Thursday, March 29, 2012

"As Dançarinas do Cairo" - "Les Danseuses du Caire" (legenda em português)




Muito grata ao Marcos Ghazalla por partilhar este vídeo.
Um comentário completo ao que aqui se expõe seria um pequeno tratado sobre o estado da Dança Oriental no Egipto mas eis alguns pontos que gostaria de sublinhar para que outros/as bailarinos/as conheçam melhor esta realidade como ela, VERDADEIRAMENTE, é.

Há que dizer, primeiro que tudo, que o percurso de cada bailarina que trabalha no Cairo é único e com contornos particulares, não forçosamente aplicáveis a toda a gente.
No meu caso, as coisas têm sido - desde o início - atípicas e, devo dizer, pelo caminho mais complicado de trilhar. Vim para o Cairo sem agente, empresário, contactos ou perspectivas de trabalho. Ninguém me deu a mão, muito pelo contrário, e o trabalho que consegui veio - EXCLUSIVAMENTE - da minha perseverança, ousadia e provas dadas de talento e competência.
Este não é o trajecto das bailarinas que conheço. Estrangeiras ou egípcias. Por norma, elas têm um agente que as promove, lhes procura contratos, lhes arranja uma orquestra e a ensaia e lhes assegura a continuidade da carreira. Na maioria das vezes, este agente é um proxeneta (dos pobrezinhos ou dos ricos) que não a auxiliará sem levar dinheiro e/ou sexo extra para casa.

Fui eu, sozinha, quem arranjou os meus contratos, quem reuniu a minha orquestra, quem os ensaia e quem faz com que a minha carreira evolua.

Depois existem as várias classes de Bailarinas:
Este vídeo mostra tres delas, bem distintas.

*A mais baixa, bailarina egípcia de "cabarets" de quinta categoria que é, na verdade, prostituta assumida. Ainda que não o fosse, a sua família ofereceria oposição à sua profissão mas a verdade é que, a este nível, todos sabemos que o palco é apenas uma montra barata para angariar clientes para a prostituição. Na maior parte das vezes, elas nem recebem "cachet" pelo "espectáculo", sabendo que conseguirão o seu pagamento de outras fontes.

*A bailarina de estatuto médio, estrangeira, actuando -maioritariamente - para turistas. A sua orquestra é mais reduzida e o que ganha também mas, por norma, trata-se de profissionais honestas que AMAM a Dança e que por ela se sacrificam, trabalhando no Cairo a fim de obter um mais profundo entendimento da Música e da Dança egípcias.

*A bailarina, estrangeira ou egípcia, do hotel de 5 estrelas é, por norma, a prostituta de luxo. Embora o aspecto do negócio e os nomes que se dão às coisas sejam mais delicados, a verdade é que não se dança em hotéis de cinco estrelas do Cairo sem andar enrolada com o dono ou gerente do local. A história e os factos comprovam o que digo. Estas bailarinas são, geralmente, as namoradas dos seus próprios patrões que nelas investem como se investe numa propriedade da qual se tira proveitos vários.

Feita a distinção, é bom focar que a Dança Oriental ainda é vista como sinónimo de prostituição e todo o sistema em que ela se desenvolve funciona nessa base. Para se conseguir singrar neste mercado sem dormir com o patrão ou com clientes poderosos do dinheiro, há que acontecer o seguinte:

1. Um milagre de Jesus e Nossa Senhora Aparecida.
2. MUITO talento, jogo de cintura para contornar a sujidade e os jogos que esta máfia tanto adora.
3. Ser perseverante, profissional, sempre no ponto máximo da forma, da inspiração, da força. Há que ser GUERREIRA, como menciona o Marcos, mas com o coração de uma ARTISTA que entregará ARTE com ALMA ao seu público.
4.Há que AMAR muito o que se faz e ter uma pele calejadíssima que não se deixe ferir por nada, nem ninguém.
5.Tem de se ser LUTADORA, sacrificando vida privada, família e outros confortos em troca de uma experiência profissional e pessoal que nos poderá marcar para toda a Vida.
6. A inteligência aguda é imprescindível para aprender depressa, não caír no mesmo erro duas vezes, saber defender-se das armadilhas e ataques constantes e EVOLUIR. O Egipto não dá TALENTO a quem não o tem. Nem, tão pouco, ensina a dançara quem não sabe como fazê-lo. O que o Egipto faz, se formos fortes o suficiente para vê-lo, é trazer ao de cima ALGO de EGÍPCIO que algumas* bailarinas carregam dentro de si.

O "glamour" e fantasias que se associam a esta vida não passam de patetadas de quem nunca passou pela experiência ou teorias de mentirosos que pretendem iludir bailarinas, trazendo-as até ao Egipto para as usarem, enganarem, lhe extorquirem dinheiro em troca de desilusão e desencanto.
Desde que comecei a actuar aqui, já lá vão seis anos, nunca conheci senão trabalho árduo, dificuldades e MUITA LUTA. Os privilégios são íntimos, muito mais que públicos. Aprender, a fundo, o que significa DANÇA ORIENTAL, ser reconhecida pelo público local como uma ARTISTA e não como uma "rakasah"/equivalente a prostituta, actuar com alguns dos melhores músicos do país, aprender com eles, respirar o ar do Egipto que levo no peito, receber bailarinos de todo o mundo que aqui vêm para assistir aos meus espectáculos e estudar comigo e outras benção íntimas, invisíveis a quem está de fora desta história.

O documentário mostra um lado duro e negativo da Dança Oriental que é, a meu ver, verdadeiro. O extremismo religioso, cada vez mais óbvio no Egipto, tem dizimado a pouca massa cinzenta que ainda existia nesta população exausta e desalmada de tanto espernear pela sobrevivência mais básica. Os dogmas, a ignorância, os preconceitos e repressão crescem na mesma proporção desse extremismo religioso e as Artes pagam por isso, especialmente uma Arte tão mal compreendida, praticada e usada como a Dança Oriental.

Terá de haver um renascimento desta Dança. Já uma oitava acima do que é comum ver-se. Já regressada à sua origem que é RELIGIOSA, DIVINA, SUPERIOR. Creio que esse RENASCIMENTO já está a acontecer, contra ventos e marés...

4 comments:

  1. Verdadeiramente chocante esta realidade que a Joana apresenta... pelo menos para mim! Concordo plenamente quando diz que há que dignificar esta profissão. Muito me surpreende que sejam tão poucas as bailarinas que o façam!!! O relato da sua vivência por esses lados permite perceber que nem tudo são rosas, mas acima de tudo transparece a importância que a dança tem na sua vida. Muito obrigada por este testemunho.
    Xana Lemos

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  2. Querida Xana,
    A aprendizagem e o sucesso que tenho ganho com a minha vida pessoal e profissional no Egipto são tesouros pelos quais agradeço a Deus todos os dias mas tudo vem com um preço. Quem julga que as conquistas têm sido fáceis, desengane-se.

    Posso falar apenas pelo que conheço, vi e experienciei em primeira mão e a realidade é exactamente como eu a relato, embora não seja a informação que, por norma, as bailarinas partilham com o mundo.

    Sinto imenso orgulho no meu percurso e na forma honesta com que tenho ganho cada vitória. Quanto maiores são os sonhos, maior é o preço a pagar por eles mas está nas nossas mãos escolher QUE PREÇO pagar. Prostituir o corpo e a alma em troca de sucesso não fazem parte da minha lista de possibilidades. Por isso, tenho de dar o litro e lutar a triplicar mas, graças a Deus, tenho conseguido sempre sair vitoriosa.
    Do Egipto, para o mundo...
    Um abraço enorme do Nilo!
    J.

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  3. Joana,
    tenho acompanhado o seu trabalho, ao longe e em silêncio, mas sempre com muita admiração!
    Tenho aulas de Dança Oriental há apenas um ano, mas há muito que me fascina a força e a beleza, muito mais interior, que exterior, que esta Dança traz às Mulheres. Penso que o trabalho que tem feito não só é libertador para as mulheres que se cruzam consigo ai no Cairo, mas também para todas as bailarinas para quem é uma fonte de inspiração aqui em Portugal.
    Queria apenas demonstrar algum do carinho que temos por si e assegurar-lhe que, pelo menos para nós, o seu trabalho é muito importante.
    Continue, por favor!
    Um grande beijinho,
    uma admiradora principiante.

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  4. Que querida...muito grata por essas palavras tão amorosas. Sabe bem recebê-las e estimula-me a fazer sempre Mais e Melhor***,
    Com um abraço do Nilo~~~~
    JoanaS.

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