o desejo de o alterar. A crise económica e um Governo que apenas desgoverna e se “governa” a si mesmo e aos amigos também não ajudam ao estado do país. Deixa-me triste constatar que este sítio onde nasci e do qual tanto me orgulho – o nosso Mar,a nossa Amália, a nossa História e gastronomia, a nossa alma de poetas e aventureiros, a nossa humildade de gente boa repleta de sal e sonhos – continua a descer as escadas que outros sobem. O espírito do “desenrasca” e do desalento nunca esteve tão vivo e isso reflectiu-se em tudo o que tenho feito em Portugal desde que aqui cheguei!
No entanto,não há nada que venha por mal mas tudo na vida chega com um propósito e “timing” perfeitos. O trabalho que era suposto ser apresentado por quatro percussionistas acabou por ser feito – e com louvor! – por apenas um percussionista e uma bailarina, já habituada a fazer omeletas deliciosas sem ovos ou qualquer tipo de especiarias.
Tendo constatado que o nosso “background” percussivo estava fora de serviço, ainda tentámos gravar as bases de percussão em estúdio para servirem de apoio à “tabla” ao vivo do Hosny.
Para quem não sabe, um grupo básico de percussão árabe é, normalmente, composto por:
Tabla ou darabuka, tocada pelo solista da orquestra que executa todo o tipo de variantes de ritmo e detalhes.
Dohola ou tabla de maior dimensão e som mais grave que executa as bases rítmicas servindo de apoio à “tabla” que assim fica livre para poder criar aquilo que se reflectirá em ornamentos ricos e expressivos para a dança.
Adufes, bendires e riqs que acompanham a dohola e a tabla criando uma base percussiva mais colorida, rica e sólida. Este “back-up” massivo acaba por dar corpo à zona percussiva da orquestra bem como alma e energia ao solista e à bailarina.
Esta é a estrutura com a qual eu estou habituada a trabalhar no Egipto e noutros países árabes onde estive em cena com uma orquestra.
A realidade com que me deparei em Portugal foi desoladora: eu, um cd e um único percussionista. O deserto em toda a sua angústia e vazio. Em vez de entrar em pânico, decidi tomar as rédeas da situação nas minhas mãos – como faço sempre – e corri com o Hosny para um estúdio de gravação onde passámos várias horas a entrar criar o impossível: misturar percussão ao vivo com uma base musical gravada em cd.
O Hosny gravou “takes” das 15h até às 22.00h e eu corrigi, indiquei, apoiei e tentei coordenar todos esses “takes” pelo mesmo período de tempo. Acabámos com os tímapanos à beira da explosão e com bases percussivas gravadas para tres temas e absolutamente nada que pudéssemos usar dessas mesmas bases.

O que aprendi desta experiência de estúdio:
· Um músico que é excelente ao vivo não é, forçosamente, excelente em estúdio (e vice-versa). Em ambos os campos se requerem qualidades específicas que nem todos os músicos acumulam. Em palco, a criatividade e a qualidade técnica aliados ao carisma e capacidade de improvisação/diálogo com a bailarina são qualidades essenciais a ter em conta.

· Em estúdio, a técnica, exactidão, criatividade, memória e disciplina mental e física dão o mote para uma gravação rápida e eficaz. São requeridas qualidades mentais – mais que criativas – que nem todo o músico que está habituado a tocar sempre ao vivo seguindo uma bailarina possui. Tal como um bailarino que está apenas habituado a improvisar e se vê obrigado a memorizar e reproduzir na perfeição e vezes sem conta uma mesma coreografia que não lhe pertence. O cérebro é estimulado de formas distintas e aquilo que é pedido a um bailarina quando improvisa não é, forçosamente, aquilo que lhe é pedido quando ele tem de reproduzir uma estrutura memorizada de forma exacta e mecânica. A esfera mental e a esfera intuitiva/criativa do cérebro são duas áreas que raros profissionais da música estão habituados a trabalhar em simultâneo.

· Aprendi também que a música ao vivo e em pleno improviso é de uma natureza oposta à música gravada, estática e pré-definida. Tentar misturar as duas é como unir a àgua ao azeite.

· Depois de muita lufa-lufa, tentativa de soluções variadas e uma sessão de estúdio exaustiva e frustrante, acabámos no ponto de partida que temíamos: o aparente vazio. Eu, o Hosny e o cd (além da responsabilidade de apresentar um espectáculo que faça justiça ao meu nome sem uma quinta parte das condições a que estou habituada).

· No entanto, existe algo que eu afirmo de forma recorrente aos meus músicos quando as condições que com que contávamos falham: Onde existe um artista, existe arte.

· Posso dançar ao som do vento, das areias em tempestade, da brisa ou até do silêncio sobre o qual eu crio a minha própria música. Basta a presença de um único artista para que momentos de ARTE possam acontecer. Tentando ser coerente com aquilo que eu própria afirmo com tanta frequência, decidi que daria o meu melhor e que o Hosny também o faria, apesar de ambos sermos obrigados a actuar sem chão.

· Tal como previa, a arte prevaleceu sobre as condições adversas. Junte-se à falta de “back-up” percussivo a existência de técnicos de som/luzes totalmente incompetentes e uma falta total de apoios com a qual me deparo sempre que venho a Portugal.

· Aqueles que foram, para mim, espectáculos caóticos e apresentados sem o mínimo de apoio musical ou logístico, acabaram por ser momentos fantásticos para as audiências que nos viram. Isto também se aplica aos programas de televisão onde fomos convidados e nos quais também me deparei com um ambiente geral de desalento e falta de profissionalismo (com muito raras excepções).

· Que acontece quando um grande chefe de cozinha tenta reproduzir um dos seus afamados pratos sem os ingredientes com que sempre o cozinha?! Em vez de trufas raras, azeite rico do Mediterrâneo e todos os condimentos necessários à concretização da sua obra de arte, o chefe tem ao seu dispôr um tomate e meia dúzia de ovos do aviário. Como reproduzir o nível artístico e a riqueza do sabor a que habituou os seus clientes quando nada do que ele necessita está ao seu alcance? Como dar alma a algo que está morto como é o caso de um tema gravado em cd? Como dar corpo melódico ao vazio?

· Os milagres acontecem quando acreditamos na sua possibilidade e no poder do talento, da energia, do amor de quem faz o que faz por vocação e com paixão/convicção. Esta foi a grande conclusão desta nossa passagem por Portugal. Criando milagres sem santos. Partindo do vazio para dar à luz momentos musicais plenos de musicalidade. Dando vida àquilo que não tem vida.

· Agradeço a presença e constante carinho de todas as alunas e público que fizeram parte deste milagre da “multiplicação da música”! A vossa presença e calor foram parte essencial desta arte tão peculiar e portuguesa de fazer omeletas sem ovos!

· WORKSHOPS

· Ensinar é uma das áreas que mais me apaixona e sei que, num futuro que ainda prevejo longínquo, quando deixar de actuar ao vivo, passar a informação, experiência e conhecimentos que tenho acumulado será um prazer e uma sequência natural da minha carreira. Poder despertar pessoas de todo o mundo para o prazer e riqueza de uma dança que é tão mal vista até hoje será sempre o meu maior objectivo. Diz-se que ninguém é Messias em terra própria e é bem verdade. Vejo o respeito e reconhecimento que tenho recebido no Egipto como esmagadoramente maior do que aquele que recebo sempre que venho ao meu próprio país.

· Há quem se sirva da dança para benefício próprio – propagando a imagem comercial e pobre da “Dança do Ventre” - e há quem prefira servir a dança para benefício da dança e dos bailarinos que a dignificam.

· As alunas presentes nos “workshops” foram simplesmente fantásticas e deram aos eventos um tom amoroso de partilha, beleza, aprendizagem e comunhão.

· O Hosny acompanhou brilhantemente todos os exercícios que fizémos e estabeleceu uma ligação sem palavras com todas as alunas que tiveram a oportunidade de improvisar com a sua “tabla” ao vivo e assim saborear um pouco das delícias de dançar na presença de um músico talentoso e experiente.


· Não poderei descrever o prazer que foi ensinar estes grupos de alunas e o ambiente maravilhoso que elas conseguiram criar. Quem me conhece bem sabe que sou extremamente sensível à energia e atitude das pessoas que me rodeiam e jamais estimulei ou tolerei competição entre alunas, mexericos e todo o tipo de inutilidades a que se assiste regularmente quando grupos de mulheres se juntam, especialmente em cursos de Dança Oriental onde a confusão entre EGO e ALMA se instala com assustadora frequência.

· Ter grupos de alunas simplesmente amorosas que ali estavam para aprender e partilhar em vez de competir entre si e perder tempo com mexericos e invejas foi o melhor presente que me podiam ter dado a mim e ao Hosny nesta nossa curta passagem por Portugal. A alegria, concentração e capacidade de trabalho das alunas não passou despercebida ao Hosny que acabou por comentar comigo como se tinha sentido feliz e realizado ao poder fazer parte destes workshops.
· Eu também me senti feliz e agradecida por ter recebido gente tão bonita e pronta para aprender e tenho de agradecer a cada uma das alunas presentes pela contribuição que deram aos eventos.
· Agradeço todos os emails e fotografias enviados por várias alunas mostrando, uma vez mais, o reconhecimento e carinho daqueles que seguem o meu trabablho e o valorizam. Muito obrigada a todas. As palavras de apoio, respeito e satisfação da vossa parte são o combustível que esta máquina humana que sou eu se alimenta.

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Aparições na televisão portuguesa:

· Eu e o Hosny passámos por vários programas de televisão em Portugal.Em duas semanas, estivemos em cinco programas diferentes mas o mote e forma de trabalhar é comum a todos. Aterrei no aeroporto de Lisboa num Sábado às 7.30h da manhã e já estava a ser maquilhada para entrar em estúdio ás 9.00h dessa mesma manhã. Como tudo no nosso país, a televisão também mudou radicalmente e a forma de trabalhar das produções de há quatro anos atrás – altura em que deixei o nosso país – já não é a mesma das equipas que agora encontrei.
· O país mudou e muito! Foi necessário ir à televisão para me dar conta disso?!

· Embora não acompanhe minimamente a televisão portuguesa nem nada do que nela se faz durante os curtos espaços de tempo em que cá venho (excepção para o “Gato Fedorento” do qual sou fã), já me apercebi que nos encontramos no reinado do popularucho e do drama pessoal comercializável. Qualquer vítima desta sociedade que tenha uma história suficientemente trágica para vender, está a meio caminho do estrelato instantãneo e de aparecer num programa de televisão com pompa, circunstância e um tempo de antena que não é dado aos artistas do nosso país. Lágrimas e histórias deprimentos valem ouro neste novo país que eu desconhecia.

· O mal e o drama de estranhos acaba por ser um bálsamo para as maleitas do povo português afogado em desalento nos seus sofás adquiridos com empréstimos cujos juros já não conseguem pagar. Parece que a televisão portuguesa está , definitivamente, concentrada em fazer subir audiências a partir da exploração exaustiva do sofrimento alheio e isso não deixa grande espaço para aquilo que se faz de bom, bonito e “feliz” em Portugal ou no estrangeiro. A felicidade e aquilo que se constrói não vende. Só a infelicidade exposta em público parece render.

· A guerra de audiências e a era do “fast food” televisivo tocaram-me na pele de forma muito particular nesta minha passagem por Portugal. As entrevistas tiveram de ser realizadas em tempo “record” contado ao segundo para que a reduzida capacidade de concentração do público não se esgote num tema (resultando numa eventual mudança de canal à distância de apenas um toque no controlo remoto do televisor), as informações relativas aos eventos que eu vinha promover acabaram por não ser passadas devido à pressa de passar a um novo tema e as danças que apresentei foram consideradas demasiado “longas” porque tinham cerca de 3.30mns... Tres minutos e meio parece ser, de repente, uma eternidade para quem vê dança na televisão mas somente um segundo se esses tres minutos e meio forem aplicados a descrever a forma assustadora como fulano tal agride a sua avózinha à machadada... que país estamos nós a construír?! Confesso que estou mais preocupada que nunca. Embora não viva em Portugal, tenho família, amigos, alunos e tanta gente que me quer bem, que eu adoro e que cá vive.

· Quero regressar a um país do qual me orgulhe. Este passará a ser o meu novo sonho na longa lista que guardo na algibeira.